A hipocrisia dos moralistas e o ataque à classe de artistas

Publicado em 27/10/2017

Nesta quarta feira dia 25 de outubro 2017 o jornal A Gazeta, de circulação em todo o estado do Espírito Santo, trouxe uma matéria intitulada: “Artistas detonam projeto de lei”. Na matéria deparo-me com imagens da obra que está em cartaz no Teatro municipal de Vila Velha-ES do meu professor de pintura e desenho Caio Cruz que leva o nome “Peito aberto”. Nesta exposição Caio apresenta corpos de mulheres que passaram por mastectomia (remoção da mama) e quer provocar o público para o olhar sobre o câncer da mulher, um bom olhar em pleno mês “outubro rosa”. Porém, ao chegar à exposição, Caio Cruz encontra telas cobertas e retiradas do espaço, por serem de modelos nus. Esta ação aconteceu em um breve evento sobre o Outubro Rosa realizado no Hospital estadual Dório Silva,Na matéria Caio diz que “...as pessoas têm que parar de associar o nu artístico à pornografia”.
 
No projeto de lei proposto pelo Deputado Estadual Euclério Sampaio (PDT) e que foi aprovado na plenária do dia 23 de outubro da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, abre precedentes para caso de censura prévia e abre a possibilidade de atitudes arbitrárias e autoritárias.

Esta polemica interessa a quem? Em plena crise política, onde o brasileiro já constatou o golpe político que houve na cassação do mandato da Presidenta Dilma e no escândalo de compra de parlamentares com cargos e verbas federais para que o congresso rejeitasse as denúncias contra o presidente Temer, emerge este conflito contra a classe artística, emerge a hipocrisia dos moralistas.

A gota no copo cheio d’água foi quando uma criança coloca a mão no pé de um artista fazendo performance nu. A imagem rodou as redes sociais e de forma descontextualizada serviu para aviltar os ânimos dos ultra conservadores. E o alvo passou a ser os artistas. Este ataque moralista está confundindo uma cena pornográfica de uma expressão artística. Mas revela um grave problema no seio da sociedade brasileira, da ascensão de uma moral farisaica em nome de um pseudo cristianismo. O próprio Cristo atacou veementemente a prática hipócrita dos fariseus, que faziam leis rígidas para os outros viverem, e vendiam uma falsa moral, de colocar a lei acima do ser humano. O próprio crucifixo é um corpo nu.

A decepção do artista Caio Cruz ao ver sua obra censurada está diretamente relacionada com a forma grotesca e sem consistência destes ataques. Nós sabemos de onde vem e quem são os promotores desta intransigência. São representantes de grupos que pregam uma religião repressora, controladora e que não é capaz de ver e interpretar os fatos. Lembro-me que um dos ícones deste tipo de pessoa que é o Deputado Federal Feliciano, que disse há poucos meses atrás que artista não trabalha e são vagabundos tentando se beneficiar de verbas do governo. No dia que Feliciano disse esta besteira, estava tendo aula no ateliê de Caio e ficava pensando como pode um sujeito com tamanha representatividade e poder  falar uma besteira desta. O próprio Caio Cruz trabalha quase que três períodos por dia, ministrando aulas para crianças, adolescentes e adultos e, além disso, produz muitas encomendas de caricaturas para todo o Brasil, além de estar em contínuo processo de montagem de novos temas para suas exposições. 

Estes moralistas, que afeta a muitos pais desinformados, que não sabem distinguir um nudismo artístico de um nudismo pornográfico, em suas casas permitem seus filhos assistirem filmes acima da idade indicada, permitem que assistam novelas com temas eróticos e criminosos, permitem os filhos ficarem pendurados em celular e plugados em redes sociais onde todos falam o que quer. Há uma contradição entre o discurso e a vida privada. Sabemos que quanto mais moralista é um indivíduo, mais contraditória é sua ação. A maioria dos parlamentares brasileiros que representam grupos religiosos estão envolvidos direta e indiretamente com a malha da corrupção. 
Atacar aos artistas e suas produções nas diferentes formas de expressão são uma forma de tirar o foco à percepção do olhar público à realidade brasileira. Também é uma forma de poder para manutenção de seus grupos religiosos, pois sabemos que a arte e a classe artística é uma das poucas que consegue com criatividade derrubar podres poderes. Olha o quanto a musica popular brasileira durante o regime militar contribuiu para a população ver os fatos que estavam sendo camuflados do olhar da população.

O alerta que faço aos pais é de não entrarem nesta paranoia de controle moralista na educação de seus filhos. Crianças e adolescentes não carregam a mesma malícia de olhar ao corpo nu que os adultos colocam. Criança sabe entender o que é uma cena primitiva ( conotação sexual conjugal ) de uma cena de expressão artística. São os pais que direcionam para o olhar malicioso seus filhos, pois se apegam ao moralismo ultra conservador muitas vezes para não ter que enfrentar problemas de ordem sexual que eles mesmos tem dificuldade de elaborar.

Daqui a pouco vão exigir que em todas as esculturas de praças, igrejas e museus sejam colocados roupas. Tirar os filhos do convívio do ambiente artístico é conduzi-los para o caminho da vida como se conduz um burro com viseira em uma estrada aberta. A arte e os artistas libertam. 

Participei do processo de elaboração da Classificação Indicativa. Foi uma conquista que hoje vemos estampada nos programas televisivos. Cabe aos pais decidir se o filho vai ou não assistir ao programa, e com isso a Classificação Indicativa é um auxilio para os pais. Eu utilizei estes mecanismos em casa. Sou pais de três meninos com cinco anos de diferença de idade entre cada um, hoje 25, 20 e 15. Assim, coloquei senha para poder assistir uma programação, pois o mais velho queria assistir a um filme para sua faixa etária, mas o mais novo estava presente na sala. Aí era eu quem tinha que ler a sinopse do filme e depois definir quem poderia assistir. Lógico que se há senha há um mecanismo de descobrir os números dela. Mas quando isso acontecia, ia ao sistema e refazia a senha. Sempre atuei assim com minha esposa no processo de convivência à eventos artísticos, e olha que em minha casa vamos muito a eventos artísticos. O critério era o mesmo, víamos a classificação etária. Porém, sempre presenciei cenas de pais que levavam seus filhos em eventos não indicados para crianças. Aí é responsabilidade dos pais. Se na cena da criança diante do bailarino nu no MASP foi autorizada pelos pais, qual é a responsabilidade do produtor do evento e principalmente, qual é a culpa do artista?

A produção artística sempre é a que mais sofre nestes pais, e ser artista por escolha e vocação é um desafio de sobrevivência. Este debate sem senso, sabedoria e conhecimento pode criar maior dificuldade para a expansão da arte pelos municípios brasileiros. É acentuarmos a ignorância, é ressaltarmos a falta de educação, é permanecermos atolados num lamaçal.


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Fonte: Jornal A gazeta

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