O Bullying nas escolas deve ter tolerância zero

Publicado em 30/10/2017


O episódio da escola particular de Goiânia, onde um aluno do oitavo ano entrou em sala de aula com uma arma na bolsa e durante a aula matou dois colegas e deixou quatro feridos, faz emergir o debate sobre o sistema de segurança das escolas e também sobre o bullying. 

Sabemos que para uma escola manter um amplo sistema de segurança, controlando o que os alunos carregam na bolsa, é uma tarefa para um sistema educacional que parece insano. É indigesto para os próprios alunos, crianças e adolescentes que diariamente convivem na escola, terem que ser monitorados permanentemente para que diminuam as possibilidades de acontecer cenas como esta vivenciada em outubro na escola de Goiânia.. Esse fato quebra todos os paradigmas de convivência na comunidade escolar. Nesta escola particular, com certeza foi a primeira vez ao longo de sua história que uma tragédia desta proporção aconteceu. Pelo que pude observar a escola em si tem uma boa estrutura. 

Devemos lembrar que o aluno que cometeu o crime teve como inspiração um fato ocorrido nos Estados Unidos, país com sistema de segurança bem mais avançado que o nosso e, no entanto, local que continua sendo palco, nos últimos anos , para cenas de violências extremas, quase cotidianas, em escolas e envolvendo arma de fogo. Eles possuem uma escala elevada de homicídios. Algo semelhante entre o garoto de Goiânia e o rapaz dos Estados Unidos  é o bullying, o que nos parece ser o princípio desencadeante.

E é neste ponto específico que quero alertar as famílias e a escola. Vejo que estamos tratando o bullying com um certo modismo, com muito discurso teórico, alguns projetos isolados durante o ano letivo e na prática um afrouxamento sobre a temática. Já começamos a ouvir pais e educadores argumentando que há certo exagero. Opiniões do tipo: “- na minha época todo mundo brincava com os colegas e davam apelidos e não tinha esta frescura”. Com isso, as escolas vão afrouxando na manutenção do processo de conscientização e também de intervenção direta quando se detecta o bullying.

Hoje já temos muitas ferramentas sobre o assunto que podem ajudar a desenvolver práticas eficazes.. Com isso, intervir é uma questão de atitude. Não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. O problema é que na escola, conforme os meses passam, há um acúmulo de atividades, provas e mais provas, expectativas dos alunos em torno dos resultados, dificuldades econômicas da própria instituição, como nas públicas por falta de investimento do Estado ou como nas particulares que sofrem com o alto índice de inadimplência. Enfim, neste emaranhado de coisas, a questão do bullying passa batido.
No caso em questão, o aluno que cometeu o homicídio, pelo histórico na instituição, apresentava alguns comportamentos característicos de quem sofre bullying. Isolamento em relação à turma, pouca comunicação. Houve narrativas que contam que em uma festa a fantasia ele tinha ido de Adolf Hitler. Porém, o aluno que provocava o bullying não parecia muito agressivo, seus ataques pareciam mais isolados e numa relação muito direta com a vítima.

O que podemos apreender deste triste fato é que para o bullying devemos apresentar tolerância zero. Pois tanto a vítima como o agressor vão avolumando, durante os anos letivos na instituição, um ambiente persecutório, onde ambos passam a ter sofrimento nos próprios estudos. Neste caso, a morte e ferimentos graves de adolescentes; uma comunidade escolar apavorada. Afinal de contas, quem é quem dentro do equipamento educacional?

Por isso, as escolas devem investir nos intermediadores de conflitos, profissionais como professores, pedagogos, psicólogos, que são referências para que os alunos possam dizer das ameaças que estão passando. A comunidade escolar por ter nestes intermediadores um ouvido para acolher também uma denúncia sem identificação, externa e interna. Imagine se os alunos que observaram  o colega na festa vestido de Hitler pudessem contar com a escuta, na escola, da figura do intermediador na reflexão e na atitude necessária frente a essa problemática? De fato muitos acharam estranho aquela postura, aquela fantasia, e não puderam fazer nada com isso.

Neste episódio de Goiânia, tanto o agressor do bullying como a vítima não tinham problemas com desempenho escolar, o que pode ter ofuscado o olhar dos professores e da equipe técnica . É muito normal as escolas esquecerem dos alunos que vão bem, principalmente em notas. É como se nota fosse o fundamental.  Outro problema no campo de percepção está diante daqueles alunos que se quer são notados, pois não falam, não incomodam, não fazem bagunça, enfim, são os mais disciplinados. Porém, muitas vezes, por trás de um silêncio existe uma dor interna.

Há anos que o tema do bullying vem sendo debatido, e vira e mexe temos fatos drásticos decorrentes dele. Muitos casos drásticos não chegam a ser evidenciados, são aqueles alunos com baixo desempenho educacional que são tratados com déficits, medicados porém não escutados. Geralmente as vítimas de bullying que não se manifestam acabam desembocando no próprio fracasso escolar. As famílias continuam procurando psicólogos por sofrimentos de bullying pelos quais passam seus filhos, mas que não conseguem ter uma resposta concreta. O problema fica pior quando o agressor é filho de um pai influente na sociedade.

As escolas precisam manter canais de acolhida do problema que abranjam toda a comunidade escolar, que possam receber a queixa mesmo de quem não está passando pelo bullying, mas de alunos que estão vendo o bullying acontecer. Para isso há mecanismos de denúncias anônimas. Precisamos manter o tema em evidência, criando um ambiente escolar onde todos estejam na luta contra o bullying.

O tema do bullying e a intolerância a ele devem se associar com o projeto de disciplina na comunidade escolar. Pois a indisciplina está diretamente ligada ao bullying. Escolas que não possuem o foco na disciplina colaboram para que o ambiente cresça na violência, na troca de agressividades e consequente abertura para a entrada do bullying. 

Que este triste acontecimento  de Goiânia ajude a estarmos atentos, vigilantes. A escola ainda é uma grande referência de formação na cidadania de nossas crianças e adolescentes. Lutar para que ela seja espaço da solidariedade, da amizade, da acolhida das diferenças. Construir uma escola da paz é uma meta que toda comunidade deve visar, mais do que notas, aprovações em vestibulares, e lucros (das particulares). A escola que promove a paz, cria cidadãos para o mundo. Pela educação e consequentemente pelo contexto escolar, podemos construir sim a civilização do amor. Se não investirmos nisso, colheremos rancor, ódio, mortes.

Como fazer? Primeiro é desejar; segundo é priorizar; terceiro é envolver pais, professores, equipe técnica e funcionários. Uma escola com tolerância zero ao bullyng é uma escola que transforma o espaço educacional em um ambiente prazeroso. Quem assim o fizer colherá muitos frutos, inclusive nos resultados educacionais.



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