Finados, a morte e o morrer

Publicado em 01/11/2017

O dia de finados chega, e com ele a chuva. Boa chuva! Chuva que anuncia a esperança dos rios encherem novamente, em tempos de suas mortes. 

Morte, tema de finados. Cemitério, visita às catacumbas, túmulos ou nada. No mês passado fui ao enterro da mãe de um amigo. No cemitério, o amigo dizia que aquele túmulo da família estava com aspecto de abandono por que não era hábito da família visitar o cemitério. Dizia ele, que sua mãe preconizava a vida e a ressurreição. Observava aquele cemitério e via que em vários túmulos tinha flores, sinal que pessoas visitam seus mortos.  

Na terra dos mortos, ou em uma linguagem moderna, no condomínio dos mortos, o dia de finados transforma-se em espaço vivo. E muitos que não conseguem desapegar dos seus entes queridos mortos sempre estão marcando presença no cemitério e cuidando do túmulo. Por este apego material, meu pai ganhava um bom dinheiro no dia de finados. Ele sendo marmorista, rezava para finados chegar logo. Para uma marmoraria o tempo de finados é parecido com o natal para o comércio. Para meu pai, finados não era tristeza, era alegria. Para mim, era um misto de tristeza e alegria. Tristeza porque tinha que trabalhar com o meu pai limpando túmulos enormes de pedra, e olha que não era fácil; muito sol, túmulos quentes, pedras escuras, óleo, pano e no final do dia, já noite, o corpo e roupa estava tudo preto. Alegria de saber que meu pai estava ganhando dinheiro, e também porque meu pai tinha um repertório enorme de “causos” de cemitério, mortos e almas penadas, nossa, eu ficava arrepiado e depois riamos pra valer. 

Quando ia ajudar meu pai nos cemitérios da região onde moravamos, São José do Rio Pardo – SP, eu era muito pequeno, uma das imagens que me impressionava era dos túmulos que tinham uma ampla escultura de Jesus Cristo abrindo a porta. Perguntei para meu pai o porquê havia muito daquelas esculturas. Ele disse que era porque ali tinha ricos enterrados, eles gastavam dinheiro com estas coisas. Disse que rico tem mania de jogar dinheiro fora, mas que isso era bom para ele. 

Com este meu histórico de cemitério, passei a ter um olhar sobre finados e túmulos de forma muito racional. Depois, com os estudos da psicologia, com um forte vínculo com a antropologia e a própria teologia, fiquei mais racional ainda com cemitério, velório e sofrimento sobre a morte. A célebre frase “...deixem que os mortos enterrem seus mortos...” soava em mim como um código de existência, o que vale é a vida e os viventes!

Mas tudo isso desmoronou quando meu irmão Edson faleceu. No seu velório e sepultamento entendi o quanto a simbologia do velar, enterrar e ter um túmulo é algo que tem valor. É o registro e legado patrimonial de um ser que gerado, viveu e se tornou pessoa e gerou pessoas, obras e ideias. Também neste dia do sepultamento do meu irmão percebi a presença dos amigos dando força e consolo no momento de perda. Depois esta visão de cemitério, velório e sepultamento tornou-se mais humanizada no meu pensamento quando meu pai morreu e depois se consolidou na morte do meu outro irmão, o Vander. Hoje os três estão enterrados no mesmo túmulo. Uma obra que meu pai arquitetou para o Edson que morreu há trinta anos, e que depois foi o seu próprio túmulo, que está no cemitério onde desde criança trabalhava com ele. No lugar das mil histórias de assombrações que meu pai inventava ali jaz o senhor Manoel. 

Abordo esta minha breve história com o cemitério e seus túmulos para enfim chegar ao fim desta reflexão que é o tema da morte e do morrer. No dia de finados precisamos nos encontrar com a morte, e um lugar bom para isso é o cemitério. Melhor do que o Jornal Nacional diário, pois no cemitério estamos contemplando a realidade da morte e no cemitério do Jornal Nacional estamos sendo enterrados a cada dia com a ilusão de que nunca morreremos. 

Falo da morte necessária. De ouvir a voz de sua morte. Aquela morte que te chama, aquela morte que te anuncia. A cada morte das cem mil células que perdemos por minuto em nosso corpo. Da morte que nos anuncia a cada instante pelo tempo que já é o ontem. O agora já não existe, o amanhã não existe. O que existe é o passado. Vivemos em busca constante do passado, só por ele entendemos o presente e sonhamos com o futuro. Procuramos as nossas origens, cremos em Deus que nos criou, velamos nossos mortos, lemos nossas histórias. O tempo acabou de passar. No nosso relógio vivemos constantemente a morte do segundo que já passou. Assim, se mergulharmos na morte poderemos desvendar nossas origens e contextualizar nosso presente em vista de projetarmos algo para o futuro. 

Na morte de uma floresta, contemplando sua história que não existe mais, assim podemos projetar algo que no futuro recupere a floreste inexistente. Se não mergulho na morte da floresta, não conseguirei recuperar algo o qual já não existe mais. Só pela contemplação da história da morte da natureza, poderemos traçar planos para recuperar o ambiente que pode nos fazer sobreviver. Um dia, um agricultor me disse que na sua propriedade, quando comprara, só tinha pastagem e não havia água. Precisou identificar as áreas da propriedade que no passado eram nascentes de água e tinham mata natural. E realizou um plano de reflorestamento natural destas áreas. Nesta propriedade já fazia 30 anos que não havia água e mata. Após o projeto de recuperação das nascentes ter sido implantado, com 6 anos o proprietário me disse que ressurgiu as nascentes e concluiu dizendo: “A água estava lá em baixo, mas precisa da vida aqui em cima para ela jorrar”. 

Na vida humana é o mesmo. Precisamos nos encontrar com a morte para fazer emergir a vida. As cem mil células que morrem de nosso organismo a cada minuto dão lugar a cem mil novas células, mas é preciso a célula morrer para outra nascer. 

No dia de finados é bom potencializar e contemplar a morte. É um dia para pensar nossa existência. É um dia para abrirmos as portas da vida. 

Quando meu pai disse o porquê das esculturas de Jesus abrindo a porta nos túmulos dos ricos, passou-me a imagem dele sobre seu próprio trabalho, passou-me a visão materialista do cemitério e fez ali uma análise sociológica profunda. Mas hoje depois da morte dos meus entes queridos e com minha necessidade oceânica de crer em Deus, entendo que o Jesus abrindo a porta, representa a esperança de que aquele morto enterrado naquele túmulo  tenha a chance de entrar pela porta do paraíso. Tudo bem que o próprio Jesus disse que a porta é estreita. Acho que é por isso que os ricos faziam e fazem as portas grandes, para acreditarem que a passagem deles para o paraíso seja mais fácil. Tudo bem também que Jesus disse que era mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. 

Vamos usar o dia de finados para pensar, lembrar, conhecer e projetar. E também reavaliar como estamos vivendo e se somos merecedores de passarmos para uma vida eterna ou para o paraíso. E para quem não acredita nestas coisas, que pelo menos finados sirva para avaliar se são merecedores de estarem desfrutando a vida neste planeta.


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