BRASIL O CAMPEÃO MUNDIAL EM ANSIEDADE

Publicado em 06/12/2017


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior índice de pessoas com sintomas de ansiedade no mundo. São 9,3% dos brasileiros com este tipo de sintoma, seguido do Paraguai (7,6%), Noruega (7,4%) e Nova Zelandia (7,3%). 

No último dia 27/11/2017, publiquei o artigo “PORQUE SOMOS O PAÍS DA DEPRESSÃO?”. Neste, mostro o Brasil como o país com maior índice de depressão da América Latina. Também questiono a contradição que afirma ser o brasileiro um povo feliz. Agora temos mais este índice indigesto que é a ansiedade. 

Nos dados da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil, observei que os índices dos sintomas de depressão e ansiedade são medidos de forma distinta. Preocupei-me em observar se não havia repetição de queixas fazendo elevar os dois índices. Claro que não, pois estas medidas são criteriosas e seguem padrões de medição internacional. Porém, os dados são relacionados a pacientes que passaram por algum procedimento de saúde, tanto público como privado. Assim, não tenho dúvidas que há um maior número de ansiosos por ai, pois muita gente não procura procedimentos profissionais e se automedicam. Só de saber que mais de 50% da população brasileira está acima do peso e a questão do não controle alimentar em muitos casos está associada à ansiedade, podemos deduzir que não somos os campeões, mas os recordistas mundiais de ansiedade.

Sabemos que a ansiedade e depressão caminham lado a lado. O ansioso ao melhorar seu sintoma pode deprimir e o depressivo ao sair do quadro pode tornar-se ansioso. Por isso que geralmente os tratamentos de ansiedade e depressão são associados, pois na busca de eliminação de um dos sintomas pode  emergir o oposto. No caso, depressão é o oposto de ansiedade e vice versa. 

A ansiedade é aquilo que está fora do alcance, pois se encontra no amanhã. Anseia-se algo que nem se sabe o que é, e quando se sabe, busca viver o que se espera do amanhã, no hoje. É aqui a prática do ditado popular: “colocar a carroça na frente dos bois”. Com a depressão é ao contrário vive-se apegado ao ontem gerando angústia e depressão, valendo outro ditado popular: “atolado no lamaçal”.

Porém a outra pergunta que surge para procurarmos mais hipóteses e respostas é: O povo brasileiro está fugindo de alguma coisa? Está ansiando o que? Há elementos que favorecem para o desenvolvimento da ansiedade neste país continental?

No Brasil, parece que estamos buscando o que nunca encontramos, nossa identidade cultural, respostas para o que somos, quem somos. Uma sociedade construída sob a perspectiva alheia, no passado os colonizadores portugueses, exploradores por excelência. No presente, o desejo de soberania do povo americano, que observamos na enxurrada de enlatados de produção musical e cinematográfica, como também os programas televisivos. Fugimos de um passado cruel para desejar uma nação soberana aos moldes de quem se tornou soberano pela exploração alheia, como é o caso do país com maior referencial para nós que é os Estados Unidos. Este olhar perpassa a ótica da construção de nossa sociedade pelo viés da política e da cultura. Temos vergonha de sermos descendentes indígenas, pois estes foram dominados e não tinham poder. Temos vergonha de sermos afrodescendentes, pois estes eram escravos e depois sem teto, sem terra, sem nada. Adoramos a culinária Italiana, pois lembra um país nobre e estruturado. E no fundo sonhamos com reinados, dinastias e paetês nos carnavais. Sem raiz definida e sem perspectiva futura de sermos soberanos, ficamos a deriva, divagando. Buscando em algo fora de nós. “Amanhã há de ser outro dia...”. E agora com a crise na política, na economia e nas instituições estruturantes do país, queremos fugir para muito longe mesmo.

Mas será que esta questão macro social/cultural/econômica/política de fato impacta na construção do status de sermos campeões mundiais da ansiedade? A meu ver, sim. Somos decorrência; fazemos parte de processos. Porém, para quem está com a ansiedade diagnosticada, isso pouca importa. Pois o ansioso anseia melhora. E quanto mais deseja a melhora do sintoma de sua ansiedade, mais ansioso ele se torna. Por isso que constato nos processos de psicoterapia com pacientes ansiosos que são eles os mais difíceis de submeter a um tratamento. Brinco com eles que parece que carregam uma “pulga nas nádegas”, que sempre faz com que estejam querendo estar em movimento. Como chegam desesperados em busca de uma solução imediata (para ontem) não conseguem perceber que fazem parte de uma história, de uma cultura e de uma sociedade. Ficam presos em si mesmos. Por isso que nunca olho o problema sem ligar com fatores culturais, sociais, políticos e econômicos. Sempre provoco os pacientes a olharem 360 graus e entenderem o que os cerca, as forças externas a eles. Inclusive vão precisar de muitas forças externas para buscarem caminhos de elaborarem a ansiedade.

Quando em um tratamento contextualizamos o paciente ansioso na sua história e no contexto cultural onde ele está inserido, vemos que de fato o quadro é resultado do meio que o pressiona para desejar o resultados em qualquer aspecto da vida, tanto educacional, profissional, financeiro. E também podemos perceber que na sua maioria o ansioso vem de estruturas ansiosas e que muito exigiram resultados tanto para o sucesso quanto para respostas comportamentais adequadas. Mas também sabemos que a ansiedade é decorrente também de fatores que o sujeito quer esquecer, quer apagar do passado. A fuga do passado e consequentemente sentimento de angústia, que deixa o indivíduo a um tris da depressão, é um elemento impulsionador da ansiedade. 

Dos tratamentos que os pacientes fazem com mais fuga, o da ansiedade está em primeiro lugar. Quando eles sentem uma pequena melhora já estão se dando alta. Escapam do tratamento, pois já acreditam que melhoraram. Pulam para o desejo de no amanhã estarem sem ansiedade, de uma hora para outra. 

Mas é preciso ponderar que ansiedade nem sempre é ruim. Empresários precisam ter um perfil ansioso para poderem projetar no futuro seus negócios. Se tratar um empresário para que ele elimine a sua ansiedade, vou provocar o seu fracasso. Assim, a ansiedade é um elemento que pode ajudar na construção dos sonhos de uma pessoa, para tanto precisamos ajudar o indivíduo a identificar quando a ansiedade é parceira e quando ela é inimiga. 

A ansiedade é parceira quando ela ajuda o sujeito a acreditar no amanhã. Quando ela transforma no seu dia a dia os seus sonhos, que são um devir. Faz o sonho tornar  realidade. 

Porém, torna-se inimiga, quando a ansiedade provoca uma estagnação da ação. A pessoa fica paralisada e querendo explodir por dentro. Deixa de ser produtiva e não encontra ambiência de acomodação e tranquilidade. Deseja tanto e nunca consegue realizar o desejo. E quando consegue, não aproveita e  já está pensando no próximo desejo.

A ansiedade não tratada leva a diversas perdas, dentre elas: Dificuldade de terminar um projeto, tendo fragmentação nas buscas; perda de contato com o cotidiano com prazer, como se estivesse sempre vivendo no automático; pré disposição ao estresse com sintomas psicossomáticos; pré disposição à síndrome do pânico pelos medos do amanhã, principalmente por acreditar que algo pode dar errado; dificuldade na organização financeira pelas compulsões que a ansiedade pode desenvolver; desenvolvimento de obesidade pela necessidade de buscar nos alimentos uma forma de satisfação da ansiedade; perda do potencial sexual por falta de interesse ou por ejaculação precoce; dificuldade de estabelecer vínculos afetivos, pois coisifica as relações; e muitas outras dificuldades. 

Para que o indivíduo possa ver melhora deste sintoma de ansiedade é preciso associar tratamento com auxílio medicamentoso e psicoterapia. Esta parceria colabora para que haja uma contenção de ansiedade pelo auxílio da medicação e ao mesmo tempo uma construção de referências e percepções de si que podem colaborar para a elaboração do sintoma. Também a  manutenção de hábitos organizados, como: Alimentação, horários de trabalho, sono de 8 horas por noite e atividade física com rotina.  

É uma construção que ao longo do tempo, com persistência, o indivíduo não vai eliminar a ansiedade, mas aprender a conviver com ela e até tirar proveito dela. 

Na minha forma de conduzir o tratamento de um ansioso, prezo pela devolutiva ao paciente do que ele mesmo não consegue enxergar, pois só  há mudanças naquilo que o indivíduo entende e elabora. Desta forma, não existe tratamento de ansiedade a “curto prazo”. A meu ver, o que é “promessa de cura a curto prazo” não passa de “psicaretarias”, falsas promessas. 

Enquanto isso, vamos assistindo nosso país ser campeão de tudo o que é desestruturante para a identidade de uma nação. Se um dia o cenário melhorar no meio sócio/cultural/ econômico/ político deste país, com certeza veremos os índices das mazelas despencando no ranking mundial para que deixemos de ser campeões de coisas ruins, para que sejamos simplesmente uma nação soberana onde prevalece a dignidade humana. Pois uma coisa esta ligada a outra e tudo se inter relaciona.   


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