FÉRIAS ! PARA NÃO SE ARREPENDER NO AMANHÃ

Publicado em 10/01/2018


Estou de férias. Há pelo menos 10 anos, tenho me proposto tirar férias de no mínimo 30 dias. Mesmo sendo profissional autônomo e sem emprego fixo, propus organizar-me durante o ano inteiro para presentear-me com férias. Atuo como Psicólogo há 27 anos e durante os 17 primeiros anos de exercício profissional quebrava minhas férias dividindo-a a cada dez dias. E mesmo assim atendia com certa frequência nestes dias. Mas no primeiro ano que pude vivenciar a experiência dos 30 dias corridos de férias, senti um descanso real. Uma sensação de liberdade e um forte desejo de retorno ao trabalho após os 30 dias corridos. Parecia que estava começando a minha carreira profissional após aquelas férias sem interrupção. Hoje vemos a proposta da reforma trabalhista fragmentando as férias dos trabalhadores, como se fossem ganhar muito benefício com isso, porém esta proposta vem carregada do apelativo de garantir empregos. Assim, vemos o sistema econômico impondo ao ser humano a sujeição às regras econômicas, e não as regras tendo que estar a serviço do ser humano.

Podemos argumentar que cada pessoa faz as férias como bem entende, e que cada um sabe definir seu limite para um bom descanso. Mas o problema é que passamos pela vida correndo o risco de não vivê-la nas regalias da qual ela nos oferece. Aos que são empregados com carteira assinada, as férias é quase um luxo em comparação aos autônomos, empresários e até feirantes, camelôs e diversos outros profissionais em que ao pensar em férias parece algo muito surreal. Eu mesmo achava que férias era só para quem tinha carteira assinada, e por isso passei 17 anos trabalhando com poucos espaços de descanso contínuo. Mas quando tomei a atitude de fazer a minha própria organização financeira para desfrutar das férias, vi o quanto esta atitude só favoreceu minha carreira profissional. Como sou um sujeito muito ativo, ficar 30 dias de férias não é uma tarefa tão fácil. Mas consegui criar um esquema criativo nas férias, diversificando várias atividades sem o compromisso de fazê-las. Levanto mais tarde, nado no mar, corro na praia, brinco com os filhos, pratico alguns esportes coletivos (hoje o frescobool com minha esposa), viajo para lá e para cá por perto, sempre visito amigos, listo alguns livros para ler e faço desenhos e pinturas. Só sei que os trinta dias passam sem que perceba. Mas a diferença é que estes 30 dias é uma medida muito interessante de se desconectar com a rotina profissional. Na história do Brasil as férias é um direito que existe há mais de 90 anos. Só no ano de 1977 foi fixada em 30 dias e em 1988 na constituição entra como direito. São várias as pesquisas de comportamento humano nas organizações trabalhistas que justificam o direito dos 30 dias, mas sabemos que há uma forte pressão para que férias saia da pauta de direitos.

Eu só comecei a entrar neste movimento interno de fazer 30 dias de férias quando comecei a receber muitos pacientes na clínica que haviam projetado uma aposentadoria super dinâmica, com viagens e aproveitando o máximo da vida, mas que ao longo da carreira profissional nunca aproveitaram de fato as férias de forma dinâmica. Muitos deles até vendiam as férias ou pouco se interessavam por ela. Como o ser humano tem um limite existencial de repetir ações e criar hábitos, quando o sujeito posterga para depois que se aposentar o aproveitar melhor a vida, irá perceber que ao chegar este tempo ele não conseguirá de fato aproveitar o melhor da vida, pois está codificado existencialmente por mais de 30 anos a sempre trabalhar. Daí, ao se aposentar, fica uma vida sem dinâmica e rotineira. Moro em um bairro onde há muitos aposentados, e logo nas segundas-feiras pela manhã os botecos já estão cheios deles sentados e bebendo cerveja. Na sua maioria são aposentados de mineradoras. Quando estavam trabalhando seus finais de semana e férias faziam a mesma coisa. Depois de aposentados continuam fazendo o mesmo.

É muito comum nas cidades do interior que ficam próximas do litoral, as famílias nas férias de verão irem para uma casa de praia. Mas a esposa vai com os filhos, geralmente professoras ou do lar, que não entram de férias, pois precisam gerenciar a comida, o bem estar da casa de praia. Os maridos empresários só aparecem aos finais de semana para beber e beber. Eles, empresários, que não podem tirar férias. Mas acumulam bens para os filhos degustarem. Pior é quando as pessoas tiram férias e ficam 30 dias entediados dentro de casa assistindo TV ou nas redes sociais. Aí as férias se transformam em um sacrifício. 

Para não cair nesta armadilha, preferi priorizar as férias. Na minha primeira semana destas férias, cai na tentação de atender um paciente novo, pois a família estava desesperada em busca de um diagnóstico. Quase agendei a consulta, mas preferi agendar para depois de minhas férias.

Lógico que esta é uma realidade para poucos, porém alerto aos leitores que este hábito de férias é necessário como um exercício para enfrentar o futuro. Mas qual futuro? O da velhice mais avançada, em que o corpo e a mente já não conseguem mais acompanhar nossos desejos. Se não aprendermos a arte de ficar a toa, de forma criativa, na velhice a ansiedade aumenta, pois vamos querer continuar realizando a força produtiva para um corpo que não acompanha este desejo. Tenho acompanhado muitos idosos que chegam ao tratamento psicológico com forte ansiedade decorrente desta força do hábito de trabalho que ao longo da vida não escolheram aprender a se desconectar. Imagine viver pelo menos uns 20 anos nesta situação!

Agora escrevo este texto, mas descomprometido com compromissos. Nestas minhas férias estou de alguma forma fazendo coisas administrativas em tornos das 3 clínicas que mantenho durante o ano, mas nada com agenda, horários e compromissos. Férias é isso, desligar-se daquilo que te deixa ligado o ano todo. Assim  as forças para o trabalho se redobram, os ânimos se multiplicam.

Um funcionário que faz férias de 30 dias ao ano, é um funcionário mais lucrativo ao longo do ano. Seu patrão ganha mais do que se este funcionário não tirar férias. O golpe do lucro ditando a ideia que férias é prejuízo, é uma armadilha que fabrica ambientes de trabalho insalubres e empresários “pirados”.

Depois que comecei a fazer a minha experiência de férias, descobri que Freud, o pai da Psicanálise, já fazia isto desde 1900. Ele guardava uma reserva financeira, pois também vivia de consultas diárias, para poder sair com a família em uma região de balneário. Esta história vamos encontrar no livro: “Freud” de Piter Gay. Fiquei muito feliz em saber que meu mestre já praticava esta experiência sem nem mesmo eu saber. Não é a toa que Freud foi produtivo até os últimos dias de sua vida. Morreu vivendo.

Afinal, o que levaremos desta vida, se não for à beleza da vida?


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