PROFESSORA NO INÍCIO DE CARREIRA | A ARTE DE ”PROFESSORAR”

Publicado em 01/02/2018


A inspiração para escrever este texto nasceu da motivação de minha irmã gêmea, Jussara, que aos 54 anos inicia sua carreira profissional como professora. Vai ministrar aulas em uma escola pública estadual na cidade de Serra Negra – São Paulo. O que me deixou inspirado e entusiasmado é que minha querida irmã iniciou sua graduação aos 50 anos e escolheu fazer a formação em artes em um curso presencial com duração de quatro anos. Sabia que iria enfrentar uma profissão que exige conhecimento pedagógico, educacional, didático, psicológico e social, por isso escolheu o curso presencial. Quase que a arte é um detalhe  pequeno para um professor de arte em sala de aula. Mas a Jussara começou a carreira com desejo, força e acreditando que fará uma próspera carreira profissional. Aos 54 anos, a Jussara sabe que a prosperidade na profissão Professor não está no lucro, no enriquecimento, mas sim na capacidade de acolher aos alunos com amor, na certeza de transformar pessoas pelo conhecimento e para o conhecimento. Começa com muito pique. 

Mas, sabemos que muitos que estão lendo este texto agora, devem estar pensando que a Jussara está com entusiasmo por que está apenas iniciando sua carreira. Outros dirão que não vai um ano para ela estar cheia de desânimos. Isso porque o professor no nosso sistema educacional é tratado como uma peça dentro de uma engrenagem que não anda. É mais um e menos importante. As despesas em torno de equipamentos, prédios e suas manutenções e muitos desvios de verbas por conta da corrupção coloca o professor em uma condição de sujeito irrelevante. Por isso que nas prefeituras e estados o setor da educação é muito disputado por políticos.

Para o gestor público o professor é um estorvo, pois o sistema requer um número elevado de profissionais ministrando aulas e isto aumenta os gastos com salários que tem um teto máximo dentro da folha de pagamento dos vários campos de despesas que o gestor público pode gastar. Quando os sindicatos dos professores nos seus diferentes estados reivindicam aumento salarial, um dos argumentos clássicos para o gestor não ceder ao aumento é o limite para pagamento de pessoas. Vejo aqui no meu estado do Espírito Santo, onde já se propôs usar o dinheiro dos royalties de petróleo para suplementar salários de professores e fomentar capacitação, contudo esta verba não pode ser usada para este fim. Os royalties só podem ser gastos em infraestruturas. E sabemos que ter dinheiro para infraestrutura é um ótimo meio para se desviar dinheiro com propinas das empreiteiras que depois retornam aos políticos.

A infraestrutura das escolas, a falta de recursos pedagógicos, o acúmulo de hora/aula dos professores que precisam ocupar mais de 40 horas/aulas semanais para poderem ter uma remuneração mínima que possibilite nas despesas da família, a falta de segurança pública que desemboca na escola e esta passa a ser o lugar predileto da explosão do crime; a falta de professores de fato formados em cursos de graduação regular e com isso a baixa qualificação do professor. Por melhor boa vontade que um professor tenha, a carreira de professor exigem conhecimento, capacidade didática para enfrentar diversidades. Sem falar que é no professor que tudo sobre cai, por isso vemos muitos deles apanhando de alunos em sala de aula.
 
Muitos sãos os professores que não conseguiram terminar o ano letivo passado por estresse, depressão, fobia, ansiedade, síndromes. E ainda precisam escutar de muitos que professor tem férias longas e ganham muito bem. Uma amiga minha que é professora de carreira, e já se aposentou em uma cadeira aos 50 anos de idade, ouviu de um aluno que ela estava nadando no dinheiro. Lógico que o aluno vindo de uma família empobrecida de pais desempregados tem no seu imaginário a ideia de que professor ganha muito bem.

Com tudo posto e de tudo que sabemos das dificuldades do professor em sala de aula e no sistema educacional eu ainda coloquei muito pouco, sabemos que para o professor começar o seu ano letivo precisa ter dentro de si uma forte vocação para ensinar, acolher e transformar. Transformar mentalidades, gerar esperança em milhares de crianças e jovens. É preciso ter uma consciência que ser professor é uma missão! Uma missão transformadora.

Para entrar no ano letivo é necessário não perder o brilho e a nobreza de ser professor.  Saber entender o que são os desafios para participar nas transformações do ensino na sociedade. Tem que ter ideologia para estar na profissão. Amor no que faz e amor a quem vai ensinar. Acreditar piamente que a educação é transformadora. Mesmo assim, o sistema vai tentar derrubar a forte autoestima de um professor consciente de sua missão, mas não vai derrubá-lo. Ao contrário, são os professores organizados em classe trabalhadora de professores que podem fazer a revolução neste país. É preciso revolucionar para tirarmos o país do analfabetismo. É preciso ter muita garra para trazer os jovens de volta à escola. Se esperarmos pela elite brasileira para tomar esta decisão, não vamos ver a transformação necessária, pois a elite brasileira quer mão de obra barata no meio agrícola, no chão da fábrica, como era antes da revolução industrial na Europa e antes da revolução socialista na Rússia.
 
Ao ver a Jussara, com todo gás e coragem entrando para a carreira de professora aos 54 anos e desejosa de ter sucesso nesta nova etapa de vida, começo acreditar que mudanças podem acontecer. 

Jussara, vai nessa! Professores estufem o peito, coragem! Filiem-se em seus sindicatos, participem na geração do sistema educacional. Não vão para a escola simplesmente para “dar” aula, mas vão para a escola para “professorar” , tornar-se aquilo que na verdade são: Transformadores de mentes, missionários na construção de uma nação onde os direitos humanos prevalece, e o principal deles, o direito de ser cidadão com educação escolar. Coragem professores. Força! E um bom início de não letivo 


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