“MARIA MADALENA”, A LINGUAGEM DO AMOR!

Publicado em 28/03/2018


Está em cartaz nos cinemas de todo Brasil o filme "Maria Madalena" que tem como atriz principal a aclamada Rooney Mara, duas vezes indicada ao Oscar. 

A indústria cinematográfica sempre traz um filme associado à temática bíblica em período da Semana Santa, porém, geralmente vem carregado de clichês e com leituras da bíblia que nem os mais ignorantes no assunto suportam. Mas neste ano o filme “Maria Madalena” surpreende, traz uma leitura com um olhar interpretativo da bíblia, de forma contextualizada. Pelo menos bateu com o entendimento que tenho da bíblia, que não é pequeno, e também com a linha de leitura teológica que sigo ao lê-la. Um olhar interpretativo e sócio crítico. 

O diretor do filme, Garth Davis, trouxe aos expectadores a linguagem do amor. Enquanto muitos acreditavam que Jesus Cristo seria o Salvador político, aquele que traria a esperança política ao povo Judeu contra a exploração do império Romano, principalmente o grupo político dos Zelotes que no Evangelho tem a representatividade na pessoa de Judas Escariosas. No filme, Jesus é apresentado como um líder religioso forte, mas que prega o amor. Sua revolução é do amor! Jesus não entra nos méritos políticos “dê a Cesar o que é de Cesar”, trás a prática do amor na sua proposta religiosa, mas nesta proposta questiona a política e prega a ética por uma sociedade justa e fraterna. Pela postura de Jesus sua vida pública só durou três anos e foi condenado à cruz. Jesus instaura a ética Cristã de não faça para os outros aquilo que não gostaria que fizessem para ti (Mt 7,12). Questiona a hipocrisia dos fariseus porque criavam regras rígidas para os outros e não para eles mesmos. Nas Bem aventuranças (Mt 5,1-12) Jesus traça sua ética que nada mais é do que a construção de uma sociedade fraterna e de amor mútuo. E mostra-nos como seremos julgados no final de nossas vidas, que é pelos atos de misericórdia (Mt 25,34-40). 

Outra temática forte no filme é o resgate do papel da mulher, trazendo seu foco para a pessoa de Maria Madalena. Alguns amigos que também assistiram, acharam que o filme deixou a mãe de Jesus em segundo plano. Porém, este era o objetivo, colocar o foco na pessoa de Maria Madalena. A mulher que foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus quando ela O encontra fora do túmulo e Este anuncia a paz do Ressuscitado. Maria Madalena, mesmo diante do medo dos apóstolos, foi destemida divulgando o Cristo Ressuscitado.  

Existe uma confusão entre os nomes de “Maria” no Evangelho. A Maria Madalena citada no filme não é a Madalena que estava sendo apedrejada pelos Judeus. Maria era um nome comum na época e Magdala era uma região, por isso Maria Madalena. Esta confusão perdurou na própria Igreja por muitos anos desde 591 d.C, quando o Papa Gregório I, deliberadamente confundiu Maria Madalena com uma mulher pecadora mencionada no Evangelho de Lucas e declarou que ela era uma prostituta. Esse equívoco só foi esclarecido no episcopado de São João Paulo II, em que dedicou uma grande atenção à peculiar função de Maria Madalena como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. 

Porém, conforme indica o filme, ao ser revelada a historiografia de Maria Madalena observa-se que ela é protagonista da luta da mulher por espaço e por direitos iguais. Ela, uma pescadora, conforme indica no filme, também quis seguir Jesus Cristo e para tal foi contra a vontade de sua família que desejava que se casasse e gerasse filhos, o legado das mulheres de sua época. Portadora de uma sensibilidade inigualável acolhia o conflito das mulheres, as consolava diante do trabalho do parto, na época tão cruel ao corpo da mulher. Características que a estigmatizava como estranha e doente mental. Ao seguir Jesus encontra o preconceito de sua família e posterior rompimento e ao mesmo tempo se encontra com os preconceitos dos próprios discípulos de Jesus Cristo, principalmente por Pedro que no filme é retratado como um personagem rígido e apegado as regras, como de fato a história dos primeiros cristãos certifica. Mas, Maria Madalena encontra em Jesus o respaldo para suas ações de mulher que luta pela equidade. Jesus escolhe Maria Madalena para ser sua conselheira e para conquistar outras mulheres na caminhada.
 
No filme, Jesus tem proximidade com Maria Madalena, pois esta é uma mulher forte, sensível e na qual Jesus pode depositar suas inseguranças, face de Jesus muito bem narrada no filme. Um Jesus humano e também frágil em alguns momentos. Esta relação de Jesus com Maria Madalena não é erótica e é desprovida de qualquer vínculo amoroso conjugal. Mas sempre que um homem e uma mulher tornam-se amigos íntimos numa sociedade machista é sempre motivo para especulações eróticas e maldosas. 

Jesus revela-se Aquele que veio quebrar paradigmas quando acolhe uma discípula e a torna quase uma confessora dele. Sabemos que o Papa João Paulo II e também o Papa Francisco tiveram amigas íntimas e com forte vínculo afetivo, fator que provocou na mídia mundial hipóteses de que tiveram "amantes". Isso porque para quem olha todas as relações humanas na ótica do erotismo, é inaceitável admitir que mulheres e homens possam se amar sem a conotação erótica. Pior mesmo é o que sobra para as mulheres que ousam cultivar amigos íntimos em uma sociedade machista. Elas sempre são taxadas de amantes, provocadoras, sedutoras. Ainda hoje, a culpa é sempre da mulher.

Vale a pena assistir ao filme, pois é resultado de uma boa pesquisa teológica. Sabemos que há teologias e teologias, mas a abordagem do filme nos leva a uma melhor leitura da Semana Santa que remete a muitas religiões cristãs no mundo a reviverem a Paixão de Jesus Cristo. Alguns poucos tendem a viver esta espiritualidade com o intuito de fazer pensar a realidade, o contexto sócio/econômico cultural para transformar a fé em ação. Por isso, para quem deseja ir para além dos rituais obsessivos da Semana Santa e fazer potencializar o Cristianismo na transformação da sociedade, pode observar algumas provocações no filme “Maria Madalena”: 

  1. Uma mulher que lutou por igualdade e buscou trilhar seus sonhos.
  2. Uma mulher que encarou o machismo, assim como muitas encaram na sociedade e na própria Igreja Católica e outras Protestantes. 
  3. Um Jesus humano e afetuoso que dá força ao direito da mulher e que rompe com a prática do machismo. 
  4. Um Pedro negro, pois o ator Chiwetel Ejiofor que interpreta o personagem Pedro no filme é negro e temos sempre a ideia que o líder futuro da Igreja seja um Pedro branco. Uma boa percepção para quem se incomoda quando vê um  negro liderando algo. No filme vemos a provocação do diretor em relação ao racismo que paira no mundo, e muito no Brasil. 
  5. Uma mulher que liderou a entrada de milhares de outras mulheres para seguir Jesus e assim fez com que saíssem do enclausuramento no qual as mulheres da época eram forçadas a permanecer. 

Sabemos que toda linguagem cinematográfica acaba sempre deixando lacunas principalmente quando trás a leitura de fatos da história que a própria história duvida. Porém, o maior legado deste filme para a Semana Santa é a sua linguagem provocadora. Nos ajuda a sairmos da rotina cega da prática religiosa, da fé cega em busca da cura e da acomodação e alienação para o coletivo. Gostei do filme porque sempre vi a Semana Santa como uma semana sempre provocativa. Se assim não for, não vale a pena o apego obsessivo aos ritos, pois os ritos sem significados e sem provocação é margem para insanidade. A maior provocação da paixão de Jesus Cristo é dele ter semeado a esperança da construção da civilização do amor. O filme ressalta com força a insistência de Jesus na prática do amor mútuo. 


Compartilhe:

 




Visitas: 686

Entre em contato