PROFESSOR É UMA PROFISSÃO DE RISCO – SOBRE O ASSASSINATO DE MARCOS TÚLIO PARIZ

Publicado em 12/04/2018


Atendo todas as quartas-feiras na cidade de São Mateus-ES. Nesta quarta-feira (11/04/2018), especialmente, chego para os atendimentos clínicos e me deparo com a notícia principal estampada na capa do jornal diário da cidade, Tribuna do Cricaré: “Polícia prende suspeitos de matar Marcos Túlio”. 

Marcos Túlio aos 48 anos era professor de carreira no município de Jaguaré-ES, onde residia, chegou a exercer a função de secretário municipal de educação. Filho do ex-prefeito Túlio Pariz, que também era professor, tinha um bom olhar político da realidade. A característica do crime é cruel, três jovens adentram em sua residência com o intuito de assaltá-lo e travam combate corporal. Marcos Túlio acaba sendo vítima de uma ação de violência assustadora. Outras informações e motivos poderão ser desvendados. 

Conheci Marcos Túlio no período que assessorei a secretaria municipal de educação de Jaguaré-ES, quando o professor Jader era secretário. Neste período entre 2003 e 2005, Marcos Túlio estava atuando nas escolas do meio rural e lembro que seu pai também. Um jovem cheio de ânimo e com ótima formação educacional. Sempre disposto a atuar no seu máximo e esperançoso na educação. Destes professores que deixava-nos animados e confiantes que a educação tem jeito. Lembro-me que nas reuniões que desenvolvia dentro do programa de educação inclusiva nas supervisões aos professores, Marcos era participativo e muito crítico. Sempre trazia as questões teóricas para a realidade. Às vezes, nós psicólogos vamos ao equipamento educacional e queremos ver as coisas acontecendo em um toque de mágica, não vemos a realidade cotidiana do professor. Com o olhar crítico de Marcos ele me ajudava a “baixar a bola”. Eu aceitava porque ele tinha argumentos sólidos. 

De lá para cá não tive mais contato com a educação de Jaguaré – ES, mas sei que é uma das poucas cidades do estado em que houve investimento humano, intelectual e logístico na educação municipal. Sei também que houve retrocessos ao longo do caminho. Mas como Marcos Túlio, conheci muitos outros profissionais com “sangue na veia e brilho nos olhos” pela educação, nesta cidade, de alguns sou amigo até hoje. 

Coincidentemente, nesta quarta em que a manchete do Jornal Tribuna do Cricaré estampava a tragédia com Marcos Túlio, o colaborador do jornal Marcelo Santa Rosa, me contempla na chamada de capa de sua coluna “Gente & negócios”, na qual foi feita uma publicação sobre mim. Não deu para ficar feliz, pois graças ao jornal pude saber da morte de Marcos Túlio. Estou chocado! A educação no Brasil perde um grande professor. E pior, este filme já podemos ver em várias regiões do Brasil.
 
Mas por quê? Alguns professores me relatam que estão assustados com o perfil dos alunos nas escolas. Descrevem, desde um processo de violência generalizado até descomprometimento irrestrito dos alunos. Mas tudo isso me fez pensar em um detalhe que poucos percebem. Para jovens empobrecidos, de bairros periféricos, com escolas sucateadas, professor passou a ser visto como “grã-fino”. Enquanto os alunos não possuem renda fixa em suas famílias e seus pais estão sofrendo com trabalhos subalternos ou o desemprego absoluto, o professor está empregado e ganhando seu salário. Para o professor este salário é ridículo, e com certeza o é, mas para o aluno o salário do professor é muita coisa diante do que ele mesmo tem (não tem) em casa. Desta forma, o professor passa a ser alvo para especulação de furto. 

Não posso afirmar se neste caso específico do professor Marcos Túlio esta questão que coloco é relevante. Pode ter sido mera coincidência três jovens adentrarem na casa de um professor que morava sozinho com carro e moto na garagem e salário garantido todo mês. Mas sei que isso não é mera coincidência, sabiam que ali tinha um alvo fácil para uma ação de furto. Associado a isso, Marcos Túlio era um professor que se interagia muito com os alunos dentro e fora da escola, possuía uma prática comunitária e era bem conhecido. Ele passou a ser uma vidraça: a vidraça do desejo alheio. 

Neste sentido, o professor passa a ser uma profissão de risco sim, pois é um “afortunado” no ambiente educacional público cheio de jovens sem dinheiro e sem expectativas. Outra ameaça é pelo fato de que a instituição escolar é o “para raio” coletivo das mazelas sociais. Tudo desemboca na escola e lógico sobrecarrega o professor. Isso fica claro, quando observamos que antes mesmo de terminar o ano letivo o índice de professores afastados para tratamento de saúde é altíssimo. No estado do Espírito Santo, segundo o Sinpro–ES (Sindicato dos professores no estado do Espírito Santo) no ano de 2016, 1360 professores pediram demissão e 30% destes por motivo de doenças psicológicas. 

Que a morte de Marcos Túlio não represente apenas uma perda e gere só tristeza em nós. Mas que possa ser sinal de que precisamos colocar a “mão na massa” pra revertermos o quadro sócio/político/econômico de fracasso nas questões públicas no qual o país mergulhou.  Para vermos novos horizontes pautado na equidade social, na distribuição de renda e no fortalecimento do processo educacional brasileiro, é preciso continuar agindo e esperando pela esperança do ato de esperançar.
A lembrança que levo de Marcos Túlio é muito boa. Um professor vocacionado e comprometido com a educação. Sei que a cidade de Jaguaré está sofrendo com esta perda imensurável. Que seus cidadãos não recuem pelo medo, mas o vençam com o ideal da construção de um país sem males.


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