CULTIVANDO A MORTE DE SEU FILHO

Publicado em 19/04/2018


Muitos pais procuram meios de educar seus filhos para que não corram perigo, para que tenham um futuro brilhante e para que não morram. Buscam muitas vezes na Psicologia, na religião, na autoajuda, no coaching ou em videntes, fórmulas mágicas para que possam educar os filhos na condução da vida, uma vida plena.  Mas, na prática, acabam educando seus filhos para a morte. Acreditam que estão fazendo o melhor, mas na realidade estão simplesmente contribuindo para que eles tenham uma morte silenciosa, que é a morte da alma! Aumentou em minha clínica o número de jovens que estão vivendo como verdadeiros “zumbis”, o que chamo de “mortos/vivos”. E com isso emergem os pais que estão em luto de filhos vivos.

  Mas eis a questão: como então os pais podem identificar, nos hábitos de sua família, que o filho está se conduzido à morte? Considero, a seguir, alguns pontos:

 1) Quando afirmam que filho é um problema – Ele veio indesejado: muitos casais tem mais medo de engravidar do que de adquirirem um câncer por condições artificiais contraceptivas. Para esse tipo de casal, ter filhos e criá-los é como ir para a guerra. Ver a presença de filhos apenas como custo é morte antecipada de pais falidos. 

 2) Pais pessimistas - Pais sem expectativas de vida pessoal, desgastados na sua busca profissional, descrentes no amanhã e muito temorosos. Projetam nos filhos o que não conseguiram ser. Educam seus filhos pelo medo do futuro e esquecem o hoje, presente. Transmitem uma visão fatalista da vida. “Oh! dia, Oh! céus, Oh! azar”, como fala o personagem Lippy do desenho animado “Lippy e Hardy”. 

3) Entregam a educação dos filhos para outros - Delegam a educação dos filhos para a escola, na esperança de que a escola irá ensinar tudo. Como pais, já não leem mais nada, não estudam mais e não vibram com a busca do conhecimento. Querem que os filhos sejam estudiosos sendo que eles não são. Se a busca do conhecimento não nasce em casa, a morte do filho no conhecimento já é uma realidade. 

4) Pais permissivos principalmente no uso de eletrônicos – Permitem que os filhos fiquem com equipamentos eletrônicos por mais de uma hora por dia, e aqui cabe todos os eletrônicos: TV, computador, Smartphone, vídeo game e outros. O Brasil é o oitavo país com mais índices de suicídio no mundo. Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde aponta que hoje mais de 30% dos jovens que usam muito os eletrônicos são candidatos ao suicídio. Segundo a Sociedade Canadense de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria (2017), em pesquisa realizada sobre o uso de Smartphone e de tabletes por crianças e adolescentes, o uso excessivo de eletrônicos pode gerar um atraso no processo de maturidade comportamental, assim como também gera problemas de déficit de atenção ou atrasos no aprendizado. Foi apontado que 30% desse público tem chances de sofrer com problemas de peso. Deixar os eletrônicos livres e soltos em casa é cultivar filhos problemáticos, é mais uma morte anunciada. 

5) Quando numa casa o filho não precisa fazer nada – Esses dias uma jovem me disse que uma Youtuber falou que para ter higiene em uma casa era preciso varrer todos os dias o chão. Ela estava admirada, pois parecia ter descoberto uma fórmula mágica para viver. Perguntei se ela varria o chão de sua casa e ela me disse que nunca o fez, pois a empregada sempre varria. Mas esta jovem já morava em república como estudante e sua república ficava até um mês sem ser varrida. Os pais que não colocam os filhos para ajudarem no coletivo do lar e participarem do cotidiano funcional de uma casa, estão colocando os filhos em uma redoma em que a realidade dos fatos não é percebida. O dia a dia produz sujeira! Algo tão óbvio e tão pouco perceptível por um jovem “morto/vivo”, que normalmente dizem: “Para que vou arrumar minha cama se a noite vou dormir novamente?”.  

6) Ganhar dinheiro sem ter feito esforço para isso - O dinheiro que vem fácil sai fácil. Daí emerge o sujeito que não sabe ganhar o dinheiro e acredita que estudando vai ganhar dinheiro. É a morte existencial por não saber sobreviver. Como filhote de passarinho no ninho, aguarda a mãe passarinho trazer a comida na boquinha. Este é um dilema que, na verdade estoura, quando o filho pega o diploma da universidade. Um talento perdido, pois tem teoria mais nunca aprendeu a agir. Ou que, quando formados, não precisam trabalhar porque os pais os sustentam. 

7) Acreditar que crianças e adolescentes são autônomos - Por fim, sem ser um fim, pois muitos outros itens poderíamos enumerar sobre a morte silenciosa dos filhos, temos a questão de acreditar que crianças e adolescentes são autônomos e capazes de pensar e fazer por si mesmos. Quando os pais esquecem que os filhos são heterônomos (precisam de regras do outro), estão causando a morte da construção de autonomia do filho para a vida adulta. A morte da autonomia é um filho sempre ser dependente de terceiros, que somada ao item 6 (uso do dinheiro), torna-os jovens desesperados para passarem em concursos públicos esperando uma “teta para mamar”, com objetivo de dar sequência às mordomias as quais foram cultivadas em casa pelos próprios pais. Uma educação sem limites é a morte da construção de pessoas autônomas e corajosas para enfrentar a vida como ela é. Quando os pais educam já querendo que os filhos sejam autônomos, os fazem “adultos em miniaturas”, e quando estes chegam a vida adulta já chegam de bengala e próximos da morte. 

 Se, ao analisar estes sete itens, você identificou que há pontos que de fato está aplicando sem perceber, mas deseja vida longa aos seus filhos, é só aplicar estes sete itens ao contrário. É simples, mas é preciso desejar amar para cuidar e cuidar dá trabalho, é diário, e só há garantias de resultado dia após dia.


Compartilhe:

 




Visitas: 1791

Entre em contato