DIREITO E FRATERNIDADE

Publicado em 30/05/2018

O tema que abordo neste artigo diz respeito a fragmentos de exposições dos integrantes das mesas temáticas do “II SEMINÁRIO DE DIREITO E FRATERNIDADE – DESAFIOS”, realizado no dia 26/05/18 pela comissão Direito e Fraternidade do Movimento dos Focolares na cidade de Vitória/ES e teve o apoio da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Foi um evento marcado pela qualidade das argumentações e pela forte contextualização prática. A abertura do evento teve a exposição da colaboradora do Movimento dos Focalares no estado do Espírito Santo, Maria da Ajuda Merlin, que trouxe o conceito de Direito e Fraternidade. Mostrou as ações da comissão organizadora e lembrou-nos da expressão de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, que a Fraternidade é comparada à chuva, que cai para todos indistintamente, para os bons e para os maus na mesma proporção. Como participante, anotei algumas relíquias que transcrevo e partilho com vocês neste texto:

O promotor de justiça, Jeferson Valente, lembrou-nos que solidariedade é uma relação vertical entre as partes e a fraternidade é uma relação horizontal, que remete o ser humano às relações de igualdade. Para Valente, aplicar a lei é fácil, contudo fazer justiça é difícil. O mesmo trouxe casos de sua prática como promotor, que a luz do Evangelho e na perspectiva da ética cristã, mostrou-nos que é possível fazer mais do que somente aplicar a lei, é possível sim fazer justiça. Em muitos dos casos, o promotor me deixou a impressão de que se neste campo mais servidores atuarem com o critério da justiça na perspectiva da ética cristã, poderemos vislumbrar esperança que o poder judiciário esteja de fato favorecendo a fraternidade quando coloca as pessoas na mesma perspectiva de igualdade.

Outro momento marcante foi à experiência do Coronel aposentado, José Carlos Fiorino, vinculado como voluntário à um grupo espírita na cidade de Vitória/ES que exerce esse serviço no acampamento de presos no sistema penitenciário do estado do Espírito Santo. Em sua fala, mostrou seu processo de conversão espiritual, do qual saiu de uma postura rígida como militar para um sujeito de serviço e apoio aos irmãos encarcerados. Fez vir à tona a precariedade da sociedade, do estado e do suporte aos presos quando são colocados em liberdade. Segundo José Carlos, saem da cadeia, na qual tinham um esquema de disciplina alimentar e de higiene e vão para a sociedade até sem roupa e passagem para voltar aos seus lares. O grupo de apoio espiritual aos encarcerados que participa, procura fortalecer espiritualmente o indivíduo para que o mesmo não deseje voltar mais para a cadeia, apesar de que há uma forte tendência que voltem. Neste sentido, José Carlos nos lança a interrogação: Porque há um grande número de ex detentos que retornam? Conclui que a sociedade como um todo não está aberta para acolher, faltando ai a fraternidade. Onde não há caridade, há mais vingança do que justiça, e justiça é dar ao outro o que eu daria a mim mesmo com igualdade de condições. Caridade não é simplesmente dar as coisas, mas sim promover as pessoas com amor. Na experiência do Coronel José Carlos, contemplei a esperança na sociedade que por iniciativas próprias pode fazer a acolhida dos menos favorecidos.

O jovem advogado da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória -ES, Ricardo Gobbi, nos mostrou as frentes de trabalho da comissão justiça e paz e revela que as ações são quase insipientes diante de tantas bandeiras de lutas que diferentes setores precisam travar e a necessidade de apoio à comissão para fazer acontecer os Direitos Humanos, acaba se esvaindo diante deste cenário. Com humildade, Ricardo Gobbi, revelou que neste trabalho o qual está encabeçando, sempre se depara com o desânimo pessoal por ver muitos desafios e ações que precisam ser desenvolvidas, mas que não se observa avanços. A injustiça muitas vezes parece prevalecer, porém revelou-nos que se depara com a perspectiva do amor cristão e da construção da sociedade pautada na fraternidade. E desta espiritualidade que retira sua força para acreditar e continuar lutando. Na experiência de Ricardo, contemplei a esperança na juventude que acredita e coloca em prática o desejo da transformação da sociedade.

A professora, Angélica Tedesco, do IFES - Vitória/ES, trouxe sua experiência no Fórum Mundial das Águas, uma luta pelo direito a este bem imensurável que é a água. Diante de um cenário de muitas reivindicações, Angélica nos faz emergir em uma pequena ação sua de diálogo com um participante do fórum, em que trouxe a ideia da fraternidade e a esperança cristã, um diálogo complexo para um cientista e militante político que na sua racionalidade muitas vezes pensa com o olhar da ação concreta sem uma dimensão espiritual. Angélica trouxe-nos este fragmento de um diálogo quase insignificante num cenário tão abrangente do Fórum Mundial das águas exatamente para fazer-nos entender que a transformação pode se dar nas pequenas ações e a principal delas é no encontro do diálogo onde podemos ver significado nas nossas lutas e desafios. Muitas vezes deixamos de lançar a semente da fraternidade cristã em ambientes científicos ou tecnológicos, por não ser ambiente para tal missão. Porém na experiência da professora Angélica, vi o quanto que a espiritualidade pode penetrar em pequeníssimas frestas ascendendo assim a esperança de que a ciência e a fé possam caminhar juntas.

O fechamento deste maravilhoso seminário teve as palavras finais do professor Drº Antônio Vidal, da UFES- ES que lembrou o filósofo Rubem Alves com o conceito da esperança. Diante dos muitos desafios é pela esperança que devemos apontar nosso pensamento. A esperança na ação da construção da civilização do amor onde a fraternidade é nossa maior referência, tendo sempre como baliza o amor cristão.

Que venham mais seminários como este, e assim vamos nos fortalecendo na missão de colaborarmos na construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna.




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