PSICOLOGIA NÃO É PARA LOUCOS

Publicado em 13/06/2018



Há 27 anos atuo como Psicólogo Psicoterapeuta. Atendo desde crianças até idosos, passando por casais e grupos familiares. Somado ao período que iniciei os atendimentos na clínica escola da UNESP – Assis/SP, são 30 anos de atendimento clínico. Tive esta grande oportunidade ainda como estudante de participar de um projeto de pesquisa em que comecei atender crianças e famílias que passaram por abandonos sociais já no terceiro ano da faculdade, um projeto que me fez ter uma carga horária de atuação ainda como aluno de mais de 1800 horas extracurriculares. Estudei em uma Universidade pública que fica no interior do estado de São Paulo, divisa com Paraná, depois trabalhei em várias outras cidades do interior. Com esta trajetória brinco que me especializei em atender no interior. Minha primeira clínica foi no município de Piraju – SP, durante 1991 a 1994, depois Nova Venécia/ES (1995 à 1999), São Mateus (1997 até hoje) e Linhares (2005 até hoje). Mesmo tendo hoje uma clínica em Vitória-ES há 7 anos, a demanda de lá, na sua maioria, são de pacientes que vem do interior, pois a maioria da população desta cidade vem do interior do estado. Neste contexto de construção de minha carreira profissional uma das fantasias que observei na população sobre a Psicologia é a de que é uma profissão para atender “loucos”. Até hoje recebo pacientes que vem com esta percepção, o que dificulta muito a busca por ajuda e a entrada no processo psicoterapêutico. Contudo, há uma melhora coletiva da percepção do papel do Psicólogo na sociedade e no processo desta profissão em ajudar as pessoas na busca de uma saúde emocional de melhor qualidade. 

Posso dizer que sou um dos Psicólogos no estado do Espírito Santo que desbravou a Psicologia clínica. Cheguei no estado no ano de 1995 onde havia um baixo índice de profissionais nesta área, tanto que minha inscrição no Conselho Regional de Psicologia é número 598, sendo que nos primeiros anos éramos vinculados ao conselho de Minas Gerais. Hoje os inscritos no CRP 16 (Espírito Santo) passam a casa dos 5000. 

No princípio atendi em Pinheiros via projetos sociais. Em Nova Venécia a busca pela Psicologia iniciou-se de forma acanhada e com muitos preconceitos, com foco bem na doença mental. Mas consegui entrar em escolas, entidades e aos poucos fomos ajudando a população a ter um novo olhar sobre a Psicologia. Iniciar a clínica em São Mateus no ano de 1997 não foi tão difícil, já que na época a sede da Petrobras do estado era nesta cidade e decorrente disso havia uma forte demanda por Psicólogos por ter muitos petroleiros que vinham de outros estados como: Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, onde a busca por Psicólogos já era uma realidade. Demorei para abrir a clínica em Linhares por questão de demanda, vendo que em minhas pesquisas havia índices que apontavam para uma baixa procura por estes serviços naquela cidade. Só estabeleci clínica em Linhares no ano de  2005, quando vários pacientes linharenses já me procuravam em  São Mateus. 

A evolução da população no que tange ao referencial da Psicologia e da importância de se buscar uma ajuda psicológica evoluiu nos últimos 10 anos. A ideia de que Psicólogo é para “loucos”, está bem mais dissolvida. Atribuo esta evolução, em parte, a mídia televisiva que começou utilizar-se das opiniões dos profissionais da Psicologia sobre questões do cotidiano. Também a atuação do Conselho Regional de Psicologia tem um papel importante nesta mudança de entendimento da população. Eu mesmo colaborei na construção do CRP-16 (Espírito Santo) desde a comissão que fez a transição de Minas Gerais, para termos o nosso próprio Conselho no estado e depois por dois mandados como conselheiro. Neste processo pude contribuir por  8 anos no CRP-ES, onde atuava mais diretamente no setor de comunicação. Mas também vejo avanços da população na busca pela Psicologia graças a ação interdisciplinar da saúde, que começa fazer com que as diferentes áreas de especialidades da Medicina e outras profissões da saúde indiquem o procedimento da Psicologia. 

Atualmente vemos emergir muitos profissionais que estão atuando no campo da orientação comportamental às pessoas, os coaching, neurolinguístas e muitos outros sem no entanto serem formados em Psicologia ou Medicina. É uma tendência natural em países subdesenvolvidos e de baixo nível educacional. Neste sentido é importante a população, diante deste crescimento em relação ao reconhecimento da importância da Psicologia como profissão que colabora na construção do bem estar emocional, saber procurar por profissionais devidamente registrados no Conselho Regional de Psicologia (CRP). Quando houver dúvida sobre a formação do profissional e seu devido registro, a população pode ligar diretamente para o conselho e solicitar informações a fim de saber se o profissional está devidamente registrado. O telefone do CRP-16 é: (27) 3324-2806. 

A evolução na percepção de que a Psicologia não é para “loucos”, colabora para que muitas pessoas procurem ajuda sem preconceito. Alguns pacientes revelam que demoraram parar tomar a iniciativa com receio do que as pessoas iriam falar. Outros dizem que achavam um fracasso ter que se sujeitar a ajuda de um terceiro. São tabus que aos poucos vão sendo quebrados e desta forma mais famílias procuram ajuda antecipadamente, antes mesmo do problema evoluir para uma  patologia mais grave. Lembro-me de um paciente que indiquei a terapia, após avaliação, quando ainda adolescente, mas a família preferiu achar que sua tristeza era passageira e não quis investir no tratamento. Depois de adulto este ex paciente cometeu suicídio, se tivesse sido sujeito à psicoterapia poderia não ter se suicidado. Nestes anos, até o momento, não tive pacientes com tendência suicida ou depressão que fizeram o tratamento do começo ao fim, que vieram a suicidar-se.  Hoje sabemos que 80% dos suicídios seriam evitados se as vítimas tivessem se sujeitado à psicoterapia. 

Sempre digo aos pais na minha experiência de atendimento a crianças já em tenra idade que é melhor prevenir do que remediar. Quando intervirmos em um sujeito com pouca idade, temos pouca idade para analisar e assim o processo de evolução emocional se dá para toda a vida. Se um paciente chega já em idade avançada, o que não é ruim, pois procurou ajuda, o processo é mais longo e os hábitos criados ao longo da vida tornam-se mais resistentes para serem dissolvidos. Sempre digo que se eu tivesse feito análise ainda quando criança, seria hoje um adulto muito melhor. Atualmente começo a receber mães para serem analisadas de filhas que fizeram terapia comigo ainda quando crianças. Estas já chegaram a adolescência/juventude de forma mais “resolvida”, o que chamo de “cidadão analisado”. Ai as mães veem o quanto a terapia na infância do filho foi importante, e por isso também passam a procurar a análise para si mesmas. 

Hoje a Psicologia tem evoluído em vários campos de atuação e avançado em diferentes formas de procedimento. De fato a utilização do recurso da Psicologia quando se consulta um Psicólogo é uma porta que se abre para o conhecimento, esclarecimento e bem estar emocional. Sabendo que a boa Psicologia não diz o que a pessoa deve ou não fazer, e sim ajuda a pessoa e a família a pensar em como ela pode buscar caminhos para se superar em situações adversas. Principalmente, a boa Psicologia delega ao usuário a capacidade dele mesmo pensar e decidir. Este manuseio para ser eficaz depende da qualificação do profissional. Desta forma, não é errado por parte do usuário perguntar a origem da formação do Psicólogo, e das suas formações e especializações. Outro caminho que pode ajudar as pessoas a procurar o profissional Psicólogo qualificado são as indicações de pacientes que já passaram por ajuda ou de profissionais da saúde que já conhecem as diferentes opções de Psicólogos em atuação.

A crescente busca pela ajuda psicológica não é sinal de que a sociedade está aumentando seus problemas, é sinal de que a sociedade está evoluindo para a capacidade de pedir ajuda. Pois problemas todos temos e sempre os teremos. A capacidade de lidar com os problemas é o grande benefício que uma pessoa analisada ganha.



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