IGREJAS CRISTÃS COOPTADAS – SOBRE A FESTA DO MUNICÍPIO DE SÃO MATEUS/ES

Publicado em 20/09/2018


O cenário público municipal da cidade de São Mateus não está muito para festas. Uma administração cujo prefeito já está com os dias contados por que se elegeu de forma ilícita, segundo definição da justiça, ainda está no governo, pois se sustenta pelas lacunas que a própria justiça permite. Secretários municipais tidos como idôneos nomeados no início da gestão do prefeito Daniel já pularam do trem da ingovernabilidade. A cidade está a deriva no que tange a segurança, limpeza pública e gestão dos principais secretarias, como: Educação, saúde, assistência social, esporte. Não há transparência nos trâmites das verbas públicas. Enfim, uma administração imoral, sem referência ético constitucional e sem nenhuma equivalência com a ética cristã.

Porém, nesta quarta-feira (19/09/2018), estava atendendo em São Mateus - ES, como faço toda quarta. A noite, em um restaurante da cidade, ouvindo o som da festa no "parque de exposições" sempre improvisado, pensava: "Quanto dinheiro jogado fora em plena crise econômica brasileira e diante do caos administrativo". Mas surpreendentemente alguns amigos que estavam no restaurante e são atuantes na Igreja Católica me perguntaram se eu não iria assistir ao show do Pe. Alessandro Campos. Já tinha também ouvido falar no restaurante que uma cantora evangélica faria um show e com esta pergunta dos amigos, respondi: “gente, como estas Igrejas cristãs tem coragem de avalizar uma festa desta com este perfil de administração nada ético?". Os amigos não entenderam nada, e provavelmente pensaram que sou radical. Ao sair do restaurante, me vi com sentimento muito forte de indignação e veio-me duas questões na cabeça: 

1. As igrejas cristãs estão utilizando o método de que a evangelização cabe em qualquer lugar, o que vale é fazer acontecer a graça de Deus e quem sabe transformar a realidade. Tipo, vamos para a gaiola dos loucos, corruptos, sem ética, politiqueiros, para convertê-los à ética cristã que prima pelo respeito, moralidade, cuidado do bem público, igualdade e dignidade para todos, serviço de construção do reino. 

2. Ou as Igrejas cristãs foram cooptadas a esta gestão pública e deixaram ser convertidas a esta linha imoral e sem ética pra terem benefícios pessoais. O tal do “toma lá, da cá”. 

Na primeira questão, se assim a fosse, os shows seriam proféticos, como é o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Haveria denúncia e anúncio. Denúncia de falcatruas e anúncio para uma posição coletiva pública sobre este desmando da gestão municipal em São Mateus. Aproveitaria do momento para conscientizar. Mas ao contrário, louvores sobre louvores, bênçãos sobre bênçãos e exaltação ao prefeito e todo este jogo de falcatruas. Aliás, se esta minha primeira questão prevalece na percepção real das festas, as Igrejas cristãs não estariam nesta festa, estariam antes mesmo fazendo plantão em massa na frente da prefeitura para reivindicar melhoras reais ao município. Negaria a existência dessa festa diante do atual cenário catastrófico do município.

Infelizmente, vejo que prevaleceu a segunda questão. Não tenho dúvidas que hoje no Brasil a maioria das Igrejas que se intitulam cristãs estão convertidas a corrupção e a politicagem do “toma lá da cá”. Tudo isso pelos fornecimentos de conceções de rádios, TV, isenção de impostos e liberação de construções de templos, além é claro de um pacto pelo crescimento da bancada cristã no congresso nacional, que se apega em uma vertente farisaica moralista das leis. 

Prefiro refletir a partir da percepção que tenho de Igreja na qual participo. Sou Católico por escolha e sempre atuei intensamente na igreja desde a minha infância. Mas sou devoto de São Francisco de Assis, o homem que teve a coragem de confrontar-se com o seu Papa de época sem no entanto ter deixado o vínculo com a Igreja. Sei que a Igreja Católica é Santa na sua origem e pecadora na sua ramificação. Sou pecador tanto quanto, mas tenho uma história de exercício profissional pautado na ética cristã que aprendi na minha Igreja. Contudo, quando vejo alguns padres adentrando nestas festas públicas, recebendo caches por shows, como se fossem artistas sem questionarem este modelo de administração de jogar dinheiro público pela janela, vou chegando a conclusão que a minha Igreja Católica começa a declinar, somado a este tipo de participação descontextualizada e que só convalida ações ilícitas como é o caso da festa de São Mateus 2018, também vemos as múltiplas denúncias pelo mundo afora a padres pedófilos ou abusadores sexuais e muitos outros extorquidores de dinheiro, isso porque as investigações que estão sendo feitas no Brasil ainda não foram reveladas. Dessa forma, posso concluir que não vamos conseguir fazer o bem vencer ao mal, não vamos conseguir fazer acontecer à civilização do amor, não vamos conseguir convencer jovens à fé cristã. A longo prazo nossos templos (igrejas de paredes e pompas) virarão tocas de ratos e baratas e vazias. Seguindo este caminho terão templos repletos de fiéis a procura de curas e milagres e um verdadeiro covil de ratos humanos que hoje os temos no estereótipo dos politiqueiros. 

Quem pensa, estuda e conhece, duvida de quem fala do bem, prega a igualdade, discursa sobre o amor fraterno, mas molha o bico no vinho envenenado dos promotores da desordem pública. Estamos nos tornando a Igreja de Judas Iscariotes e não de Cristo. 

As igrejas cristãs, e inclusive a que eu professo a minha fé, que é a Católica, só vão conseguir prosperar se fizerem o retorno ao “pacto das catacumbas” (Oscar Beozzo). Uma Igreja de justiça, de fraternidade, de simplicidade e de serviço pelo bem comum. No Evangelho de Cristo sabemos que a vida cristã é a prática da vida em comunidade e partilha. O desespero para angariar fieis e fazer Igrejas para multidões é a morte da Igreja verdadeiramente de Cristo. Massas não pensam. Transformações acontecem em micromolecularidades (Felix Guatarry).  Hoje a Igreja Católica com seus milhares de padres pelo mundo, convence menos do que a Igreja primitiva dos Atos dos Apóstolos que começa apenas com 11 apóstolos. Precisamos voltar às origens e ter coragem de sermos proféticos. Como sei que na minha Igreja Católica e em algumas outras igrejas cristãs irmãs, ainda sobram alguns que creem na igreja originalmente cristã, acredito que podemos fazer a diferença. Por isso que me arrisco a escrever este texto, é melhor o isolamento pela manutenção das convicções do que uma vida cheia de parceiros iludidos. Quero lutar para não ser hipócrita. Quando tenho atos de hipocrisia luto para me superar. Que as Igrejas cristãs consigam sair desta hipocrisia e se posicionem contra toda forma de cooptação e alienação pública. 

Só para lembrar, São Mateus era o “carrasco” do Império Romano, cobrador de impostos. Na época o Império Romano cobrava os impostos do povo e se o povo não tinha dinheiro para entregar, apanhavam e eram saqueados nos seus pertences. São Mateus era um desses que faziam estas cobranças. Jesus Cristo entra na "gaiola dos carrascos" e faz converter ali um deles. São Mateus na época como cobrador de impostos não foi quem converteu Jesus, tipo "para com isso Jesus, vem para nosso lado". Ao contrário, São Mateus que se redimiu a proposta de Jesus e deu no que deu, o santo São Mateus. Por isso, celebrar São Mateus na dimensão religiosa é fazer valer o motivo da conversão dele. Uma conversão para mudança de olhar de “carrasco” pra o construtor da civilização do amor. 

Enquanto isso, lutando junto com os poucos que ainda querem uma Igreja misericordiosa e dos pobres, como é o caso do Papa Francisco que fala quase no deserto para a sua Igreja no mundo. Peço forças ao meu santo forte e mestre contemporâneo, São Francisco de Assis, para que eu não me canse, confie, lute e me entregue na construção do reino de Deus, um reino onde justiça é o novo nome da paz (Dom Pedro Casaldáliga) e como no silêncio Orante de Maria (Inácio Larrañaga). 

Que este pequeno texto chegue a alguém e some na construção do verdadeiro cristianismo. 


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