20 de novembro, dia da Consciência Negra | Brasil, um país racista

Publicado em 20/11/2018

 
Se sairmos por aí perguntando às pessoas pelas ruas e praças do Brasil se elas são racistas, vamos obter uma resposta politicamente correta: “Não!”.   Mas se observarmos os números, percebemos uma contradição: 63,7% dos desempregados no Brasil são negros; a taxa de analfabetismo entre afrodescendentes é de 9,9%, mais que o dobro em relação aos brancos (4,2%); 64% dos presidiários brasileiros são negros; além dos negros  ser minoria entre os acadêmicos do ensino superior. Segundo o IBGE a população brasileira é composta por 50,7% de negros. Prefiro os dados da UNESCO que apontam o Brasil com 70% de afrodescendentes. 

  É muito comum quando estamos em roda de amigos, ouvirmos piadas sobre negros, depreciando indiretamente o afrodescendente e a etnia negra, principalmente em ambientes de classe média alta que na sua totalidade é branca. 

Se você pretende ver a realidade do negro no Brasil faça o propósito de  sair por aí e observar  onde os encontra com mais frequência e em maior quantidade.  Eu já fiz esta experiência em diversos momentos e em situações diferenciadas.  Saí um dia pelas lojas da cidade, lojas do shopping, e observei um quantitativo inexpressivo de negros trabalhando como vendedores ou balconistas.  Já fiquei na entrada de condomínios residenciais, casas e prédios, observando a chegada das empregadas domésticas, e conclui que a maioria eram mulheres negras.  Nos dois condomínios que já residi observava o mesmo perfil dos diferentes profissionais de serviços gerais, negros na sua quase totalidade.  Também já visitei obras de construção civil e vi que a maioria dos trabalhadores braçais eram negros. Se você observar no sistema de coleta de lixo nas cidades vai perceber que a maioria  absoluta dos garis são negros. 

  Essa proporção de diferenciação entre negros e brancos tem uma lógica na história do Brasil. O sistema da escravatura durou 300 anos aproximadamente e quando a princesa Isabel decretou a Lei Áurea os negros receberam a liberdade, mas retornaram para trabalhar nas mesmas propriedades dos seus proprietários.  De lá para cá, continuaram a ser serviçais com poucas chances de estudo. 

E por falar em estudo, visite as escolas particulares de sua cidade e me conte quantos negros estudam nelas.  Visite uma escola pública e faça a mesma contagem.  Negros estão nas escolas públicas principalmente das periferias, já os brancos estão nas públicas de bairros mais desenvolvidos e nas particulares. Agora vai nas universidades públicas, estaduais ou federais, e conte o número de negros que nelas estudam, ainda são na sua absoluta maioria brancos, pois com este sistema de seleção pelo ENEM, aluno de escola pública tem a mínima chance de entrar em universidade pública. Hoje a universidade pública é regozijo da classe média alta que preparou os filhos em escolas e cursinhos particulares para os benefícios do ensino público superior.  E mesmo assim, tem muita gente que discorda do sistema de cotas para negros no ensino superior público e em concursos públicos.  Nossa realidade é excludente.  Alguns vão dizer que mais do que as cotas para negros é melhor ter cota para cidadãos empobrecidos.  Hoje o sistema já prevê os dois benefícios.  Porém, vai dar na mesma, os empobrecidos deste país em sua maioria são negros/ afrodescendentes. 

  A política pública das cotas para afrodescendentes ajudou muito na confirmação do negro pela sua identidade.  Segundo os índices do IBGE, no passado era menor o quantitativo de negros que assim se declaravam. A partir das políticas assertivas e promocionais observamos que os membros da etnia negra brasileira começaram a ter mais coragem de se auto declararem. 

  Mas ainda é escandaloso vermos nas redes televisivas  a quantidade de negros que aparecem como destaque tanto em programas, como em novelas e telejornais. É como se o Brasil fosse um país eminentemente branco. A proporção da inserção de afrodescendentes na TV brasileira deveria ser proporcional a real porcentagem que a etnia representa no Brasil. 

  Dentro da perspectiva psicológica, assumir a identidade negra afrodescendente  em um país racista ( sutilmente racista),  não é uma tarefa fácil. É comum dizer que as cidades com maior número de proporção afrodescendente é feia.  Presencio isso constantemente, pois atendo na cidade de São Mateus-ES e nesta cidade foram 300 anos de tráfico negreiro.  Navios aportavam no porto onde é hoje o abandonado Sítio Histórico Porto de São Mateus.  Assim o quantitativo populacional negro afrodescendente passa da proporção de 80% na cidade.  Quando digo que atendo toda quarta-feira em São Mateus sempre ouço estes comentários racistas: “Nossa! ali tem gente feia!”, e sabemos que o feio é só por ser “gente negra”. 
 
  Quando estava na universidade em 1985 a 1990 participei do movimento de consciência negra na região de Assis-SP e Bauru-SP.  Meu casamento foi em um altar com elementos indígenas, africanos e românicos.  Acabei escolhendo residir na cidade de São Mateus (1997 a 2016) e um dos motivos dessa escolha foi porque lá me identifiquei muito com a cultura afrodescendente.  O município com mais de 37 quilombos,  mais de 50 casas de Candomblé/Umbanda e uma população alegre, sorridente.  Participei na década de 80 de uma campanha intitulada: "Negro é lindo"  para o incentivo ao resgate de ser negro no Brasil.  Depois participei já como o Psicólogo da campanha do Conselho Federal de Psicologia com o título: "Racismo faz sofrer" .  Esta minha trajetória de colaborador na identidade do negro  nasceu por ver na pele dos meus muitos amigos  negros,  desde a infância,  o quanto sofriam pelas piadas,  exclusões de processos de seleção,  e comentários depreciativos.  Principalmente as mulheres,  associando a mulher negra com promiscuidade.  Na clínica psicológica já colaborei com o resgate  da  autoimagem de muitos negros que sofriam de bullying na escola,  de mulheres que eram humilhadas por patrões brancos,  sempre por assédio sexual. Durante 18 anos presenciei vários ataques racistas à amiga irmã Elza Leite,  que trabalhou em nossa casa como secretária doméstica. Várias famílias que frequentavam minha casa, diziam: “Nossa ela nem parece negra" ou "É uma negra de alma branca” . 
     Enfim, a sensibilidade para reconhecermo-nos  como uma nação racista,  mesmo  sendo o Brasil  o segundo país mais negro do planeta só perdendo quantitativamente para a Etiópia,  é o caminho para poder vermos no futuro uma nação  equitativamente igualitária. Mas é preciso reconhecer que somos um país racista.

Neste dia 20 de novembro, dia Nacional da Consciência Negra,  mais uma vez e mais um ano de luta contra o racismo.  Temos muito que reparar do sofrimento disseminado de milhares de negros que tombaram pelas correntes da escravatura.  Nosso compromisso por uma nação livre do racismo passa pelas políticas de promoção e estímulo educacional aos afrodescendentes no Brasil. 

  Se para muitos como é o caso do presidente eleito Jair Bolsonaro,  não há necessidade de políticas de incentivo à inclusão dos negros,  pois estes devem conquistar o seu espaço por si mesmo, pelo esforço pessoal, sabemos que outros ainda lutam.  Muitos negros organizados pelo Brasil  gritam a realidade nua e crua do racismo brasileiro.  Que esta voz que temos a partir de Zumbi dos Palmares não se deixe silenciar pela ditadura embranquecida do racismo brasileiro. Num campo de guerra pela liberdade de um povo, confrontos aconteceram e acontecem. Disto surge outro ataque racista, que é a desqualificação do líder Zumbi dos Palmares considerando que ele foi violento, agressor e até saqueador. Mas hoje temos pesquisas idôneas da historia de Zumbi que confirmam sua reta intenção pela liberdade. No período da escravatura era corrente atos de suicídio e até abortos decorrentes da opressão da escravatura. Já que a liberdade não era conquistada, muitos buscavam se libertar tirando a própria vida. Assim, seria muito ingênuo pensar que o término da escravatura aconteceu pela caridade de Dona Isabel, uma benevolência branca. Chegar à Lei Áurea foi resultado de sangue, suor e lágrimas. 

  Que neste dia 20 de novembro o sonho de liberdade continue ecoando a cada dia de nossas vidas, sempre com a certeza que: "Um abraço negro um sorriso negro traz felicidade..."


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