O ANO TERMINA E MEU FILHO NÃO APRENDEU A LER, NEM ESCREVER. E AGORA?

Publicado em 12/12/2018


“O ano termina e meu filho não aprendeu a ler, nem escrever!”, este parece ser o drama de muitos pais com filhos nas primeiras séries do ensino fundamental I. O processo de alfabetização a cada ano que passa dificulta a vida das crianças por vários motivos, aqui pontuo alguns dos que venho observando ao longo dos anos nos atendimentos clínicos para crianças com problemas de aprendizado, como: 

1. Quando a pré-escola ou mais especificamente o pré II passou a ser o primeiro ano, com objetivo de ampliar as séries subsidiadas com verba federal de educação, pois no antigo sistema a pré-escola até o pré II era subsidiada diretamente pelos municípios,  houve uma enorme confusão na cabeça dos pais, alunos e inclusive dos professores. O que deveria ser apenas uma mudança de nomenclatura, intitular o antigo pré II por 1° ano, acabou criando um referencial simbiótico no processo de alfabetização em toda a comunidade escolar. A metodologia deveria ser a mesma que era aplicada no pré II, isto é, uma pré-alfabetização. Assim, a criança adentraria o segundo ano como se estivesse na primeira série, deveria ser alfabetizado de fato no atual 2° ano. Geralmente a criança entra no 2° ano com 7 anos completos, de preferencia que faça os 7 anos até o primeiro trimestre do 2° ano, para que possa estar com plena maturidade cognitiva, afetiva e social para a alfabetização. Mas o conteúdo do atual primeiro ano foi reformulado a ponto de querer enquadrar a criança no processo parecido com a primeira série do passado. Isto é, as crianças na sua maioria se deparam com um quantitativo de informações e palavras que não conseguem codificar. Veem-se diante de um espectro imenso de signos de linguagens que atropela sua capacidade de elaborar a alfabetização de forma suave. E por falar em suave, lembro da cartilha com a qual aprendi a ler e escrever quando tinha 7 anos, que levava o nome de “Caminho suave”, pois suave deve ser a entrada nesta etapa de formação, é o fundamento para nortear toda existência acadêmica de um cidadão. No lugar de suave estamos presenciando uma metodologia estressante. 

Para professores que possuem conteúdo e a capacidade didática de lidar com a alfabetização, o aluno do primeiro ano é visto como um simples pré alfabetizando, nada mais. Mas para um professor sem formação adequada que possui pouco domínio da didática e inclusive pouco domínio da própria língua portuguesa, passam a exigir do aluno mais do que ele pode dar por não estar amplamente amadurecido. 

A mudança política do sistema que para seus defensores têm significados pedagógicos, na verdade foi uma estratégia financeira. Mas na cabeça dos pais que na sua maioria ficam desesperados em verem os filhos não conseguindo ler e escrever, a mudança trouxe mais confusão. O 1° ano é igual a antiga primeira série, e assim a exigência para com o filho de ter que ler e escrever aumentou substancialmente, o que antes se relevava pelo fato da criança estar apenas no pré II. 
Aqui neste ponto temos uma soma enorme de variáveis, desde jogo político, que no Brasil muda conforme muda os governos, até a despreparação dos professores e o imaginário dos pais.

2. Outro fator que está dificultando, é o acesso prematuro das crianças aos smartphones, computadores e tablets. A liberação indiscriminada dos pais desde os primeiros anos de vida da criança leva a uma imaturidade para o processo de assimilação tão necessário para a percepção simbiótica e a simbolização do universo das letras e das palavras conjugadas. 

Junto com esta liberação eletrônica, temos a perda de referenciais educacionais dos pais. Troca de papeis no núcleo familiar e perda de limites. Hoje os filhos comandam os pais e estes perdem a noção dos limites necessários para cada etapa da vida. Assim, o processo de alfabetização torna-se complexo em mentes de crianças com uma alto imagem super elevada. 

3. O sistema educacional no processo de alfabetização tem explorado pouco as essências e a elaboração de conteúdos respeitando os diferentes ritmos das crianças, as suas individualidades. Na escola onde o quantitativo de crianças por série é menor e o equipamento educacional possui recursos didáticos para que a criança explore, experimente e associe o conhecimento das leituras com a realidade, a alfabetização atinge melhores resultados. Mas sabemos que na maioria das escolas públicas do Brasil, e de muitas particulares que possuem poucos recursos, o excesso de crianças em sala e a falta de recursos, associados a pressão do sistema por resultados, leva a um estresse coletivo da comunidade escolar e um aumento quantitativo de crianças “travadas” no processo educacional.
Além disso, temos a “teorização” da vida. Tudo que se passa na sala de aula é dito ( verborreicamente por palavras) ou altamente estimulado por imagens sem contato manual.  A criança, por exemplo, vê um pé de alface, mas nunca tocou, plantou um pé de alface. As salas de aula das etapas de alfabetização precisam ser verdadeiros laboratórios. As palavras serão incorporadas naturalmente e paliativamente. Enquanto  vermos o sistema educacional “socar” letras e palavras nas crianças só teremos insucessos. 

4. Para finalizar, mais um item que é o processo de patologização da criança quando esta não apresenta resultados. Diagnósticos prematuros de TDAH, dislexia, dislalia, discalculia, etc. Este atropelamento na cabeça da criança, resulta é lógico, em sintomas que a primeira vista podem ser entendidos dentro de um quadro de déficit de atenção ou desestruturas do processo de cognição. Mas na grande totalidade dos alunos que não estão conseguindo aprender a ler e a escrever, a questão está meramente no processo de alfabetização. Porém, dizer que o problema é do aluno é mais fácil, pois nem a família e nem a escola precisam rever atitudes, (professores e pais) eles se torturam e traumatizam um processo que para eles é complexo.

5. Opa, ainda em tempo, trago outro aspecto agravante que é a baixa densidade de leitura dos pais, professores e técnicos de educação. No Brasil a média de livros que o brasileiro alfabetizado lê não chega a 2 por ano, sem perder de vista que 70% da  população é analfabeta funcional, lê e escreve mas não consegue interpretar o que lê e escreve. Assim ensinar a ler e a escrever é uma tarefa árdua, torna-se uma atividade pesada aos adultos com esta responsabilidade, direta e indireta. 


Mas o que fazer? 

Se seu filho ou algum parente, amigo ou conhecido, está neste dilema de não conseguir ler e escrever entre o 1° e o 2° ano do ensino fundamental I, procure fazer uma boa avaliação da construção de aprendizado da criança, de sua estrutura cognitiva e emocional para de fato ter um diagnóstico amplo de situações. Taxar a criança sem uma ampla avaliação não é o caminho que trará resultados e superação de um limite apresentado, principalmente quando associado com medicação antecipada. Uma vez medicado, sempre medicado e o problema ficará no mesmo lugar. 

  Para terem uma ideia, 80% das crianças que avalio a partir da queixa inicial de não estarem lendo e escrevendo, na faixa etária de 7 a 9 anos, estavam sofrendo apenas por um erro na metodologia de ensino, era pura e simples questão de alfabetização. E olha que a maioria deles já chegam com algum quadro já traçado. Chegam estigmatizados por alguma patologia, síndrome ou disfunção definitiva. Muitas delas, já são crianças que o sistema educacional nem quer no seu quadro de alunos, pois é mais fácil trabalhar com crianças que não exigem do profissional e dos pais. 



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