Férias escolares, entre a morbidez e a criatividade

Publicado em 19/12/2018


Sabemos que as férias escolares é o momento mais esperado do ano pela maioria dos alunos, principalmente crianças e adolescentes. Sou do tempo em que as férias de final de ano eram longas, de dezembro a março, e ainda tinha todo mês de julho de férias. Hoje, por exigências do sistema de ensino controlado pelo MEC, as férias tornaram-se mais curtas para a moçada, ao todo chega a 2 meses entre as de final de ano e do meio de ano. Porém, o conteúdo estudado permanece o mesmo, porém, o estresse acumulado na galera aumentou. Parece que a cada ano as tecnologias avançam, mas nosso sistema educacional piora. 

Se as férias é o desejo dos alunos, não podemos afirmar que também seja o desejo dos pais, principalmente quando ambos trabalham e muitos deles não conseguem associar as férias dos filhos com a do trabalho. Mas também o limiar para se aguentar crianças livres nas férias o dia inteiro rodeando e caçando o que fazer, está diminuindo a cada ano. Vejo que hoje, este período é um grande tormento para a maioria dos pais. 

O cenário das férias, neste contexto, tem de um lado os alunos vibrantes, bem mais do que com os estudos, e do outro lado pais apavorados e estressados diante do que fazer com esta meninada neste período. Assim, vamos contemplar as férias escolares dentro de um eixo de medida que varia entre a morbidez e a criatividade.

As férias mórbidas, são aquelas estruturadas no “não tenho o que fazer, não tenho para onde ir”, “cuidado com a rua"; vai ficar trancado em um apartamento ou casa. A maioria das cidades brasileiras não tem planos de férias para crianças e adolescentes, aliás, janeiro fica quase tudo paralisado. Moro na cidade de Vitória/ES e o calendário cultural da cidade zera de eventos nos teatros e praças públicas já a partir do dia 20 de dezembro até o final de janeiro. E olha que Vitória é uma cidade turística, imagine as cidades do interior com pouquíssimos atrativos turísticos. Nas cidades litorâneas o lazer está por conta da praia e de um ou outro evento com grandes concentrações, eventos estes que não cabem a presença de crianças e adolescentes. 

Com o avanço da tecnologia digital, principalmente dos Smartphones, a morbidez das férias é acentuada com o celular nas mãos das crianças e dos adolescentes com tempo liberado para uso indiscriminado. Uma excelente "babá eletrônica”, que antes era a TV e hoje são os smartphones. Os alunos com este recurso na mão viajam o mundo, pesquisam de tudo, mas não evoluem cognitivamente. Desenvolvem cabeças grandes e mãos pequenas. Se durante o ano letivo algum conteúdo foi acrescido no conhecimento geral dos alunos, os eletrônicos se encarregam de esvaziar. Hoje, sabemos com mais critério que a geração eletrônica apresenta perdas cognitivas significativas, é o saber que se tem sem ser experienciado. Ainda dentro das férias mórbidas temos a inversão cronológica etária, em que adquirem hábitos de idosos, dormem pouco à noite, para dormir a maior parte do dia. São “vampiros” das férias, ligados em filmes, jogos eletrônicos e redes sociais. Haja episódios de séries na Netflix. O dia todo passou na cama, um falso descanso. Sabemos que esta morbidez contribui muito mais para o acúmulo de estresse do que para o alívio do mesmo. 

Por outro lado temos as férias criativas, aquela que logo pela manhã a cada dia terá algo para fazer, lugar para explorar, pessoas para encontrar. Jogos, passeios, brincadeiras e a liberdade autorizada. O ambiente criativo de férias é um ambiente desorganizado pelas ações alternadas. As casas, apartamentos, acabam ficando bagunçados, e até para arrumação é preciso criatividade dos adultos ao redor para transformar as tarefas em algo de lazer. 

Todas as cidades do Brasil tem lugares para ir e muita coisa para fazer. Lógico que dentro desta perspectiva da criatividade. Eu já morei em várias cidades do interior, com perfil mais agrícola e sem nada de eventos artísticos, ou culturais e esportivos e, no entanto não dava para ficar parado. Lembro de uma de minhas férias, quando ainda criança, que meu pai em uma tarde brincou de campeonato de descascar laranja sem que a casca quebrasse. Ganhava a competição aquele que conseguisse deixar a faixa da casca inteira, sem deixar marcas na laranja e com menor tempo. Uma bobeira de brincadeira que durava tempo e consumia-se muita laranja. Até hoje, quando descasco laranjas fico pensando em bater meu recorde de tempo e qualidade. A visão de férias criativa é pautada na simplicidade e em potencializar o dia com gasto de energia, pois crianças e adolescentes precisam gastar energia. E não é preciso muita coisa, apenas uma pitada de motivação. 

Mas quem vai conseguir criar este ambiente de criatividade nas férias inteira? Há famílias que revezam, em um período o pai está na frente e no outro a mãe, chamam tios e tias e muitos procuram buscar encontrar-se com outras famílias para que a ação e potencialização das férias seja melhor distribuída. 

A rua ainda é um paradigma do espaço privilegiado para as férias. Tirando as capitais e grandes cidades, o Brasil é um canteiro de ruas com potencialidades para o brincar. Mas quando a rua é muito movimentada por veículos ou de fato têm inseguranças por questão de roubos, há as praças públicas, os clubes e os parques. Feliz da cidade que investe em praças, áreas de lazer e parques. A diferença é que a rua é um lugar onde o adulto precisa estar próximo, não dá para simplesmente ficar fazendo tarefas do lar e deixar as crianças sozinhas na rua, a não ser em bairros onde as famílias conhecem muito bem seus vizinhos. Porém, falar de rua hoje, com a mídia nos seus telejornais transformando o imaginário das cidades em todo Brasil a partir do que acontece no eixo das cidades do Rio e São Paulo, é fazer aflorar o medo. O medo passa a ser ainda a mola propulsora dos pais, e com medo nos trancafiamos. O medo elimina a liberdade psíquica, o medo “emburrece”.

Trouxe brevemente os dois cenários das férias escolares, o da morbidade e o da criatividade. O da morbidez enquadra a tristeza e escravidão e o da criatividade enquadra fantasia, liberdade e alegria. A escolha entre uma possibilidade e outra está nas mãos dos pais que podem decidir sobre o tipo de férias que querem potencializar aos filhos. É preciso amar muito os filhos para escolher o caminho da criatividade. 


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