Relação do feminicídio com a pornografia

Publicado em 11/03/2019


No dia internacional da mulher geralmente assistimos uma diversidade de posturas, desde as mais festivas pelas muitas conquistas das mulheres na sociedade até as mais críticas e de luta pelas conquistas que ainda precisam acontecer. Mas a forma de celebrar o dia internacional da mulher que mais me deixa irritado são aquelas associadas á exploração comercial do dia, mantendo as mulheres dentro de um enfoque consumista de objeto de cama, mesa e banho. Tipo as festas com palestras de auto ajuda, shows e uma superficialidade sobre este dia. Posições estas, que estão na contramão deste data que nasceu da luta de mulheres exploradas, por justiça e igualdade.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em pesquisa feita pela Datafolha, no ano de 2017 ocorreram 536 agressões à mulheres por hora. Em 2019 houve um aumento de 12% segundo o monitor da violência no G1. Com tamanha violência contra o feminino, a grande imprensa, deu destaque no último dia 08/03/2019 para notícias de eventos com temas de luta das mulheres para reverter este quadro. Podemos perceber uma mudança de enfoque em relação aos anos anteriores que muitas vezes ressaltava a “beleza de ser mulher”. Uma beleza que aos olhos do masculino é objeto de ataque.

Há milhares de olhares para entendermos este fenômeno da violência contra a mulher. E parece que quanto mais as mulheres conquistam seus direitos mais aumenta a violência contra elas. Aqui poderia explorar o tema no enfoque da inveja do masculino para com as mulheres. Mas em outros artigos que já escrevi neste site, você pode se aprofundar mais nesta temática e em outras, ( "Mulher, um dia para refletir", "Carta às mães", "Sempre mulher", "Por todas as mães", "Novembro azul, o mundo masculino revisitado").

Hoje quero centrar meu olhar sobre a relação direta da pornografia com o feminicídio. A indústria do filme pornô tem um crescimento vertiginoso, principalmente no que diz respeito ao conteúdo disponibilizado na internet. Segundo a lista de sites Alexa, feita pela Amazon, no Brasil, o maior site pornô mundial ocupa a 18° posição de acessos ficando atrás apenas de sites de busca e sites de compras.  Hoje no Brasil cerca de 22 milhões de pessoas assistem pornografia com frequência. Destes, 76% são homens e 24% são mulheres. Uma pesquisa da Treasures, uma organização voltada para o resgate de pessoas no tráfico de sexo, detectou que 90% das mulheres envolvidas com a indústria do sexo foram abusadas quando criança. Ao analisarmos o estilo de produção dos filmes pornográficos, vamos observar um culto à virilidade masculina e as tramas, em sua maioria, estão relacionadas ao masculino usando o feminino. As mulheres sujeitas da necessidade fisiológica dos homens. Costumo dizer que os homens fixados em pornografia são mais fixados em observar o pênis alheio do que a própria atividade sexual. Tudo termina no gozo do homem sobre a mulher. Observa-se também um forte apelativo do sexo grupal, de vários homens sobre uma mulher. Imagens que soam como agressivas à mulher, tanto no contato corporal quanto no uso de objetos e agressões para se obter prazer. Há uma forte tendência sado masoquista do homem para com a mulher.

Para a consagrada escritora americana Bell Hooks, aclamada intelectual negra, em seu livro “O feminino é para todo mundo”, afirma que as mulheres deveriam se recusar à pornografia, por ver neste tipo de produção uma forte violência à mulher.

Além dos dados que apresentei acima, podemos entender o feminicídio da pornografia pela forma que as mulheres são usadas. Aparentemente são atrizes belas e bem sucedidas. Vendem a imagem de que estão livres pelo prazer e ao mesmo tempo ganhando dinheiro. Mas a amostra específica  da organização Treasures, de 90% delas serem mulheres que já foram vítimas de abuso sexual na infância, é assustador. Mas vamos ver também o por que a pornografia colabora na construção de uma mente feminicida. Ao associar a mulher como objeto de prazer sexual e sabendo que a pornografia têm muito foco na estimulação daqueles que passam a maior parte do tempo só, envolto no seu próprio mundo, o objetivo principal é oferecer ao usuário a capacidade de satisfação sexual genital como um recurso para pelo menos não se tendo conquistado uma parceira, tem-se o consolo na masturbação. O incrível é que esta realidade atinge as pessoas que estão casadas ou tem parceiro fixo sexual, tipo está junto, mas solitário.

Nesta construção do imaginário feminino e também do masculino, a pornografia vai levar o indivíduo a ver o outro apenas pela via do objeto sexual e da necessidade deste outro o satisfazer sexualmente. Como 76% dos usuários da pornografia no Brasil são homens, o volume de produção negativa do imaginário feminino na sociedade transforma as relações sociais entre homens e mulheres no velho conflito machista, onde a mulher continua sendo objeto. A sujeição das mulheres à pornografia solidifica o perfil patriarcal/machista da sociedade, pois ela sustenta esta relação. Lógico que na indústria da pornografia, muitas mulheres são sequestradas para a escravidão profissional do sexo. Por isso mesmo que na amostra de 90% delas terem sido vítimas de abuso sexual na infância justifica, pois se tornam presas fáceis  desta indústria.

O hábito da pornografia no mundo masculino trás um perfil de tara sexual no homem. É como se ao olhar para uma mulher já estivesse procurando nela um motivo sexual. É uma violência à mulher as brincadeiras sexuais que muitos homens fazem nas ruas das cidades quando estão em grupos de iguais e passa uma mulher na rua e soltam aquelas beldades agressivas: “gostosa, boa, deliciosa, pega na minha, etc.”. Um olhar de desrespeito e de necessidade meramente genital. Ao observarmos os últimos episódios de ataques violentos às mulheres, que a grande mídia está notificando, veremos que há sempre uma trama de ordem sexual. Se houver uma negativa da mulher em fazer da forma que seu parceiro quer, automaticamente passa a correr perigo pela agressão do homem obcecado no sexo aos moldes da pornografia.

Neste olhar quase que unilateral da percepção do processo de feminicídio na sociedade onde se fala tanto em igualdade nas relações de gênero, entendo que posso estar abrindo percepções ao leitor deste fragmento de leitura que muitas vezes não é entendido como produtor de violência. Tanto, que muitos homens que se declaram adeptos da luta pela emancipação das mulheres, são usuários da pornografia sem se aterem ao que ela gera de violência ao feminino.

Nas nossa escolhas por negar a pornografia tanto como hábito pessoal como pela denúncia e crítica social a esta indústria, poderemos estar contribuindo sim para mais um elemento de conscientização pela igualdade e dignidade entre homens e mulheres .


Compartilhe:

 




Visitas: 493

Entre em contato