Massacre da escola de Suzano, um alerta à sociedade brasileira.

Publicado em 29/03/2019


O massacre ocorrido na Escola Estadual Professor Raul Brasil na cidade de Suzano-SP no dia 13 de março de 2019, foi um bom prato para a imprensa sensacionalista que sobrevive de tragédias para atrair telespectadores e leitores. Infelizmente estes fatos são explorados de forma desumana e sem respeito às vítimas e seus familiares, à comunidade local e até ao município. O que mais se falou e mais se viu foram  cenas da crueldade, e depois o sensacionalismo. É como se Suzano fosse aquilo, que em bairros periféricos estas coisas acontecem e como se as famílias desestruturadas gerassem pessoas do tipo dos jovens que cometeram o massacre. Mas o que é uma família desestruturada?

Você conhece alguma família estruturada? Estruturada em que? Em dinheiro, como se as famílias ricas não gerassem criminosos; em formação religiosa como se as famílias que praticam religião não gerassem criminosos; em estrutura emocional como se os pais com estrutura emocional não gerassem filhos desestruturados. Se cairmos neste esquema de família estruturada, estaremos matando a família na sua origem. Pois só se é família dentro das desestruturas, que vão se configurando conforme contextos, desejos e expectativas sócio, econômica e cultural.

Um alerta! 


Eu fiquei sabendo do episódio no mesmo dia logo na hora do almoço e vendo o palanque político instalado pelo governador de São Paulo, João Dória. Ele com toda a sua experiência televisiva, e com uma capacidade dramática incrível, rodeado de secretários estaduais de diversas áreas do governo estadual e mais um membro da Polícia Militar do estado que iria falar sobre o episódio, dizia quase em lágrimas sobre o massacre e confirmava exaustivamente “...nunca  vi  algo assim em toda a minha vida...”.

No final das contas, rendeu muita audiência e ainda está rendendo. A escola começou a receber  projetos de voluntários, assistência psicológica e de assistentes sociais, até reforma recebeu, ou uma pintura maquiada. Tudo o que já poderia estar sendo feito dentro de um equipamento educacional na escola em Suzano e em todas as escolas do Brasil, após o massacre começou acontecer. Quando o Governador Dória dizia que estaria dando todo o suporte necessário aos familiares e a escola, acho que ele se esqueceu de dizer que falhou em não ter na escola um equipamento permanente de segurança. Ele e seus antecessores e todos os governantes dos estados brasileiros ainda não entenderam que uma escola pública arrebanha dezenas e milhares de cidadãos ao seu entorno. Na escola pública, crianças e adolescentes e jovens, assim como adultos, estudam diariamente. Na escola pública dezenas de funcionários trabalham e gera uma empregabilidade indireta pelos muitos serviços que uma escola necessita para sua manutenção e existência. E cadê a segurança? A meu ver, uma escola em um bairro é o principal lugar deste bairro. Aquele lugar onde todas as atenções devem estar voltadas, pois dali floresce o conhecimento que transforma. Uma escola no bairro é o marco de luz e perspectivas daquele bairro onde convergem famílias em torno de um objetivo em comum, que é a busca do conhecimento e os desmembramentos deste conhecimento, para as melhorias da sociedade. Guardar e proteger uma escola é o mesmo que manter a segurança de um baú cheio de ouro.


Falta de gestão pública, escolas vulneráveis! 


Sou especialista em Psicologia da Educação pelo Conselho Federal de Psicologia. Atuo em equipamento educacional (Escolas) desde a minha graduação na Unesp de Assis-SP, quando já em 1987 atuava em uma intervenção a uma escola estadual localizada na Vila Prudenciana, daquela cidade, com mais de 1500 alunos e com isso, uma média de pelo menos 8 mil pessoas envolvidas direta e indiretamente. As coisas que víamos acontecer naquela época continuam quase que no mesmo lugar hoje. Lembro de uma sala de equipamentos pedagógicos que estava toda estruturada e nunca tinha sido usada, ao levantarmos esta situação para a direção da escola obtivemos a resposta de que os professores não sabiam dominar aqueles jogos e não tinham tempo para isso. Nesta escola havia um garoto de aproximadamente 13 anos que se chamava “chupeta”. Ele era traficante e andava armado. Nossa presença na escola como estudantes de psicologia inseridos em uma ação do departamento de educação do curso de Psicologia da Unesp, era um incômodo para a comunidade escolar, pois diagnosticávamos, solicitávamos intervenções e além disso, “olhávamos pelo buraco da fechadura”,como já nos ensinava o educador e filósofo Rubem Alves, para vermos  além do que enxergávamos.

Passados 32 anos desta minha experiência, e vivido mais outras centenas de experiências em comunidades escolares, deparo-me naquela manhã do dia 13 de março com o massacre da escola de Suzano. De lá para cá, a coisa só piorou.

Piorou em vários pontos, mas para o enfoque deste texto específico quero ater-me nos aspectos da segurança e cuidado do coletivo da comunidade escolar na qual o massacre vem para nos alertar. Houve uma invasão do narcotráfico nas comunidades periféricas das cidades de todo o Brasil, e inclusive nas mais distantes deste interior afora. O equipamento predileto do tráfico é a escola, lógico! Nela tem gente para ser seduzida ao consumo de drogas. Não só ao consumo de drogas como á exploração sexual, comercialização de comidas e doces, etc e etc. Se em 1987 na cidade de Assis-SP um aluno com o codinome “chupeta” era traficante, hoje na maioria das entradas das escolas públicas do Brasil, os traficantes estão implantados. Se não for à frente da escola é ao entorno ou numa praça ou terrenos baldios mais próximos da escola. Pior ainda, os alunos já bem novos fumam um “baseado” e entram para a aula de cara boa.  Mas até hoje nunca vi uma ação de segurança pública  nas escolas como um lugar de primeira necessidade de segurança e inclusive de suporte para rastrear o narcotráfico e seus personagens. Desta maneira, a falta de segurança pública nas escolas é um nítido sintoma de incompetência das gestões públicas  e um fechar os olhos ao tráfico de drogas. No caso da escola de Suzano, a questão e motivação não foi o tráfico em si, porém a ausência de segurança em torno da escola abre portas para outras invasões e violências. Os jovens que cometeram o massacre entraram ali de boa, sem nenhum monitoramento de segurança, assim, não só ao fluxo do tráfico como também a facilidade às barbarias de violência, as escolas tornam-se sujeitas. Hoje nas escolas entra e sai quem quer.

Psicologia Educacional e assistência social, uma alternativa de prevenção! 


Outro ponto que deixo para pensarmos é o relacionado aos dias posteriores ao massacre, quando se inicia algumas intervenções na escola de cuidado com os aspectos emocionais e de bem estar da comunidade escolar. Ações com Psicólogos e Assistentes Sociais associados á elaboração do trauma no coletivo. Temos a tendência de agirmos em processos curativos, quando a doença já instaurou. Mas temos propostas de leis tramitando no congresso nacional que preveem a presença de Psicólogos e Assistentes Sociais na atuação direta dentro das escolas, prevendo inclusive o quantitativo destes profissionais por turnos e equivalência de alunos. Pois a Psicologia  tem muito a oferecer no sistema educacional principalmente no campo das ações preventivas e de busca de cuidado das relações na comunidade escolar. Já o Assistente Social tem por instrumento prioritário a extensão junto às famílias dos alunos e as interações com a comunidade local. Porém, parece que estas propostas não avançam, pois a mentalidade dos políticos brasileiros é de que escola é “cuspe, giz e aulas e mais aulas”.   

  Diante deste massacre, mais do que ficarmos remoendo drasticamente o fato, precisamos tomar este episódio como alerta. E alertados, buscarmos em comunidade escolar que incluem todos os agentes em torno da escola e da Educação, para a construção de um sistema educacional que possa ser orgulho da nação. A força dos pais e familiares de alunos matriculados em uma escola pode sim fazer a diferença no cuidado dos gestores públicos sobre a priorização em primeiro plano de base do ensino na pirâmide  hierárquica dentre todas as ações públicas.

Sobre outras necessidades para o sistema educacional, podemos deixar para uma outra oportunidade.


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