Braços e abraços maternos

Publicado em 10/05/2019


Em torno do dia das mães sempre há um clima de magia e encanto. De fato, este dia é o segundo dia mais concorrido na busca por presentes, só perde para o Natal. Pensando um pouco mais a fundo o por quê a sociedade se mobiliza tanto em torno destas duas datas para presentear alguém, podemos dizer que elas possuem um elemento em comum. São celebrações que envolvem todos e todas, indistintamente. No Natal, celebramos o sentimento de paz, de vida, de nascimento. No dia das mães, comemoramos os braços e os abraços maternos, que todos recebemos direta ou indiretamente, e nos quais podemos oferecer a maternagem (acolhida afetiva de uma criança na construção de sua identidade), sendo ou não sendo a mãe, mulher ou homem. É este ponto da maternagem humana que vou ressaltar neste breve texto em homenagem ao dia das mães.

A maternagem humana 


Alguns braços acolhem antes mesmo que o das mães que parem, como são os das parteiras, das enfermeiras, dos médicos que recebem o ser recém nascido. Assim, todos os envolvidos em um ambiente de maternidade já possuem os braços maternos da acolhida. Outros braços recebem os bebês sem mães, por alguma situação social ou por abandono real. São aqueles que se dispõem a servir nas entidades sociais de acolhida às crianças sem lar. Eis um exemplo de maternagem solidária.

Há também os braços dos educadores de creches, mulheres e homens que cuidam de crianças desde tenra a idade nas instituições públicas e privadas, para que seus pais possam trabalhar. Este é um direito da sociedade que requer uma atenção muito diferenciada destes profissionais. Por isso mesmo eles devem manter seus turnos de trabalho o mais regulares possíveis nas creches, pois as crianças precisam da estabilidade dos braços que cuidam. Aqui, neste contexto de creches, a diferença é que mais do que cuidados físicos são necessários os cuidados psíquicos e educacionais.

Podemos falar também dos braços de avós e de avôs que substituem os braços maternos por alguma adversidade ou por suporte no núcleo familiar. E olha que às vezes os avós são a salvaguarda para muitas mães e pais, os quais, por questão de trabalho, precisam de um apoio. Eu mesmo estou, neste mês de maio, curtindo o novo status de avô, pelo nascimento da minha primeira neta, a Luna, filha do meu filho mais velho Samuel Iauany e de minha nora Gabriela. Descobri neste momento que grande parte de minha felicidade na condição de avô é ver o filho, que criei junto com minha esposa Maria Celina, estar tão dedicado e ter esta vocação paterna tão bem desenvolvida dentro dele. Também me alegro de ver a minha nora Gabriela, mãe nova, de experiência materna e de idade, ter tanta força e vigor materno, tanta alegria e desejo de ser mãe. Depois dizem que a juventude está por fora ... Doce ilusão.

Falando ainda de braços, temos os pais que conseguem ter nos seus braços o poder da maternagem. Pois a maternagem não tem gênero, é dom e vocação de todos e todas que estão abertos a acolher no amor uma nova vida.

Temos os pais com as mães em parceria, juntos ou separados, mas temos também a maternidade dos “pães”, que são os pais que assumem uma criança sozinha, sem a presença materna real.

Podemos lembrar também dos braços que acolhem em maternagem um filho que não foi gerado por eles, como os filhos adotivos dos pais adotivos. São braços que se desdobram em atenção e carinho para superar ausências decorrentes de interrupções de laços afetivos.

Podemos pensar nos braços maternais dos casais homossexuais, que escolhem adotar ou gerar um filho e, em quatro braços, se entrelaçam na construção de um ser. Podemos garantir que o resultado é tão semelhante quanto os de pais héteros. Este é um tabu ainda a ser superado. Muitos são os filhos cuidados por pais de união homo afetivas que possuem o registro maternal dos braços que os acolhem, mesmo em um casal de homens. Aqui entra o mito de que a identidade e o caráter de uma pessoa necessariamente nascem de uma educação por casais héteros, onde se tenha a figura de pai e mãe. O vínculo afetivo e o desejo da maternagem, ao contrário deste mito, supera todas estas demandas.

Existem ainda os braços maternos de um espectro público, quando nos deparamos com gestores públicos com um olhar diferenciado, que dão prioridade para a educação e para a assistência social. É quando o estado se faz protetor de seus filhos. Tudo bem que esta é uma realidade que perdemos a cada dia no nosso país, que é o país que mais abandona seus filhos. Mas podemos sim entender que devemos vislumbrar os braços maternos para além dos braços humanos, e entender que uma gestão pública pode ser o resultado de uma visão ideológica de cuidado no coletivo.

Não quero deixar de lado os braços maternos daqueles que acolhem os idosos, principalmente quando estes perdem a estrutura de autonomia por alguma debilidade física. Tanto os filhos que fazem o retorno para cuidar daqueles que um dia os cuidaram, como os muitos profissionais em casas de acolhidas ou cuidadores que passam horas ajudando nossos idosos. Quando os braços que cuidam de um idoso não estão vinculados com uma estrutura de maternagem, vemos muita violência e maus tratos nos lares e nas casas de acolhida.

  E com certeza, preciso falar dos braços maternos das mães reais, que trazem este legado histórico do cuidado imediato aos filhos que geram. Mas sabemos que o olhar maternal ultrapassa as questões biológicas. Ele tem em si uma base na mulher que gesta e pari, pois na humanidade é a mulher que traz este legado. Porém, vínculos de maternidade sãos estruturas que vão para além do referencial biológico. Tanto que outros animais, também mamíferos como o ser humano, não criam laços de vínculos permanentes de afetividade na relação mãe/filhos/pai. O sentido que nos integra e nos faz afetivamente saudosos, ou comovidos, ou emocionados com a chegada do dia das mães a cada ano, é mais uma expressão simbólica de estabelecimento de vínculo, tem mais a ver com nossas construções subjetivas em si do que com estabelecimentos de contatos corporais biológicos. Tanto é verdade que até na jurisprudência o simples fato de ser a mãe biológica não garante o direito do pátrio poder sobre o filho. Por isso que em muitas decisões judiciais acerca da guarda de uma criança, o que vai contar são fatores de ordem emocional de estabelecimento de vínculo real.

Como anda a maternagem de seus braços ?

Nesta simples homenagem ao dia das mães, quero apenas levar você a pensar como anda a maternagem de seus braços. Você tem vivido esta face materna, a qual nós, seres humanos, potencializamos ao longo da história, e que alguns filósofos constatam que é nossa grande vocação, a acolhida? O ditado que “Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”, consigo conjugar muito bem nesta condição dos braços maternos que descrevi, de mulheres e de homens capazes de cuidar de crianças ajudando-as um dia a chegarem a retransmitir esta cultura, que hoje celebramos no dia das mães.

Assim, no dia das mães, procure viajar nas suas lembranças para identificar os múltiplos braços e abraços que se fizeram na sua vida materna, na construção do seu vínculo afetivo.


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