Meu filho ainda não sabe ler, e agora?

Publicado em 16/05/2019


"Meu filho ainda não sabe ler, e agora?"  foi a pergunta que uma mãe me fez, recentemente, em uma palestra que ministrei para pais acerca da educação dos filhos. É uma preocupação de muitos pais, porém, devemos nos atentar para saber se é uma preocupação antecipada ou se de fato já é um problema do processo de aprendizado da criança. 

Quando se preocupar com o nível de leitura de um filho?

A primeira pergunta que devolvi para a mãe foi: “Qual é a idade de seu filho? Ela disse, sete anos. Depois disso, explorei com ela o que esta criança já sabia escrever, e, para tanto, a mãe me mostrou seu caderno de escola e suas apostilas. Seu filho de fato não sabia escrever, mas já estava pré-alfabetizado. No desejo da mãe e da professora, o menino já deveria ler plenamente, porém, ele estava apenas no início do segundo ano do ensino fundamental, isto é, na antiga primeira série. Neste contexto, a professora já havia abordado a mãe preocupada com o nível de escrita da criança, e isto a deixava apavorada. Porém, ele já construía frases completas, curtas, logicamente, e a mãe disse que ele lia somando sempre duas letras ( que é a forma silábica de ler), o que, em minha opinião, está bem adequado para a idade. Mas a mãe questionou que a professora sempre corrigia, em caneta, no caderno e na apostila, as palavras erradas, e que eram muitas as correções. Para mim, também está adequado com a idade o fato de existirem muitos erros. Esta é uma fase em que a escrita geralmente vem com trocas de letras e sem muita definição ortográfica. Até o término do quinto ano do ensino fundamental (a antiga quarta série), os textos estarão com menos trocas e a leitura estará mais fluente. Mas vejam, este é um processo que segue um ciclo de cinco anos, no qual o primeiro ano, onde geralmente a criança está com seis anos, consiste apenas na pré-alfabetização.

Uma criança no início do segundo ano do ensino fundamental não precisa saber ler e escrever, precisa sim estar pré-alfabetizada. É ai que mora o grave problema do ensino fundamental nos primeiros anos estruturantes, o de saber o que uma criança pode ou não pode dominar conforme seu desenvolvimento cognitivo (capacidade para elaboração de processos de conhecimentos), emocional e também de acordo com sua capacidade psicomotora e social. Outro fator importante é entender e respeitar o tempo, o ritmo e a ambiência cultural de onde se situa a criança. Dentro da perspectiva da teoria de Piaget, a criança está em condições estruturais cognitivas de iniciar o processo de alfabetização propriamente dito a partir dos sete anos, todos os trabalhos que envolvem letras, escritas e leituras são procedimentos de estímulo para a alfabetização. Já a teoria Psicanalítica, a partir de Freud e, mais especificamente, de Winnicott, depois dos sete anos a criança adentra na segunda etapa da infância, a qual Freud denominou latência e na qual Winnicott percebe que a criança já não necessita plenamente dos cuidados da maternagem (que é a mediação para a estrutura emocional). Ela estará, aqui, com mais capacidade de interação com aquilo que está aprendendo dentro da alfabetização. Ela deixa a condição de espelho, ou de repetições, e passa a pensar sobre o que aprende de forma mais interna e pessoal. Assim, forçar a barra de alfabetizar antes disso é conduzir uma criança a traumas e até ao fracasso educacional. E hoje vemos o quanto o português e a matemática são as vilãs dos alunos na adolescência, sobretudo no segundo grau ou no ensino médio. 

Importante acompanhar o ritmo e a necessidade de cada faixa etária.

Muitas crianças chegam ao segundo ano lendo quase que fluentemente e escrevendo muito bem. Mas, ao tentarmos apreender os entendimentos e as abstrações que estas crianças conseguem fazer do que leem ou escrevem, percebemos que não existe muito desenvolvimento. Assim, é um saber forçado, treinado, que salta aos olhos dos pais e professores que se encantam pela performance da criança, mas que são mera repetição de leitura e de escrita sem entendimento. É sempre bom lembrar que papagaio consegue cantar o hino nacional, mas não consegue entender e interpretar o que está cantando. Muitas crianças, aparentemente bem-sucedidas na escrita e na leitura já aos sete anos, são fruto deste processo compulsivo e repetitivo de ensinar.

Por sua vez, crianças que aos sete anos ainda não estão tão versáteis, como muitos esperam que estejam, conseguem abstrair e entender além de explicar com detalhes o que entenderam. Mas estas possuem um processo de aprendizado que acompanha o ritmo e as necessidades de sua idade, e a leitura e a escrita será uma questão de tempo. Por isso que esta criança, já terá sua escrita e sua leitura bem mais avançadas no terceiro ano escolar. Deste modo, será respeitada a perspectiva da sua faixa etária, sabendo que aos adultos cabe aceitar os estágios de desenvolvimento da criança. Cabe não querer ver na criança aquilo que é do adulto. Prefiro ver crianças nos primeiros anos do ensino fundamental com potencialidades mil, que são ativas, espertas, questionadoras e versáteis, do que simplesmente “sabendo ler e escrever”, mas sem interatividade com a vida. Ler e escrever são como coçar, é só começar. Mas para isso tem tempos de maturidades. Vejam como um adulto analfabeto quando se propõe a aprender consegue, em pouco tempo, desenvolver o que nunca tinha sido desenvolvido. Mas o adulto está em sua plena maturidade. A criança vai chegar lá, o importante é não antecipar os processos. 

Cuidado com a tendência de "patologizar" as crianças!

Quando a criança já apresenta disfunções na escrita e na leitura que de fato podem representar uma dificuldade para o processo educacional, já as observamos na pré-escola. Estas dificuldades podem ser percebidas desde a desenvoltura motora, das disfunções de fala e também de dificuldades de interação social. Mas sabemos que o índice de crianças que podem apresentar disfunções está em uma proporção muito pequena dentro de um grupo de alunos. Mesmo hoje, com todas as tendências de “patologizar” (querer enquadrar crianças em algum tipo de problema de aprendizado) que vemos emergir no sistema educacional brasileiro, os índices ainda são pequenos. 

Este tema de fato abre muitas questões para serem debatidas como: a confusão que se faz hoje com a transferência da pré-escola, ou o antigo pré II, para primeiro ano; o enquadramento das crianças em um sistema educacional limitado, apenas em sala de aula; a falta de recursos didáticos ou, quando eles existem, o mau uso dos mesmos; o despreparo de muitos professores para o ensino fundamental, as vezes fruto dos cursos de pedagogia sem muitas exigências, à distância ou até mesmo cursos falsificados, como estamos vemos aflorar no país. Penso que o professor que deveria ter mais preparo e ser mais exigido no processo de graduação são os que vão trabalhar com o ensino fundamental I. O material didático para as crianças do ensino fundamental geralmente está carregado de textos pré-estipulados e com conteúdos que vão além da necessidade da criança para a sua faixa etária. 

Alfabetizar não é um monstro de sete cabeças! 

Por fim, quero ressaltar esta questão dos conteúdos exagerados que chegam em sala de aula na forma de apostilas ou de cópias de livros didáticos. Vejo neste ponto um crime no processo de alfabetização, pois entregamos tarefas para a criança fazer em casa de textos que ela nem sabe ler, o que implica que os pais precisam fazer a tarefa junto com as crianças. Os pais, por sua vez, não foram treinados e não são vocacionados para serem professores, e 70% deles são semianalfabetos, como aponta dados do IBGE (adultos que ao ler um parágrafo não conseguem interpretar o que leram). Deste modo, acontece uma barbárie no processo de incorporação de letras e de escritas. Lembro-me que sofri muito quando tive que sair da letra bastão, ou garrafal, para a letra cursiva, ou “da mãozinha”. Lógico que sofri, pois todos os textos são escritos nas apostilas e em livros em letras não cursivas, geralmente de tipo românico, daí, haja piração. Mas, na minha época, não precisávamos ler textos enormes, a “Cartilha suave” era mais suave do que as apostilas das escolas. Percebemos neste método uma burrice, literalmente falando. Se a própria literatura infantil é constituída de mais imagens do que de textos, por que é que as tarefas para casa chegam carregadas de textos para os pais lerem e, quem sabe, as crianças entenderem? Porém, quando os próprios educadores já não enxergam nem o óbvio, é sinal de que “a vaca já foi para o brejo”.

Esta reflexão é um alerta aos pais e também aos educadores, de que alfabetizar é um processo simples, na mesma proporção que contemplar a correnteza suave de um rio que corre seu curso natural. Mas, para isso, é preciso respeitar aqueles que estão aprendendo nas suas diferenças e nas suas idades. Do contrário, quando queremos imprimir nossas vontades de adultos no processo educacional das crianças, fica assustador para todo mundo, parecido com a beira do rio quando está com sua correnteza turbulenta decorrente de uma tromba d’água, onde segue seu curso de forma avassaladora.



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