Meu filho está usando maconha, e agora?

Publicado em 31/05/2019

Poucos anos atrás, quando os pais descobriam que o filho estava usando maconha, ficavam desesperados e já queriam internar em um centro terapêutico ou em uma clínica de recuperação. No ano de 2000 houve o lançamento do filme “Bicho de sete cabeças”, de direção de Laís Bodanzky, tendo Rodrigo Santoro como ator principal em uma interpretação maravilhosa. Neste filme, a trama se passava em um hospital psiquiátrico onde o jovem Neto (Rodrigo Santoro) é internado por que seus pais descobriram que ele usava maconha. O filme demonstra um processo de crise familiar diante da presença da erva no mundo do filho, que desencadeou uma verdadeira história de como transformar um jovem normal em um doente mental. Este filme chegou para alertar muitas famílias que, diante dos dilemas da adolescência e da juventude, ao invés de buscarem o caminho do diálogo e da acolhida, criavam uma tempestade, principalmente quando o assunto era o uso de drogas ilícitas.

Inércia e indiferença perante o uso da maconha

Hoje, temos as famílias que ainda se desesperam, mas observo um outro movimento, o da inércia e o da indiferença. Assustados, os pais ainda não sabem o que fazer. Principalmente na atual conjuntura em que há todo um debate em torno de liberação da maconha, e também de como esta erva tem sido usada como meio terapêutico para casos psiquiátricos e neurológicos. Assim, ao saberem que o filho está usando maconha, na sua maioria os pais continuam sem diálogo aberto e entram em confronto com o filho. Estes pais estão se deparando com as argumentações dos filhos que se apoderam do movimento de liberação da maconha e também do discurso do uso medicinal.

Existem argumentos do tipo: “Nossa, a maconha está liberada em vários lugares do mundo; a maconha acalma e não tem efeito colateral; a maconha está até sendo usada para fins medicinais; Faz menos mal que o álcool e até menos mal que muitos medicamentos psiquiátricos, etc.”


Com poucas informações, os pais tendem a ficar sem argumento e muitos até autorizam o filho usar em casa para não terem que entrar em confronto e também por medo de uma reação negativa dos mesmos. Também observam que muitos jovens usam a maconha nos espaços públicos e em ambientes de festas, inclusive em espaços de lazer de condomínios fechados. É como se o uso da maconha estivesse liberado no Brasil. Diante deste cenário, a dúvida de como agir vem com força. Desde as atitudes mais radicais que já taxam os filhos de dependentes químicos, mesmo que estes só tenham experimentado esporadicamente a maconha, até a liberação total, mesmo os pais não aceitando esta condução. Tanto de um lado como de outro, os pais se tornam inseguros por sentirem culpa de serem demasiadamente rígidos, ou por culpa da falta de atitude. 

E agora?

Não vou me preocupar, neste texto, com detalhes sobre a dependência química e sobre os efeitos que a maconha pode desencadear na vida do jovem. Quero apenas trilhar um caminho possível que os pais devem traçar para a busca de uma resposta para este dilema:

Primeiro, acolham a notícia do filho de que ele está usando maconha, sem desespero. Sem transformar esta demanda em um “bicho de sete cabeças”. Estabeleçam uma escuta de diálogo, para ouvir o que o filho tem a dizer, mesmo que o desejo seja de soltar os cachorros, de castigar e tomar atitudes drásticas, como por exemplo, internar. Tentem entender o que está acontecendo, de peito e de alma abertos, sem repressão e sem censuras. Se as pedras estiverem nas mãos para serem lançadas os pais conseguirão pouca transparência da parte dos filhos. Ao contrário, provocarão mais distanciamento e pouca possibilidade de acharem uma resposta.


Segundo, procurem entender sobre todo este movimento em torno da maconha, e se aprofundem nas diferentes posições sobre possíveis benefícios e ou malefícios sobre o uso da planta. Se aprofundem no que de fato está acontecendo nos países que já liberaram a maconha, como de fato foi o processo e como está o cenário atual nestes países. Aqui é um passo que muitos pais refutam conhecer por já terem uma posição contrária ao uso da maconha. Mas os pais devem entender que a questão de conhecer mais sobre o tema ajuda no estabelecimento do diálogo, de acolhida e principalmente para que a postura dos pais seja definida a partir de argumentos convincentes, pois, na contraposição argumentativa do filho que defende o uso da maconha, este fator pode ser um contrapeso de uma posição sem fundamento.

Terceiro, ter clareza de qual é a posição dos pais em torno do uso ou não da maconha. Por exemplo, dizer “não queremos pronto e acabou, por que maconha é droga”, é uma posição fácil de ser derrubada. Se os pais ainda não possuem uma clareza sobre o que de fato desejam para o processo educacional dos filhos, enfraquecem argumentos e atitudes, correndo o risco de se sujeitarem à necessidade e às vontades dos filhos.

Quarto, procure um profissional de psicologia para colaborar na avaliação do filho, visando identificar o processo de uso da maconha, se de fato já está em nível de dependência ou se apenas está com uma convivência de lazer com ela. Também, nesta busca, o Psicólogo pode colaborar com a intermediação do conflito familiar. Tenho recebido muitos jovens na clínica para serem avaliados, e de fato esta posição dos pais procurarem ajuda e muito a clarear o cenário, que por detrás da experimentação da maconha ou uso por dependência sempre faz emergir outras demandas de conflito interno da família que já estavam sendo gestados no seio da psicodinâmica familiar. E por incrível que pareça, quando a ajuda é realizada ainda na fase inicial do uso da maconha por parte do jovem, temos um índice muito grande de recondução de hábitos de vínculos afetivos e educacionais da família onde o próprio jovem se redimensiona diante de práticas de riscos, grupos de influência e também em perspectivas de vida futura.

Neste processo de avaliação, caso seja identificado um quadro de dependência química já estabelecida, consegue-se proceder com acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico, tendo em vista o rompimento da dependência. Ele também colabora para identificar processos educacionais sem critérios e, assim, oferece orientação aos pais. Em muitos casos a entrada na maconha começa pelas lacunas de um jovem em sofrimento emocional que precisa ser tratado. Como não se vê o problema de fundo emocional, o jovem acaba tendo um acalanto na maconha que, na maioria dos casos, cria um vínculo de dependência emocional, isto é, a química que supre uma necessidade psico/afetiva.

Como o suporte psicológico ajuda? 

Dentro de minha clínica psicológica com os instrumentos do método que estruturei, o qual intitulo “Psicanálise contextualizada”, também evolui nos procedimentos. No começo, via os jovens com uso frequente de maconha como um quadro para tratamento em comunidades terapêuticas, pois entendia que a clínica não conseguiria suprir as tramas da dependência. Mas com a acolhida de jovens com uso da maconha principalmente em estágios iniciais de uso, e dentro de uma perspectiva das transgressões normais de uma adolescência, comecei a ver resultados progressivos na percepção dos jovens de como a maconha entrara em seu mundo e quais as consequências dela para a vida dele. E, concomitante a esta acolhida, faço um processo intenso de orientação e de suporte aos pais. Buscar caminhos a partir da acolhida do problema e da busca por soluções pelo processo da auto percepção do jovem e dos pais e da construção de referenciais por consciência e não por pressão ou patologização do jovem, é sem dúvida um processo com maior chance de um bom resultado.  Não podemos dizer o que é um modelo perfeito, mas sim podemos ter um parâmetro deste resultado a partir dos reencontros de vínculos familiares, escuta e respeito das diferenças e melhor definição de papéis na configuração familiar.

Os pais tem sim o direito de não aceitarem que seus filhos, ainda em processo de amadurecimento e dependentes deles, usem a maconha ou qualquer outra droga, mas é preciso ter esta postura clara e intervir com muito amor e sabedoria caso um filho venha a tomar atitudes que não condizem com a forma educacional dos pais. Pois dizer que não quer que o filho use a maconha e ao mesmo tempo autorizar que ele a manuseie dentro da própria casa, é criar um ambiente de ambivalência que não levará a lugar algum. Ao contrário, só acentuará o ambiente persecutório e de agressões.


Também querer recorrer a tratamentos que utilizam do conceito de “redução de danos” no tratamento, que consiste em ir ministrando a maconha em quantidades decrescentes, como se fosse um desmame, é fazer uso de uma contravenção, pois a maconha não está liberada no Brasil, e sua venda está no esquema do narcotráfico. Como um profissional regularmente registrado no conselho profissional não pode usufruir de indicações não aceitas e não reconhecidas legalmente, permitir este tipo de conduta passa a ser uma contravenção também. De fato, quando os pais entendem e conhecem as regras jurídicas sobre a maconha no Brasil e todo o esquema que está ao em torno da comercialização da mesma, terão um prato cheio no argumento contrário ao uso da maconha pelo filho.

O caminho não é tão simples e o cenário cultural de nosso atual país também não favorece. Os jovens transitam livremente nas ilegalidades da lei com a conivência institucional. Nossos jovens menores de idade seguem livres e soltos perante a lei. Um país de leis que não se cumprem. Com esta realidade, é melhor fazer acontecer a prevenção daquilo que os pais não desejam para o filho, estando perto, monitorando, orientando. Mas sabemos que mesmo com todos os processos de prevenção, poderá acontecer quedas, transgressões e perdas de referencias. Por isso que aos pais cabe o preparo para o inevitável, que é educar sabendo dos riscos inerentes do processo de educação. Como não existe fórmula mágica e pronta, não existe faculdade para ser pai, se houvesse seria um fracasso total. O melhor caminho é caminhar confiante e aberto para o que der e vier, sem desespero, mas confiante.




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