O Brasil é um país racista sim!

Publicado em 22/11/2019


Por ocasião da Semana de Consciência Negra, tendo como marco o dia 20 de novembro, a grande imprensa e a mídia como um todo acabaram dedicando alguns comentários sobre a realidade dos negros no Brasil e sobre o debate em torno do racismo. A dúvida do brasileiro de ser o país racista ou não volta, então, à tona. E, numa sociedade polarizada, principalmente após a última eleição presidencial, onde os nervos estão a flor da pele entre conservadores e progressistas, direita e esquerda, etc, o tema do racismo, das cotas raciais e de direitos restituídos, como no caso das áreas de quilombolas em várias regiões do Brasil, emergem com força.

Alguns números que afirma a desigualdade social no Brasil 
 
Os números confirmam, entre brancos e negros/pardos (afrodiaspóricos) a desigualdade social é gritante e, consequentemente, existe um racismo institucional generalizado. Observemos alguns dados:

  • Em 2018: Média salarial de negros – R$ 1.560,00; pardos – R$ 1.606,00; brancos- R$2.814,00 (IBGE)
  • Em 2015, entre os 10% mais pobres 75,5% eram negros e pardos; entre 1% dos mais ricos, 17,8% eram negros e pardos
  • Analfabetismo atualmente: entre negros e pardos são 9,9%, entre brancos, 4,2%.
  • Pessoas com ensino superior entre 25 anos ou mais: brancos, 22,9%, negros e Pardos, 9,3%. Lembrando que no senso de 2010 a população que se declarava parda era de 43,42%, e negra era de 7,52%. Somando pardos e negros, que podemos situar como afrodescendentes ou afrodiaspóricos, são 50,99% da nossa população. Porém, outro órgão internacional coloca o Brasil como o segundo maior país negro do planeta, perdendo apena para a Etiópia, segundo a UNESCO e órgãos da educação ligados à ONU, no Brasil 70% da população é composta por negros. O que revela que muitos brasileiros ainda não têm a coragem de se intitularem conforme sua cor.

Com estes dados, não precisamos ir muito longe para vermos a institucionalização das diferenças e a consequente manutenção de um perfil racista do país. Fica mais escandalosa a diferença quando olhamos para nossa representatividade no Congresso Nacional, onde apenas um quarto dos congressistas são afrodescendentes.

Sabemos que estes dados são desdobramento de uma história perversa da escravidão negra que percorreu mais de 300 anos, e quando a suposta Lei Áurea foi assinada, os negros “libertos”, ao saírem das fazendas onde eram escravos, voltaram para trabalhar em outro regime de trabalho escravo. Ganharam a “liberdade”, mas não ganharam terras para plantar e se tornarem autônomos. Resquício do trabalho escravo ainda tem aos montes pelo Brasil afora, onde o trabalhador rural, ao receber seu salário, acaba depositando todo ele no mercadinho do dono da fazenda. Parece que este tipo de escravidão acabou, mas ainda vemos espalhados por aí.

As políticas afirmativas são importantes 

Entra ano e sai ano, e as políticas afirmativas avançam pouco, e as poucas que foram introduzidas estão sob ameaça de desaparecer com o atual governo federal que acredita que cotas para afrodescendentes não são necessárias, pois todos são iguais, e as conquistas pessoais são só uma questão de força de vontade. Mas a experiência das cotas para negros nas universidades públicas já demostra resultados a curto prazo, como apontou pesquisa do IBGE deste ano de 2019, na qual a população estudantil de negros e pardos já supera a de brancos nas universidades. E os resultados de desempenho dos cotistas no coeficiente de rendimento são superiores aos resultados dos não cotistas, revelando o esforço que um jovem beneficiado pelas cotas faz para se superar, é uma questão de oportunidade.

Mesmo os números da desigualdade apontando para uma necessária e urgente ampliação das políticas afirmativas, principalmente para Negros e Pardos, vemos os discursos contrários de quem defende a ideia de que a cota racial aumenta a desigualdade, e geralmente esta opinião vem de quem está em uma zona social de conforto, pais de classe média que os filhos estão disputando uma vaga em pré vestibular e pensam que as cotas dificultam a entrada de suas crias na universidade; empresários que vieram de camadas sociais mais baixas e cresceram economicamente e dizem que as cotas são para vagabundos; e uma certa opinião pública decorrente da forjada informação de que somos um país da solidariedade e abençoado por Deus, de um povo feliz e sem preconceitos.

O acesso à educação de fato deve ser universal. O Brasil, como um todo, sofre da falta de um verdadeiro investimento na educação, tanto que o índice de brasileiros com nível superior é muito pequeno. Porém, as políticas afirmativas principalmente na inclusão dos negros e pardos no espectro educacional superior, e também nos concursos públicos, é uma questão de justiça, de reparação histórica, de uma página da nossa história que devemos ter vergonha dela, e pela ampliação das políticas afirmativas podemos fazer reparação e reconstrução de um novo imaginário social. É o mínimo que podemos ver acontecer à comunidade afrodescendente no Brasil. Um país afrodescendente por excelência só poderá ser institucionalmente reconhecido como tal se a igualdade de posição social estiver na equivalência de seu quantitativo, assim, o resultado da inclusão por equivalência de representatividade populacional será a certeza de que escolhemos não manter o racismo camuflado e eliminaremos o discurso hipócrita de  dizer que somos um povo humanitário e igualitário.


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