Prevenindo a dependência digital em adolescentes e jovens

Publicado em 18/03/2020


Cada vez mais tenho recebido, em meu consultório psicológico, adolescentes e jovens com um perfil de dependência eletrônica. Geralmente chegam por intermédio dos pais que procuram uma resposta pelo baixo rendimento escolar ou por sintomas de depressão e auto-agressão. Ao diagnosticar, observo que a carga horária passada em eletrônicos, tanto smarthfone, como computador e TV, é de fato exagerada. Muitos deles adentram a madrugada em jogos on-line e/ou na netflix. Coincidência ou não, o fato é que os hábitos são muito semelhantes.

Quando sei que estou dependente de algo? 

Mas para caracterizar uma dependência, precisamos observar alguns sintomas. Tenho utilizado a seguinte simulação, quando coleto as informações dos pais e do próprio paciente: consegue ficar sem o hábito dos eletrônicos? Ou, ao  se afastar dos eletrônicos, aciona o gatilho da ansiedade generalizada, como se a pessoa ficasse fora de lugar? Assim, este esquema simples vale para qualquer dependência. Sei que sou dependente de algo quando não consigo ficar sem e se tento ficar sem, fico muito irritado e agressivo.

Até então, dependência estava muito associado a produtos químicos, como bebida alcoólica, drogas ilícitas ou lícitas, principalmente no campo psiquiátrico, tipo remédio para dormir. Com esta mudança de comportamento de hábitos, que primeiramente foram observados mais nos adolescentes e jovens, em relação aos eletrônicos, começamos a ter novos olhares sobre esta forma de dependência. Por muito tempo os pais não viam problema nos eletrônicos, por que estes não são substâncias químicas que podem gerar dependência fisiológica. Mas na verdade, a dependência em torno dos eletrônicos está no hábito cotidiano e na fixação de prazer decorrente deste hábito. Já em 1995 lancei o livro “O poder da TV na vida da criança e do adolescente”, pela editora Paulus/SP, onde alertava os pais sobre a dependência da TV. Na época, várias pesquisas já indicavam que a média de TV por dia das crianças e adolescentes no Brasil era de 4 a 5 horas, fora o tempo de escola. E já nesta época observávamos que crianças com uma carga de TV diária alta, em processo de ludoterapia, que é a psicoterapia com brinquedos, não sabiam brincar. Diante de várias opções de brinquedos na clínica, ficavam estagnadas.

Com a evolução tecnológica, a dependência dos eletrônicos aumentou em diversidade e em tempo. Além da TV, temos os smarthfones, tablets, leptops, playStation etc. Com as escolas começando a utilizar a internet como campo de pesquisa, muitos pais ficaram perdidos em relação ao que realmente o filho fica fazendo no equipamento. Soma-se a isso o agravante dos próprios pais ou adultos em geral estarem criando a dependência dos novos eletrônicos, principalmente dos smarthfones pelo acesso às redes sociais. Hoje, o departamento de Psiquiatria da USP/SP, mantém um atendimento ambulatorial no hospital das clínicas de São Paulo, para tratamento de dependentes eletrônicos. Lá eles consideram que a dependência eletrônica  já está comparada com a mesma intensidade da dependência alcoólica.

Como ocorre a dependência por um aparelho eletrônico? 

No alcoolismo sabemos que a substância do álcool é um definidor na dependência, mas como entender a capacidade de alguém criar dependência em torno de um eletrônico, sendo que não envolve química externa ao corpo? A dependência pelos eletrônicos passa por dois fatores: o primeiro está no hábito, pelo qual, conforme a intensidade do uso, fixa-se a necessidade da rotina, que está diretamente associado às facilidades de respostas que a internet oferece. Se for por jogos, o vínculo de dependência aos eletrônicos acontecem por eles serem tão prazeroso e os usuários dos jogos vibram por estar em uma disputa on-line com gente do mundo todo, e até com grupos de pessoas próximas. No quesito jogos, temos a evolução para ganhos financeiros, fator que acentua ainda mais a necessidade de jogar, mesmo fenômeno que acontece com os jogos de azar. Já atendi jovens que se endividaram pelo cartão de crédito dos pais, por conta das apostas oferecidas em diferentes sites de jogos. Se a dependência é estruturada pela obsessão de filmes, principalmente com a emergência da Netflix, é por eles utilizarem um método que vai fidelizar o usuário em séries e episódios.

 O segundo motivo é pela dinâmica da região do cérebro chamado Hipocampo, responsável por pontuar e registrar  prazer, assim no uso contínuo do eletrônico com pontuação de satisfação do usuário, que na rotina e na intensidade de buscar o prazer pela prática em eletrônicos nas suas diversas possibilidades gera uma demanda cerebral para que haja a repetição do hábito, assim, pela química cerebral produzida a partir do hábito, da sensação do prazer, gera-se a dependência. Mas como a percepção da dependência eletrônica é nova no cenário das dependências, sabemos que muitas coisas serão descobertas sobre os motivos que levam a este tipo de relação. Ainda estamos no início de um processo de dependência na qual muitas pesquisas virão para ir desvendando esta facilidade dos eletrônicos gerarem dependência.

Efeitos da dependência eletrônica 

Pesquisas têm sido desenvolvidas, e uma que gosto de recordar, que assustou a muitos que trabalham no campo de psicologia, foi a sistematizada pela Psicóloga americana Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego, USA. Ela entrevistou 11 milhões de jovens na faixa etária de 18 à 25 anos, no ano de 2017. Escolheu esta faixa etária por entender na época que era o grupo “geração smarthfone”, obtendo alguns dados alarmantes: Média de horas por dia no smarthfone de 6h/dia; identificando 5 anos de imaturidade comportamental, isto é, um sujeito de 25 anos com comportamentos de 20, um de 20 com comportamentos de 15 anos; e também constatou isolamento social. Identificou que eles são menos propensos a dirigir carros, a trabalhar, a fazer sexo, a sair de casa e a beber álcool. Acredito que para muitos pais os eletrônicos são até permitidos sem controle de limites porque de alguma forma os jovens ficam mais caseiros e correm menos riscos sociais e se distanciam de outros vícios. Mas esta é uma forma de proteção que traz consequências extremamente desmobilizadoras aos jovens.

A ponta final da dependência eletrônica são os comportamentos altamente preocupantes observados pelos pais, que só começam a agir e procurar ajuda quando já estão no limite de uma depressão, um desejo suicida, auto agressão, franco isolamento e perda de potencialidades cognitivas que refletem na baixa educacional.

Descobri a dependência, o que fazer? e como prevenir? 

Se me estendi na fundamentação da dependência é por que o primeiro passo de prevenção é ter o conhecimento de como funciona a dependência para observar no meio familiar e identificar comportamentos dos adolescentes e jovens na família que já estão trilhando este caminho; O segundo passo é tomar atitude sobre aqueles que já estão enquadrados na dependência. É preciso intervir, colocar limites, estipular horários definidos para que os eletrônicos sejam vivenciados como lazer. Aqui neste passo teremos reações agressivas e de muita ansiedade daqueles que já estão com a dependência, pois esta é uma reação natural do dependente. Há casos em que se necessita um suporte medicamentoso para conter a ansiedade que vai ser o sintoma produzido pelo cérebro para conduzir novamente o dependente aos eletrônicos. É aqui que muitos pais acabam desistindo, pois coloco como passo de prevenção no sentido de resgatar o adolescente e o jovem para uma retomada de posicionamento de vida. Mesmo sendo já uma intervenção curativa, é preventiva para que outros transtornos comportamentais não venham a ser adquiridos e ou agravados. O terceiro passo é definir critérios de uso dos equipamentos eletrônicos na casa, e aqui vão alguns pontos possíveis:

  1. Definir o tempo de uso dos eletrônicos em torno de até 2h por cada 24h;
  2. Estipular os horários de uso como lazer;
  3. Retirar o celular em horários de estudos e ou desenvolvimento de tarefas escolares;
  4. Não levar o celular para a escola, como sei que os pais querem um mecanismo para poder falar com o filho, solicite que a escola recolha o celular em horário de aula;
  5. Retirar todos os equipamentos eletrônicos do quarto de dormir, e mantê-los em espaços coletivos, pois facilita a percepção do que estão fazendo e também cria ambiência para que o quarto seja o lugar prioritário para dormir, além de ajudar a percepção de que o uso dos eletrônicos faz parte do coletivo da família;
  6. Na casa manter uma única TV e em espaço coletivo, onde o que assistir seja conversado entre todos e partilhado os gostos e desejos sobre o que assistir;
  7. Desconectar todo e qualquer sistema de internet na residência uma hora antes de dormir;
  8. Desligar do celular da rede de internet da própria operadora uma hora antes de dormir. Lembrando que isto não impossibilita de usar o celular como despertador e para receber chamadas, há situações que é melhor não deixar o celular no quarto do filho;
Os pais devem seguir os mesmos critérios para si próprios, pois estas dicas precisam ser vivenciadas por eles também, se não, não vai funcionar.

Aqui são algumas de muitas outras indicações que os pais podem contribuir para que o ambiente familiar seja estimulador de hábitos que desenvolvam o ser humano, em vez de potencializar sua destruição. Transformar o lar em uma Comunidade Terapêutica em prol da vida, do bem estar mental e da integração das pessoas no núcleo familiar.


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