Dependência digital na vida adulta

Publicado em 25/03/2020


 
Geralmente nós adultos temos a tendência de controlar as crianças e jovens em torno da dependência eletrônica, como se a perda de controle fosse uma condição apenas dos supostamente mais imaturos. Eu me pego fazendo isto com certa constância. Porém, passei por uma cena familiar muito interessante, onde um de nossos filhos filmou eu e minha esposa na sala de TV, aparentemente vendo telejornal, mas estávamos fixados no celular, nos contatos das redes sociais. Depois de alguns minutos, ele mandou o vídeo que fez no nosso whatsapp de família. Foi uma chacota daquelas: “Está vendo, vocês ficam tentando nos controlar e olha ai quem está viciado”. Depois disto, comecei a ficar mais atento.

Hoje já recebo muitos pacientes que não conseguem desconectar do celular, principalmente das redes. Observo que, no mundo adulto, ainda prevalece o hábito de estar ligado nas redes e também nas notícias, como se estivessem que estar super informados de tudo o que acontece no mundo. Imaginem, se os telejornais no Brasil são regidos por uma única fonte de notícias que os abastecem, que é a Agencia Nacional de Notícias, e podemos observar isto ao assistir a todos os telejornais da noite, onde o que é falado em um, é falado em todos. Mas, nos aplicativos de celular, o que observamos é apenas o anúncio da notícia com uma frase curta sobre o fato, o que torna o argumento de estar conectado para se informar uma falácia.

Mas, no mundo dos adultos, como podemos identificar uma dependência? 

Podemos identificar a dependência eletrônica, quando o adulto carrega seu celular para todos os ambientes e a qualquer sinal de comunicação pelas redes e ou aplicativos de notícias, o celular vai direto às mãos. Em situações que a pessoa trabalha diretamente com um computador conectado, pela própria exigência do trabalho, e a produtividade é reduzida pois a cada janela que se abre a pessoa entra para ver o que está sendo anunciado ou comunicado. Por este motivo que algumas empresas começam a colocar bloqueadores para sites que não estejam ligados ao objeto de trabalho, ou já começam a não permitir o celular nas mãos dos funcionários, que deve ficar guardado durante o serviço. Também os adultos revelam a dependência quando vão dormir e carregam o celular como parte do próprio corpo. Durante a noite acordam continuamente para verificarem se chegou alguma mensagem, e respondem as mensagens, causando um processo de transtorno do sono.

Os sintomas são muito semelhantes em relação a outras idades, mas na vida adulta as características são mais facilmente percebidas por quem está ao redor. São eles: dificuldade para dormir e evolução para insônia; sentimento de insegurança em relação ao futuro, pois as informações do mundo externo que chegam como um super sônico de qualquer parte do mundo, principalmente as notícias catastróficas, levam o sujeito a projetar seu futuro com muita insegurança; decorre desta insegurança a ansiedade, pois passa-se a viver do amanhã, e o quadro tende a evoluir para uma síndrome do pânico, que no adulto chega de forma violenta e com quadros dos mais “bizarros”, como por exemplo: O sujeito saiu de sua cidade no interior com destino a capital de seu estado em uma poderosa caminhonete à noite, quando de súbito tem um sentimento que se continuar a viagem na caminhonete vai acontecer um acidente e ele vai morrer. Ele para o veículo na beira da estrada e começa a seguir sua viagem a pé, e deixa o veículo aberto, ligado e com os faróis acesos. Um amigo, coincidentemente vinha logo atrás e identificou a caminhonete como sendo de um conhecido, para e não vê ninguém dentro do veículo, e logo à frente identifica o amigo seguindo a estrada a pé (muito louca esta situação, né?); desenvolvimento de apego a jogos, principalmente no público masculino, além do forte apego a vídeos de pornografia, que são muito veiculados pelos grupos de trabalho e de amigos no whatsapp, levando o sujeito a uma necessidade diária de acessar este tipo de vídeo; retomando o sintoma de dependência  do  celular por motivo de trabalho, muitas vezes o sujeito mantém continuamente o aparelho próximo de si, conectado para poder resolver pendências de trabalho, e com o argumento e defesa que é para o bom desenvolvimento profissional, usa tão intensivamente que em todas as situações, de refeições, lazer, repouso, ele está lá, pendurado ao celular.

Mas só vai conseguir se posicionar diante deste cenário de dependência aqueles que conseguirem perceber que de fato já estão dependentes. Enquanto não “cair a fixa” pessoalmente, as pessoas ao redor podem falar, cobrar ou criticar, que o sujeito não mudará de posição. Mesmo quando recebemos o paciente já com algum sintoma de transtorno comportamental, e na evolução do tratamento observamos que o motim do transtorno foi a dependência eletrônica, leva um bom tempo para que o sujeito comece a tomar atitudes para se desvincular dos eletrônicos. Aqui tenho enfatizado muito o celular, por ser um micro computador ambulante e de fato ser a peça mais usada. Mas lógico que temos o apego por outros aparelhos, como a TV, tablets e leptops. Já estive em residências de pessoas com TV ligada 24h em diversos cômodos da casa. Em uma oportunidade, entrei em um quarto, pois a TV estava ligada e o quarto estava sem hóspede, o proprietário da casa foi e voltou a ligar o aparelho dizendo que ele não conseguia ver uma TV desligada, pois lhe dava a sensação de morte.

Hoje já começa a surgir grupos de apoio a adultos dependentes de eletrônicos, alguns na mesma formatação do Alcoólicos Anônimos, porém, são raros, tendo em vista que o conceito de dependência eletrônica é muito recente e temos poucas pesquisas sobre este tema. Este meu texto, inclusive, está mais relacionado com minha prática da Psicologia Clínica e também no campo de assessoria empresarial. Até para definirmos que um sintoma de transtorno emocional é decorrente de uma dependência eletrônica, ainda não podemos respaldar tecnicamente pelo viés de pesquisas, e não estão catalogados ainda de forma sistematizada os sintomas de uma dependência eletrônica. Mas faço os diagnósticos a partir da eliminação de hipóteses, onde, após eliminar todas as variâncias possíveis, podemos concluir a dependência. Neste campo, todos, indistintamente, estamos sujeitos a nos tornar dependentes, pois os eletrônicos, a cada ano que passa, estão mais desenvolvidos, e a tecnologia de informação é um caminho sem volta.

Como prevenir a dependência eletrônica ?

Diante deste cenário, indico passos para que o adulto possa se precaver de criar dependência eletrônica, pois em toda dependência o melhor caminho é prevenir do que remediar, pois depois a saída da dependência é um caminho quase que sem volta. Indico que:
  1. O celular esteja apenas ligado para recebimento de chamadas via as redes telefônicas, desconecte o 4G e wi-fi, marcando horários durante o dia para conectar-se as redes e ver suas mensagens;
  2. Desligar o celular das redes uma hora antes de ir dormir, não levar o celular para o quarto, ou deixá-lo apenas para receber chamadas quando está com alguém da família em trânsito ou algum idoso que precise de um contato;
  3. Procurar escolher participar de grupos nas redes sociais que de fato comuniquem coisas saudáveis e fazem troca de informações bem utilitárias, fuja dos grupos que a todo o momento há mensagens de auto-ajuda e ou vídeos sem nenhuma necessidade informativa, principalmente as notícias falsas e sem fontes oficiais ou idôneas;
  4. Se trabalhar em computador, procure manter o trabalho desconectado da internet, se está assistindo aula, é melhor baixar no seu computador para ver sem estar conectado às redes, pois sempre será estimulado a entrar em uma janela que se abre;
  5. Coloque limites para usar o computador mesmo se for por trabalho. Há um crescente número de pessoas trabalhando em casa e principalmente estes precisam fazer seu trabalho com horário definido, como se estivesse na empresa;
  6. Aos finais de semana, procurem agendar atividades externas de lazer, cuidado com os filmes e séries nas madrugadas e com a compulsão de passar um final de semana inteiro vendo filmes. Antigamente pessoas fissuradas em filmes retiravam nas locadores dezenas deles  para passar o final de semana, e isto cria um tempo muito extenso de contato com o eletrônico, sendo um lazer restritivo;
  7. Ao sair para clubes, praças e restaurantes, não levem o celular para que no lugar da interatividade com as pessoas, fique apenas no celular, é cada vez mais comum estarmos nos coletivos como se estivéssemos no nosso quarto sozinho;
  8. No caso de empresas, vejo que os departamentos de gestão de pessoas precisam criar mecanismos de evitar que os funcionários estejam com o celular pessoal o tempo todo conectados. Também é necessário criar mecanismo de controle de como manusear as redes, em pleno horário do trabalho, principalmente se a atividade for diretamente ligada a computadores.
São muitas as indicações, mas quero aqui apenas estimular o leitor para se ater à tomada de atitude em relação à prevenção da dependência eletrônica, pois o mecanismo que leva à fixação de uma dependência é o prazer que um hábito emana. Por isto sempre lembro que criamos dependência por coisas que nos satisfazem prazerosamente. No caso dos eletrônicos, a fixação está na quantidade de tempo que ficamos ligados a um determinado eletrônico, por isto que insisto com o celular, pois ele é o eletrônico mais fácil de colocarmos ao nosso lado por 24 horas. Assim, no caso dos eletrônicos, a dependência está diretamente associada à quantidade de tempo que ficamos nele. Porém, temos o elemento da internet, que está vinculada ao aparelho que carregamos e ela nos coloca em um mundo de muitas possibilidades de prazer. Neste sentido que o ato de desconectar por longo período durante o dia, não conectar toda a noite no horário de dormir, pode nos proteger da memória do hábito que gera o prazer, que além de estar no equipamento, está nos recursos que ele nos oferece. É como se o aparelho conectado fosse o corpo e mente interligada.

Para quem entender da importância da prevenção à dependência eletrônica, os ganhos serão medidos pela diferença que será percebida em relação àqueles que não agirem para se prevenir, pois estes sofrerão com a emergência de disfunções emocionais e perdas profissionais e cognitivas, e aqueles conseguirão se proteger da futura onda ditatorial que são os robôs da tecnologia de informação. Ai é uma questão de escolha.


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