Dependência digital na infância

Publicado em 02/04/2020


Pode parecer um exagero pensar que uma criança possa tonar-se dependente digital. Mas esta é uma preocupação crescente entre os profissionais da saúde, principalmente os da Psicologia e da Pediatria. Nas escolas, desde as primeiras séries do ensino fundamental os professores já relatam que as crianças estão levando seus celulares para a escola, e mesmo quando se é proibido o uso em sala de aula, o cenário nos intervalos é de crianças paradas e olhando compulsivamente o celular. Além disso, tem as queixas dos pais aos professores de que eles não conseguem mais controlar o uso de tablets ou celular.
Ouço muito os adultos falarem que as crianças de hoje são muito espertas por que conseguem manusear um equipamento eletrônico, alguns até admiram que os pequenos acabem ensinando os adultos. Cada vez mais os pais, desde o primeiro ano de vida dos filhos, utilizam de algum equipamento digital para deixar nas mãos da criança com objetivo de acalmá-las, quando estamos em espaços coletivos, começa a fazer parte do cenário, crianças com celulares ou tablets na mão, de bebês até aos maiores.

O desenvolvimento de uma criança pode ser definido pelo uso de eletrônicos? 

Acreditar que uma criança está mais desenvolvida do que no passado, por que elas conseguem manusear os digitais com muita facilidade é uma falácia. Os digitais são de fácil mecanismo de manuseio, e se assim não fosse não teriam caído na graça das pessoas pelo mundo inteiro. Na verdade, o manuseio é simples e o sistema tecnológico que é rápido para oferecer informações e visualizações quase que instantâneas. Assim, temos a ilusão de que a criança está se desenvolvendo por ter facilidade com os digitais. Ao contrário, as crianças com intenso manuseio aos digitais/eletrônicos, desenvolvem poucas habilidades manuais e, consequentemente, vão se tornando limitadas cognitivamente. Habilidades de raciocínio rápido, percepção ampla de mundo, fantasia e intuição, são perdidas paulatinamente.

Sabemos que a melhor forma de uma criança revelar que está em franco desenvolvimento motor, cognitivo, social e psicológico, é quando ela é capaz de brincar livremente, passando por brincadeiras mais individualizadas nas primeiras idades para as coletivas conforme cresce em idade. O brincar é o elemento de medida das potencialidades de uma criança. Quando a criança não consegue interagir com brinquedos tanto individualmente como em grupo, ela já está mostrando que tem algo de errado acontecendo com ela.

Lógico que os aparelhos digitais podem ser parte deste brincar da criança, quando principalmente é utilizado como uma brincadeira e também em processos educacionais. Mas quando a única ferramenta de entretenimento da criança são os digitais, ai sim está diante de um problema de desenvolvimento.

Como acontece a dependência digital na infância?

No mundo infantil a dependência se dá pela repetição no uso. Em relação ao televisor, que está a cada dia mais digitalizado principalmente com as smart tvs, a fixação em filmes ou desenhos que se repetem é um elemento que pode desencadear dependência; no celular, alguns joguinhos e ou filmes primários ( sem muito enredo, principalmente para crianças entre um a três anos) também são excelentes para fixação de dependência; tem também os tablets, principalmente estes que são para as tenras idades, que já vem com imagens definidas por algum filme ou desenho, que sempre repetem quando as crianças ligam o aparelho ( e olha que estes já estão ultrapassados). Enfim, a introdução precoce ao mundo digital, associado a falta de tempo dos adultos em estarem com as crianças e com o modismo inclusive de creches e escolas primárias que introduzem os digitais pelas facilidades e para venderem a ideia de que estão com metodologia atualizada, somado ao uso intensivo dos digitais pelo mundo adulto, o terreno está fértil para que a dependência seja construída já antes mesmo da criança começar a falar e a andar.

Na infância, já é possível observarmos sinais de dependência decorrentes de alguns comportamentos que passam a ser correntes e amplamente descritos pelos adultos nas rodas de família, nas escolas e nos equipamento de saúde. Trago aqui alguns:

  1. Alimentar-se apenas se estiver manuseando um eletrônico ou assistindo algo em algum sistema digital, quando se limita esta prática na hora da refeição, a criança não consegue se alimentar, ou faz a maior birra insistindo em que o equipamento seja ligado. Neste item, o desespero para comer sem o equipamento de uso diário, é muito escandaloso, às vezes assustador;
  2. Inquietação constante com desenvolvimento da ansiedade, principalmente quando está sem o eletrônico conectado;
  3. Isolamento social, na escola, na rua, na praça. Pode estar acontecendo mil brincadeiras entre crianças, o dependente está no seu equipamento quase que como um autista isolado de tudo e de todos;
  4. Até para dormir o sono só chega com um equipamento ligado.
A partir de sintomas observados desde as primeiras idades, e que tendem a ser mais notáveis quando a criança já está mais desenvolvida para os relacionamentos sociais, vamos pontuando alguns transtornos decorrentes da dependência digital/eletrônica, como a Ansiedade Generalizada, Transtorno do Defict de Atenção Hiperatividade, Transtorno de Pânico que no mundo infantil aparece na forma dos terrores noturnos ou fobias de animais, disfunções psicomotoras e problemas de aprendizado como discalculia, dislalia e dislexia.

O que fazer  em um cenário de dependência digital  infantil? 

Diante deste funesto panorama, é melhor agir cedo, tomando atitudes de intervenção e limites, antes que da infância chegue à adolescência. A vantagem na infância é que ainda é uma etapa de vida em que os pais ou adultos responsáveis possuem força de mando sobre a criança. Esta é uma verdade fácil de constatar na fala dos pais que já estão com os filhos jovens, quando se lembram deles na infância e relatam que era mais fácil conduzir. Tanto que é mais comum vermos pais com crianças em praças, cultos religiosos, festas de escolas, etc, do que vermos pais com filhos jovens ao redor.

Mas é melhor prevenir, e para esta posição segue algumas dicas:
  1. Os pais devem ter consciência de como eles mesmos estão utilizando os digitais, pois sendo os pais dependentes, as crianças terão maior acesso livre também. Nesta faixa etária a prevenção começa pela atitude pessoal dos adultos que cuidam de crianças sobre seus próprios hábitos digitais;
  2. Adiar o máximo possível o contato direto com equipamentos digitais, sabendo que esta é uma tarefa quase que impossível, pois a cada momento na vida de um bebê, os adultos ao redor estão clicando uma foto ou fazendo uma filmagem das aventuras do bebê na família. Já vemos o quanto que um bebê percebe que aquele equipamento é importante e o quanto eles fixam o olhar no aparelho. Mas é possível mesmo assim, não deixar o equipamento ser manuseado pelo bebê e logo em seguida nas novas etapas do desenvolvimento;
  3. Procurar estar com os digitais junto à criança desenvolvendo alguma brincadeira, vendo algo relacionado a faixa etária da criança. Mas sempre juntos. Evitar deixar a criança sozinha manuseando o digital. De vez enquanto recebo umas chamadas pelo Whatsapp vídeo que ao aceitar é uma criança que pegou o celular do pai a da mãe e começa a cutucar;
  4. Deixar crianças sem redes sociais, pelo menos até aos doze anos. Nossa, aqui é um desafio, pois vivemos a ditadura do ter um aparelho digital e estar em uma rede. Nas escolas há uma pressão dos amigos quando uma criança vem de uma família que usa critérios de limitar  o uso do celular. Estas acabam sendo vítimas de bulling. Neste caso indico que os pais entrem em contato com a escola e deixem claro o propósito de controle que escolheram para o filho, e a escola deve acatar;
  5. Limitar o tempo de uso dos digitais, dentro das 24 horas que possui o dia, no máximo duas horas de uso dos digitais monitorados. De um aos quatro anos, se possível zero horas, ou no máximo uma hora, e depois dos 5 aos 12 anos, até duas horas;
  6. No lugar dos digitais, oferecer presença, atividades criativas e muita brincadeira;
  7. Para as escolas, procurar delimitar o uso dos celulares. Para séries de segundo ano a quinto ano, pode ser usado como instrumento pedagógico desde que seja respeitado as crianças cujos pais escolheram não dar um celular aos filhos. Lembrando que o uso indiscriminado fora da sala de aula, em momentos coletivos de intervalo, pode ser um incentivo ao não brincar no coletivo e ao isolamento, e assim, uma forma nada pedagógica. Lembrando que na França, depois de fracassada a abertura para utilização dos digitais pelos alunos dentro da escola, houve um recuo do sistema educacional por observarem uma perda generalizada de produção acadêmica dos alunos.
  Sabemos que nossas crianças de hoje são tão usadas e usurpadas como no passado. Houve períodos da história que as crianças não eram contadas em censos. Também tivemos períodos em que roubaram a infância, transformando elas em miniaturas de adultos. Também foram e são abusadas sexualmente, ontem e hoje. Agora, temos a era dos digitais, em que as deixamos livres para navegarem, e sem sensor para fazerem escolhas, seguem como hipnotizadas, construindo uma estrutura de personalidade bestializada. Cabe aos adultos com um mínimo de sanidade e de desejo de proteção à infância e uma vocação educacional plena, proteger o máximo possível os filhos e as crianças nas quais pode ter alguma interferência desta avalanche tecnológica nas mentes cuja maior e mais sublime aventura é simplesmente o brincar, o fantasiar e o conviver afetivamente. Feliz os adultos que com prevenção agirem sobre a dependência digital/eletrônica, verão a diferença no amanhã sobre aos filhos daqueles adultos que no hoje acham tudo isto uma grande baboseira. O tempo mostrará que o melhor remédio de fato é a prevenção.


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