Coronavírus (Covid-19) e as famílias enclausuradas, conflitos e soluções.

Publicado em 08/04/2020


Este artigo nasce de um desabafo de um pai que é bem atuante no Conselho de Pais e Mestres da escola que sua filha estuda. Ele me acionou, solicitando que eu escrevesse algo sobre as famílias em casa e a educação dos filhos, já que está colaborando com a direção da escola e com os professores na busca de soluções para o processo educacional das crianças neste tempo de quarentena.  As demandas principais dele são: Como fazer a interface do papel dos pais na condução educacional dos filhos neste momento; o processo de fazer atividades em casa é  muito novo,  então é preciso pensar um meio termo entre a resistência dos pais em acompanhá-las e a falta de técnica da escola em ministrá-las; os pais acabam querendo que a escola resolva as questões e eles mesmos não assumem comprometimento no acompanhamento das atividades que a escola propõe; há também a dificuldade dos pais em se interagir com os filhos no campo educacional, pois esta tarefa até então estava por conta da escola; uma certa despreocupação dos pais em montarem um sistema de monitoramento dos filhos achando que a quarentena vai passar rápido e segundo o pai “...não vai passar tão rápido assim...”.

Os pais e o papel de delegarem a educação dos filhos somente à escola

De fato, estas preocupações são dignas de nos levarem a pensar o quanto que as famílias estavam ligadas no automático de delegarem o papel educacional dos filhos estritamente à escola. Tanto na rede pública quanto na privada. A diferença de uma rede para a outra, é que no público os pais têm pouco acesso ao sistema educacional dos filhos, pois a demanda da rede pública é bem maior em quantitativo de alunos para um equipamento educacional e também por que no público os pais de uma maneira geral ficam muito despreocupados, até porque as atividades solicitadas para a casa, para os alunos executarem fora do horário de aula, são bem menores. Tenho atendido alunos da rede pública que nem tarefas para casa eles recebem para fazer, e se recebem, não são corrigidas em sala de aula. Já nas escolas particulares os pais pagam mensalidades e tendem a interferir mais no esquema educacional dos filhos, com cobranças diretas e até ataques à instituição, pois sempre acham que estas estão deixando de cumprir as necessidades educacionais dos filhos. Geralmente a postura dos pais na escola particular é de querer ver resultados rápidos, já que estão pagando. Lógico que para toda tendência teremos exceções.

No automático do dia a dia, as famílias acabaram entrando numa forma de viver em que o foco principal é a sobrevivência pela necessidade do trabalho na esmagadora realidade das famílias brasileiras, e um pequeno contingente de famílias apegadas ao trabalho por ganância de crescimento econômico. Mulheres e homens adentram no mundo do trabalho e delegam o processo educacional dos filhos à escola. Aqueles que possuem mais recursos financeiros mantêm os filhos em várias atividades paralelas à escola e/ou pagam babás e até auxiliares de reforço educacional, estes geralmente são os pais das escolas particulares. Mesmo assim, sabemos que nas escolas particulares a maioria dos pais está assumindo de pagar altas mensalidades por acreditarem que vale a pena este sacrifício, pois para eles educação é tudo, é a síndrome da classe média que quer pensar com a cabeça dos ricos, mesmo que tenham que sacrificar questões básicas em casa, vale a educação de “qualidade” aos filhos. Desta forma, exigem mais das escolas. Já na demanda da rede pública, a grande maioria dos pais, trabalham por subsistência, e por este motivo nem interferem no processo educacional, pois, de alguma forma, “não estão pagando nada mesmo”, como se os impostos não fossem já um pagamento. Ao mesmo tempo, eles, na sua maioria, acham que o ensino público é ruim. Mas nem só os pais da rede pública acham o sistema ruim, os próprios professores da rede pública estão pagando altas cifras para manterem seus filhos na rede particular.

As famílias pouco se encontram. 

Na rotina “normal” do dia a dia, as famílias pouco se encontram. Mesmo no núcleo estruturante de pais e filhos diretos, o tempo que os membros das famílias têm para se encontrar de fato é mínimo. Mesmo aos finais de semana vemos cada membro na sua, os homens na sua maioria nos botecos da vida, as mulheres na sua maioria no sacrifício das tarefas do lar e os filhos na sua maioria nos digitais, filmes e na cama dormindo durante o dia e acordados nas redes durante a noite. Na sua maioria, pois alguns poucos conseguem, na rotina normal da vida sem coronavírus, estabelecer um encontro familiar de integração participativa no lar. Lógico que estou falando aqui de uma demanda de classe C e de poucos da B, pois ainda hoje, desde que iniciou o anúncio da pandemia do coronavírus, as orientações e prevenções são todas voltadas para esta realidade. Nos telejornais brasileiros e até nas rádios, as notícias e experiências que nos chegam estão sempre dentro desta demanda social. É simples entendermos isto, lavar as mãos, aonde não chega nem água encanada; usar álcool gel, onde não se tem nem o básico para se alimentar; ficar recluso em casa, mesmo famílias inteiras vivendo em um cômodo com o mínimo de condições mínimas. Neste campo e nestas classes menos abastadas D e E, ainda não se tem nem ideia de como vai ficar quando o coronavírus chegar. Aliás, a agilidade de se buscar soluções rápidas no mundo todo para esta emergência do coronavírus, só aconteceu por que os primeiros afetados foram os mais afortunados, a classe A e B. Se assim não fosse, não veríamos este alarde de mídia e esta euforia em torno de soluções imediatas. Com isto, não estou dizendo que não deveríamos ter agido rápido, pois afinal de contas este vírus chegou e pegou todos de calça curta, por ser desconhecido. Mas só quero lembrar que se no Brasil tivesse a dengue atingido a classe social mais abastada já teríamos resolvido o problema há muito tempo. Até nosso presidente desconhece a realidade da maioria esmagadora da população brasileira quando disse que o povo nosso é resistente, pois convive com esgoto a céu aberto e não fica doente. Somos uma nação com índices de doenças básicas altíssimos pela falta de infraestrutura de saneamento básico.

Todos estes apontamentos, periféricos à temática central do texto, são elementos para chegar ao ponto dos conflitos que emergem nas famílias de classe média em trono do processo educacional dos filhos em tempo de quarentena. A demanda das escolas particulares e dos conflitos dos pais começa a emergir quando as famílias saem do automatismo do foco no trabalho, e precisam conviver com seus familiares diariamente e ininterruptamente, por semanas, quem sabe meses. Nossa, que sufoco. Pais que estão com trabalhos em casa, onde as crianças possuem poucos espaços para transitarem; pais que já nem sabem mais como exercer a paternidade e a maternidade, ou mesmo que na contemporaneidade não possuem a vocação de serem pais. A resposta que dei ao pai deflagrante deste artigo foi: “Pais sendo forçados a se tornarem pais que eles não querem ser”. Daí surge uma série de dilemas no ambiente familiar em tempos de quarentena em que ninguém consegue fazer fugas, dar uma escapadinha. Daí que estes pais acabam buscando um bode expiatório para atacarem, no caso daqui, a escola. Lógico que temos muitas outras variâncias em torno, como: a perda de emprego; o não recebimento de salários; a possível falência dos negócios; as notícias mentirosas que constantemente poluem nossas mentes pelas redes sociais; o jornalismo mono-notícia virótica, tão virótica que deprime e traz ansiedade; a percepção de que o planeta está andando na contramão da vida e está na mão única da morte; o usufruto político desta pandemia em âmbito mundial no conflito entre capitalismo e comunismo e no âmbito nacional os resquícios da ultima eleição presidencial que dividiu as famílias e que continua dividindo entre um lado que desqualifica a pandemia, minimizando-a e, do outro super valorizando (quem está certo?). RESULTADO imediato dentro das casas: Conflitos e mais conflitos; ataques; sintomas emocionais. Para vocês terem uma ideia, estou com uma campanha no nível de estado do Espírito Santo, que intitulei “Orientação Psicológica Solidária”, para pessoas que na quarentena começaram a desenvolver sintomas emocionais desestruturantes. Na minha primeira amostra, 40% dos que me solicitaram ajuda tiveram início de sintomas que nunca tinham desenvolvido, como a ansiedade generalizada, angústia, depressão e pânico.

Transformando a crise em mudança de rumo

Diante do acima exposto, temos que entender que a realidade atual desta quarentena em família deve ser vista sempre dentro de um espectro amplo de percepções. Se nos ativermos aos fatos de forma isolada, eu com meu dilema específico com o filho dentro de casa que precisa estudar vamos transformar este momento em algo insuportável. É preciso ver o todo e todas as forças envolvidas neste movimento que é global. Desta forma surgem algumas luzes para repensar a família, como:

1. A família não consiste apenas em pais e filhos neste núcleo fechado no qual ela não subsiste e não está subsistindo. Este modelo nuclear de família que não se integra numa rede de comunidades, é um modelo que emerge com a revolução industrial com objetivo de disciplinar a mão de obra para a produção. Assim, nasce o modelo do trabalho na força motriz do homem, e o da mulher no cuidado do lar. Mas as mulheres saíram de suas casas, estão disputando os espaços na cadeia produtiva, e ai os filhos precisam de instituições que os acolham. Esta crise vem nos fazer lembrar que o modelo de família mais original é um modelo tribal, em que há sim um núcleo existencial familiar de pais e filhos, mas diretamente relacionado ao coletivo. Vejam que mesmo após mais de 500 anos de extermínio de tribos indígenas no Brasil, as poucas que restam resistem pelo modelo tribal, se o nosso modelo atual de vida em família tivesse passado por tão intensos ataques por que passou os povos indígenas, pelo nosso núcleo restrito familiar já teríamos desaparecido. Olhem para o conflito mundial após 11 de setembro, em que os sistemas tribais invadem os sistemas nucleares restritivos fechados.  Você pode estar pensando, que delírio é este? É o delírio de percebermos que uma crise mundial decorrente de um vírus que se torna uma pandemia, leva-nos a entender que todos dependem de todos, cada um em sua casa com sua família nuclear é membro integrante de uma grande tribo mundial, com suas especificidades. Daí, luzes aparecem, empresas oferecem cursos gratuitos, psicólogos oferecem atendimentos solidários, profissionais de saúde se voluntariam em busca de soluções, cientistas formam redes de comunicação e interação de conhecimentos. Vencerá a crise quem se abrir ao outro, e buscar ajuda e oferecer ajuda.

Participamos em minha casa de campanhas de solidariedade para ajudarmos entidades que estão precisando de ajuda por dificuldades financeiras, como é o caso de associações de artesãos, fazenda esperança, associação de pescadores, asilos sociais de idosos, etc. Estamos fazendo estas ações por intermédio de uma ampla família que damos o nome de Movimento dos Focolares e que tem como objetivo a construção da sociedade do amor pautado na unidade entre os povos.

Você pode repensar: o que na sua família nuclear, em sua casa, nesta quarentena estão fazendo em prol de outros que estão necessitando mais que você? Aqui, temos uma boa forma de educação dos filhos, a educação solidária, que forja cidadania.

2. O resgate da vocação primeira da família que é o encontro, primeiro pelos laços consanguíneos e depois pelos laços afetivos. É nos laços afetivos que esta quarentena, em um primeiro momento, se deglade, conflita, pois o sistema produtivo de subsistência e sucesso econômico fez nos fortalecermos pelo ter e não pelo ser. Quem é o bom pai, é aquele que supre materialmente, que dá algo (coisifica); quem é a boa mãe, é aquela que oferece o serviço de zelar, cuidar (dá sua energia braçal); e o que é um bom filho, aquele que gratifica dando notas e dando bons comportamentos. Mas, no cotidiano das 24 horas, a cada hora, a cada dia, dia após dia, renasce a certeza de que os afetos não acontecem nas interações materiais, mas sim no encontro da relação do “tete a tete”, do contato, do estar juntos. Assim, o renascer do construir junto, do fazer junto. Café da manhã, almoço e janta. Todos colaborando. Aqui é necessário que na divisão social das tarefas não entre o que é dele ou dela, tudo é de todos. Como numa república de estudantes, fazer as escalas de trabalho, onde todos participam de todas as atividades, mesmo se gostem ou não. Gostava muito dos encontros de formação de espiritualidades que participava onde havia a cada dia mudanças de tarefas, onde todos participavam de tudo. Eu mesmo odiava limpar banheiros, mas tinha que fazer.

Aqui segue uma indicação educativa: Como transformar a sua casa em quarentena num espaço de interação coletiva de todos serem partícipes na engrenagem familiar? Há alguns anos estamos em minha casa sem empregada doméstica ou faxineiras, pois procuramos fazer esta divisão de tarefas de forma bem delimitada, mesmo muitas vezes caindo no modelo arcaico de que algumas coisas sobrecarregam a mulher, no coletivo, estamos nos propondo a se posicionar dentro desta perspectiva.

Esta divisão de tarefas e do “fazer juntos”, a escola de alguma forma desincentivou quando passou a priorizar o conteúdo, uma exigência do mundo focado na produtividade que prima pelos conteúdos, pelo ter. Estamos na era de fazer prevalecer o ser em família.

3. E a questão da estimulação educacional dos filhos? Só com os itens um e dois acima descritos, já podemos contemplar uma ação educativa que vai exigir novos posicionamentos, mas aqui posso dar mais algumas orientações: Definir com os filhos horários de estudo, antecipem conteúdos das apostilas, revejam conteúdos já passados. É preciso estar junto, ler o material a ser estudado. Se os pais não sabem o conteúdo ou a forma de ensinar, procurem auxílio com a escola ou os professores, ou pesquisem em tutorias on-line de diversas aulas de diferentes conteúdos. Quando as escolas definem aulas on-line, procurem estar juntos e acompanharem. Deleguem exercícios para realizarem e tentem não fazer por eles. Ontem uma mãe me dizia que ela conseguiu fazer seu filho escrever um texto a partir de colagens que realizou com recortes de revistas. Ela mesma como mãe nem imaginava que seu filho de 8 anos escrevia tão bem para a sua idade; coloquem livros para os filhos lerem, eu que pago uma mesada semanal ao meu terceiro filho, percebendo uma lentidão dele para o ato de ler, pois este tempo de ficar em casa traz uma alteração de ânimo em fazer as coisas para todos, combinei de pagar a mesada a ele por um valor fixo por páginas lidas, onde no final da semana ele terá que fazer uma resenha das páginas lidas até então. Ele me questionou quantas páginas precisaria ler para ganhar o valor da mesada que é de R$ 50,00 por semana. Pedi para fazer as contas e ele concluiu que teria que ler a partir do valor combinado, 160 páginas por semana, enfim, um livro por semana. Mas só fiz esta experiência porque leio bastante e tenho muitos livros para indicar para ele ler. No nosso combinado, só vale livros que passo e que já li. Aí, podemos ver outra postura dos pais, de também lerem. Para crianças pequenas que ainda não sabem ler ou estão no início da alfabetização, a indicação é de lerem em voz alta com os filhos menores; mantenham tempos definidos de acesso aos digitais livres pelas crianças, lembrando que em 24 horas mantenham no máximo 2h de contatos em redes abertas; façam brincadeiras juntos, jogos, fantasias, recriem e criem, busquem sim auxílios em tutorias de brincar caso tenham pouco conhecimento de brincadeiras; acessem programas de aprender a fazer, mas só vale se ao ver, estiverem fazendo concomitantemente, é o saber fazer fazendo.

Vocês pais estão dispostos a recuperarem a ideia de serem de fato pais, exercendo a maternidade e a paternidade como vocação e não como obrigação? Aqui, vamos perceber que com o resgate dos pais no processo educacional dos filhos, a escola passa a ser apenas um espaço de socialização, pois a formação básica se dá em casa.

  Para finalizar, o que é impossível finalizar, evitem exporem seus filhos nesta quarentena a notícias negativas e ruins. Mesmo com a questão do coronavírus, é possível mostrar para as crianças que os vírus fazem parte da existência humana, e que inclusive sem eles não conseguimos viver. É possível com o coronavírus, mostrar a eles a importância da ciência e do estudar, o quanto a escola é importante, a leitura é importante. Poupem eles das catástrofes. Por isto, não indico telejornais para crianças abaixo de 12 anos, pois todos eles não possuem estrutura de tarja L (livre), pois todos eles são depreciativos e negativistas. Busque informações que você possa passar para eles de forma criativa e na linguagem deles. Olha ai, ao escrever isto percebo que com esta crise precisamos criar jornalismos para uma linguagem infantil. Lembro do premiado filme “A vida é bela”, no qual, em plena segunda guerra mundial, o pai, em um campo de concentração e  prestes a ser enviado a uma câmara de gás,  consegue criar uma linda fantasia de que estavam fazendo uma viagem muito interessante, poupou o filho da dor do que vivenciaria no futuro.

Senhores pais, convoco a todos a assumirem categoricamente a vocação de pais, que é a plena conjugação do amor em família. Quem sabe a crise do coronavírus esteja nos sugerindo mudanças que possam preservar nossas vidas para as próximas gerações, pois na forma como vínhamos conduzindo nosso existir, estávamos cavando nosso fracasso como sociedade, sepultando nossa existência humana.

Boas transformações!


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