Comportamento infantil de 1 a 2 anos

Publicado em 15/04/2020

Iniciamos, com este artigo, uma série que irá do primeiro ano de vida até o término da infância, o qual concebemos por volta dos doze anos. Na série anterior do desenvolvimento da psicologia infantil, falamos desde a fecundação até o primeiro aniversário, conforme os artigos: Psicologia do desenvolvimento infantil - da fecundação a gestação; Psicologia do desenvolvimento infantil - o parto; Psicologia do desenvolvimento infantil - do parto aos seis meses; Psicologia do desenvolvimento infantil - dos seis meses ao primeiro aniversário. Agora vamos à sequência sistematizada, falar a partir do primeiro ano até o final do segundo ano.

A partir dos 12 meses - os primeiros passos da criança para liberdade 

Entre os 12 aos 18 meses o ANDAR é a mola propulsora da criança para conquistar sua liberdade. Pela força motriz do andar, a criança conseguirá elaborar a angústia da separação da figura materna, que no primeiro ano de vida foi caracterizada pelo belo vínculo simbiótico (termo extraído da biologia para caracterizar a relação de dependência de uma planta ao caule de uma árvore, como é o caso da orquídea). O andar será aquele elemento que proporcionará esta condição de elaboração interna de saída.

A criança avança na sua construção de identidade pela capacidade de abstração, pois, ao se deslocar para lá e para cá, ela consegue se relacionar com o mundo ao seu redor de forma mais versátil e também se encontra com o outro, terceiro que pode ser o pai e demais pessoas de seu convívio. Neste contexto o brincar dela está relacionado com tudo que descobre ao seu redor, os objetos que lhe colocam em contato direto com a obtenção de prazer, que nominamos jogos de excitação e que neste processo de exploração evoluem para os jogos de faz de conta, que equivale a sua representação mental, de abstrair tudo sentindo, apalpando, pegando e jogando. Sua fala que é um contínuo balbuciar, com poucas palavras estruturadas, representa a satisfação deste estado de liberdade. Aqui, já no meio do primeiro ano que a criança introduz o conceito do NÃO, pois ela aprende esta palavra de tanto que o ambiente a expõe pelo exercício de controle dos pais, pois é uma fase de risco à criança que explora tudo e, com isso, corre mais perigos. Além do dizer não! não! não!, também gesticula o não com os dedos e a cabeça. Adentra já na percepção de regras. O que pega, sente e joga, esperando receber de volta. È uma abstração do não que pode ser sim, pois ao mesmo tempo em que ela recebe muitos nãos, ela verbaliza muitos nãos, e com isto cria o jogo do faz de conta, em que o que é não também é sim.

A partir dos 18 meses - início da fase anal e a expressão de prazer  

Chegando aos 18 meses a criança tem uma forte identificação com a sua produção fecal. Coco e xixi são coisas que ela produz e pode ter poder com esta produção. Esta é a fase anal primária, em que a criança brinca com sua produção sentindo o prazer em expelir, e sem menos esperar ela está cheia de prazer por ter “cagado no mundo”, ou se quando está sem frauda, olha para todos ao seu redor, solta aquela risada e faz xixi sem nenhum pudor. Introduz-se aqui na criança já a noção de regras de pode e não pode, assim, a fase anal se caracteriza pela formação da repressão, principalmente na anal primária que é de expelir, liberar. Logo em seguida a criança entra na fase anal secundária, pois já começa a controlar sua produção por ela mesma, esta etapa já chegando aos dois anos e meio. É quando a criança começa a aprender a controlar a glândula esfíncter que é responsável pelo sinal que a mente recebe para lembrar que o cocô e o xixi vão sair, vejam que este processo não se dá de forma espontânea, ele é aprendido. Por isto que a educação nesta idade deve conduzir a criança a vivenciar estas etapas da fase anal com liberdade e permitindo ela se identificar com sua própria produção. O brinquedo penico pode ser introduzido já no início em que ela esta liberando sua produção, como já possui estrutura motora nas pernas e consegue ficar de cócoras, sentar no penico dentro de uma perspectiva lúdica, já é algo favorável para o fortalecimento da identidade da criança. Também permitir a criança brincar com coisas que lhe dão prazer, como água corrente, areia, terra. Assim, ela passa por esta fase de forma menos repressora e ao mesmo tempo se educando ao controle do esfíncter. Ao final do segundo ano a fase anal é secundária, pois a criança já consegue dominar a sua produção, expelindo também conforme sua necessidade e prazer. Não basta a mãe e pai impor horas e regras para defecar, pois este manuseio também passa pela necessidade e desejo da criança. Ela já inicia o mecanismo de manuseio dos que o cercam, apontando para suas próprias vontades.

Você pode me perguntar: mas por que a psicanálise nomeia a fase anal como uma fase de expressão de emoções e de prazer pela criança? É que a partir de Freud, as fases do desenvolvimento fisiológico da criança foram associadas com as etapas do desenvolvimento psicológico. Assim, como se deu o nome de fase oral por que a criança estava toda fixada na amamentação no primeiro ano de vida, agora que as tramas fisiológicas da sua produção das fezes e aprendizado do controle delas deram-se o nome de anal, pois há um deslocamento de percepção de mundo, de energia psíquica e de prazer para esta realidade. Quando esta sistematização começa a ser observada e sistematizada teoricamente, ganhamos um legado para que os pais tenham acesso e entendimento de que a criança é um ser em construção não só de uma biologia que está pré-codificada para evoluir, mas de uma mente que elabora seu desenvolvimento por processos de interações, e a interação emocional quem faz é a criança, e o ambiente externo, o meio educacional pode ser fator estimulador desta interação, principalmente se os pais e familiares conseguem observar esta evolução concomitante entre o biológico que está posto, o emocional que é elaborada fase por fase e o cognitivo que é medido através da principal ação da criança que é o brincar. Desta forma, é pelo brincar que sabemos se a criança está ou não evoluindo. Se de fato ela está plenamente interagida com seu corpo, seu espaço e se sente livre e feliz, aí podemos dizer que ela está em franco desenvolvimento.

Final do segundo ano de vida - identificação com o que produz 

Esta etapa de um a dois anos chegando quase já no terceiro ano é a fase do identificar-se com o produto que ela mesma produz. Se isto é valorizado pelos adultos que a cercam, a criança com certeza estará somando para a construção de uma identidade com forte autoestima, “eu tenho a força”. E nas suas brincadeiras elas externam isto, a alegria de estarem sujas. Elas sabem identificar que algo foi extrapolado, mas também a alegria de extrapolar. Em ambientes onde a higiene é severa e o controle de processos de aprendizado é rigoroso, a criança terá como imagem prioritária a repressão de expressões e sentimentos. E a fase de maior aprendizado de auto valorização de si por estar associado a produção interna, é a fase anal nas suas duas etapas, primária até os dois anos e secundária chegando quase já ao terceiro ano. Interessante observarmos o quanto a criança aqui nesta etapa já tem o controle pleno de sua produção, vai ao banheiro, já na privada, e ao defecar fica observando seu cocô indo pelo esgoto com a descarga. As crianças adoram contemplar esta sena.

E os brinquedos que já ao final do segundo ano elas se identificam são as vasilhas na qual podem manusear água, terra. Também são os brinquedos de locomoção em que elas se identificam com a liberdade de ir e de vir. Não temos dúvida, que se esta idade for vivenciada pelos pais sem rigidez de controle pela higiene, a criança terá mais relação favorável com seu processo alimentar e de funcionalidade do intestino. Em ambientes de muito controle, que se tolhe a brincadeira da sujeira e da liberdade de sujar, podemos ver acontecer processos patológicos de funcionalidade fisiológica como, por exemplo, a encoprese, que é o intestino preso, que tanto faz a criança sofrer.


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