Comportamento infantil de 3 a 5 anos

Publicado em 22/04/2020


Dando sequência ao estudo do comportamento infantil, neste artigo vamos focar na faixa etária de 3 a 5 anos. Vimos em textos anteriores (Psicologia do desenvolvimento infantil - da fecundação a gestação; Psicologia do desenvolvimento infantil - o parto; Psicologia do desenvolvimento infantil - do parto aos seis meses; Psicologia do desenvolvimento infantil - dos seis meses ao primeiro aniversário; O comportamento infantil de 1 a 2 anos)
que, entre o nascimento e até chegar os três anos, a criança passa por uma intensidade de vivências e quase que mês a mês há uma novidade para se observar. Já entrando nos três anos, observamos que a intensidade de processos a serem vivenciados diminui, dando mais estabilidade de interação das novas etapas com vivência mais longa em cada uma delas.


3 anos, a fase da busca por autonomia


Os três anos representam quase que um corte evolutivo no processo de crescimento da criança, principalmente nos fatores psicomotores, pois ela possui mais recursos em busca de sua autonomia e também no desenvolvimento de sua fala, em que começa a construir frases, define processos de simbolização entre o que vê, fala e entende. Logo nos seis primeiros meses dos três anos a criança entra no ciclo das perguntas, sendo mais acentuado ao chegar aos quatro anos. “Por que” para tudo, e o “por que” sobre o “por quê”. Isto demonstra que de fato a criança já dá significado às coisas. A sua interação com o mundo não passa apenas por sua estrutura fisiológica como vimos anteriormente, pela boca (fase oral) e pelo ânus (fase anal). Agora ela consegue sair do corpo e encontrar-se com o mundo ao seu redor nominando, procurando entender. Por isto as perguntas incessantes, é como lembrou o escritor Jostein Gaarder em seu célebre livro “O mundo de Sofia – Romance da história da filosofia”(1995), em seus primeiros capítulos compara a criança de três anos ao filósofo que primeiro pergunta, e quanto mais pergunta, mais respostas terá. Incentivar as perguntas da criança nesta etapa é um fator prioritário para o desenvolvimento de uma mente investigativa e exploratória. Lógico que com a geração digital, as perguntas ficam escassas, pois os pais, sem muita paciência de interagirem com a intensidade de perguntas da criança, acabam entregando equipamentos eletrônicos para calar a boca do filho.


Fase fálica


Com esta evolução e maior facilidade de busca de autonomia, a criança entra em uma nova fase que Freud intitulou Fase Fálica. Na mesma perspectiva das outras fases, Freud vai associar o desenvolvimento do comportamento com sua evolução corporal, e uma das descobertas da criança nesta fase é a percepção dos seus genitais. Meninos possuem pênis e meninas possuem vulva. Surge aqui um outro “por que”, e a maioria dos pais fogem de responder, principalmente quando eles querem saber o motivo da diferença. Lembro de uma cena, a qual, sempre que rememorada no coletivo de minha família nos arranca muita risada, é quando estávamos no quintal da casa onde morávamos e meu filho mais velho, aos três anos e meio, fazendo xixi ao lado de uma amiguinha, e ela também querendo fazer xixi em pé, puxava sua vulva tentando fazer como meu menino. Interessante que, ao chegar perto da cena, ambos puxaram rapidamente as calças e olharam assustados para mim como se estivessem fazendo coisa errada. Assim, ao trazer esta cena, observamos que além da exploração dos genitais, existe algo mais do que a simples identificação das diferenças, existe também algo que representa outra necessidade interna emocional, que Freud vai nominar de Complexo de Édipo, que vai dar a configuração das identificações cruzadas de papéis sexuais, e ao mesmo tempo é carregada de uma energia sexual, pois os órgãos sexuais nesta fase já manifestam sensações de prazer. Agora entra o processo da masturbação pela exploração, que de fato traz sensações agradáveis ao corpo da criança. Assim, esta exploração genital tem também esta dimensão do prazer. Lógico que neste ponto, muita gente refuta a teoria de Freud porque acham exagerado atribuir questões de prazer a uma criança de tão pouca idade, mas ao refutarem, estão equivocados no entendimento de que prazer é este. Não é o prazer semelhante ao adolescente ou ao adulto, que já traz em si uma conotação sexual erógena, mas sim um prazer de sensação fisiológica. Tocar as orelhas, o nariz, as mãos, os pés, enfim, qualquer outra parte do corpo, não é igual a tocar os genitais, neles há mais pontuação de prazer, mesmo nesta idade.


Nesta idade, principalmente chegando aos quatro anos, as crianças tendem a querer se aproximar mais do sexo oposto devido a este campo de exploração. Mas as crianças fazem isto dentro da perspectiva de exploração, e nesta, descobrem que seus pais são diferentes, e como eles também possuem genitais diferentes em relação ao masculino e feminino. Procuram também explorar os genitais dos pais, tomam banho juntos e sabem que a mamãe tem o genital parecido com das meninas e o papai o genital parecido com os meninos. Aqui entra esta identificação de papéis, onde o menino se aproxima da mãe e cria uma forte ligação com ela e a menina se aproxima do pai fazendo o mesmo, e por semelhança vão reproduzir a cena conjugal da qual conseguem já identificar que decorreu o nascimento da criança, um relacionamento do qual eles foram fruto. E nesta idade surgem muitas perguntas exatamente de onde eles vieram, como foram colocados na “barriga da mamãe”. Tendem a interromper o vínculo de contato corporal dos pais, e uma das boas estratégias é a corrida ao quarto dos pais à noite, com o objetivo não intencional, mas sim inconsciente, de impedir a união dos pais a nível amoroso. Neste deslocamento de energia cria-se um jogo lúdico de o menino se vincular amorosamente à mãe e a menina ao pai. Aqui costumo dizer que as crianças começam a aprender a namorar, o primeiro namorado e namorada são o pai e a mãe respectivamente. Neste campo, devemos entender que não podemos transpor esta relação da mesma forma que acontece na vida adulta, onde o estabelecimento de vínculos amorosos não perpassa apenas por questões de identificação genital, por isto que na vida adulta damos o nome de vínculo homoafetivo ou heteroafetivo. Já nesta fase do Complexo de Édipo da criança, a percepção de mundo passa sim pelo fisiológico daquilo que é mais emergente, os genitais.


Nesta relação entre o pai e a mãe, a criança tende a fazer identificações tanto com um como com o outro na perspectiva da conquista, como um jogo de sedução. O menino tenta copiar o pai para seduzir a mãe e a menina copia a mãe para estabelecer a conquista do pai. Mas em alguns momentos este jogo inverte e teremos a percepção que nesta fase a criança apresenta uma sexualidade indefinida, onde Freud deu o nome de bissexualidade. É um longo caminho até a vida adulta para que esta condução sexual venha a ser definida. Infelizmente estes conceitos são muito confundidos hoje com as conduções bissexuais de jovens e adultos dentro dos trâmites amorosos, porém, não podemos fazer esta correlação da fase fálica na qual estamos reportando aqui, com os vínculos amorosos posteriores.


O desenvolvimento do superego


Como a vivência do Complexo de Édipo passa pela sedução, representada pelas conquistas da criança para com os pais, começa entre os três e cinco anos a formação do superego, que é o sensor que equilibra as forças instintivas dos impulsos. Lembrando a antiga tríade conceitual de id, ego e superego, que são estruturas organizadas no decorrer das etapas do desenvolvimento emocional. O superego é como uma estrutura de controle, que está relacionado a regras e limites sociais, entra nesta idade como regulador desta relação de sedução transferencial da criança com os pais. Assim temos na sociedade a lei do incesto, que regula as relações afetivas entre os familiares pela consanguinidade. Lembram do susto que meu filho e a amiguinha dele tiveram quando apareci na cena acima exposta? É um susto por algo que estavam fazendo escondido, o que já representa uma adequação às regras de convívio familiar.


Neste jogo amoroso, as crianças vão demonstrar que estão entendendo esta etapa fálica e a vivência do Complexo de Édipo através das brincadeiras, pois gostam muito dos jogos de papai e mamãe, médico e paciente, e por aí vai. As meninas se interessam já pelas bonecas e os meninos por personagens de heróis, já na entrada do quarto ano para o quinto. Sendo que anteriormente o brincar com vasilhas e objetos ocos pelas meninas e os objetos pontiagudos pelos meninos era uma representação da diferenciação genital. Outro fator que aparece com força são alguns sintomas comportamentais que supostamente parecem transtornos, como terrores noturnos, fobias de animais em cenas de cópula, principalmente cachorros, pois remete a criança a relacionar com suas necessidades de aproximação dos pais neste jogo amoroso. Imagine o menino tentando seduzir a mãe para si sabendo que ela tem o vínculo com a pessoa do pai, isto pode representar uma invasão e de alguma forma a quebra de uma regra, daí o superego atua com sintomas de fobias, obsessões e terrores noturnos.


Nesta fase é muito importante os pais não exporem as crianças à cena primária ( o ato sexual), nem por verem os pais realizando o ato sexual e nem por imagens de filmes ou desenhos eróticos. Esta interação com a cena primária aciona uma forte ansiedade na criança, pois faz presenciar na realidade uma trama emocional que está na ordem inconsciente de construção da estrutura emocional. Também é importante as crianças terem seu quarto para dormir e não estarem no quarto dos pais como hábito cotidiano , pois além de se exporem mais à cena primária, os corpos estão mais próximos e isto pode intensificar o estabelecimento de dificuldade de percepção de papéis nesta condução do desenvolvimento emocional da criança. Imaginem uma criança ter reações físicas de atração sexual pelos genitores, vai gerar uma forte dúvida na cabeça dela e uma consequente ansiedade.


Evolução na definição da identidade


Já ao término do quinto ano a criança apresenta uma estabilidade nestas procuras de identificação das diferenças sexuais e do jogo edípico. Com isto torna-se mais pragmática na forma de brincar, sendo mais concreta nas suas ações e tendo um empobrecimento de suas abstrações. Alguns pais até reclamam que a criança parece que vai ficando mais chata, sem apresentar muitas surpresas. Meninos e meninas começam a se separar do encontro e do brincar e cada um vai se identificando com crianças do mesmo sexo. O famoso clube das luluzinhas e bolinhas começam a se configurar. Surgem aí, também, as chacotas quando ocorre de um dos sexos brincar com o outro. Lógico que se ocorrer um ambiente em que os pais interajam positivamente com estas descobertas sexuais dos filhos, e entendam o jogo edípico sem que esta etapa se transforme em disputa e ciúmes, a criança adentrará nas próximas etapas com maior facilidade de interação social e menor ataques ao sexo oposto. A procura pelos amigos do mesmo sexo é normal para a delimitação da identidade pela semelhança. Tanto que é muito comum as crianças já não quererem estar nus perto das outras e começarem a preservar mais as genitálias, com dificuldade até de se exporem quando vão trocar de roupa. É um comportamento que revela evolução na definição de sua identidade. O núcleo familiar de interação afetiva, nesta fase, contribui para que mulheres e homens tornem-se parceiros na relação familiar.




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