A pré-adolescência – 12 e 13 anos

Publicado em 22/05/2020

 

Neste texto, vou focar na primeira fase da adolescência que é a pré-adolescência. Tem muita gente querendo antecipar as etapas do desenvolvimento adolescente por entenderem que atualmente há uma precocidade natural da evolução dos adolescentes. Mas prefiro manter a antiga sequência nesta série que inicio agora e que é concomitante  aos vídeos do mesmo tema no meu canal do Youtube: Abarca Psicólogo. Pois entendo que há uma formação de um falso self nesta idade e que, de fato, pode confundir a percepção dos adultos que estão ao redor da adolescência, principalmente pelo rápido estirão e pelas transformações que ocorrem nestes dois anos. De uma hora para a outra a menina torna-se “mulher”, principalmente após a primeira  menstruação e com forte desenvolvimento do corpo, e o menino vira “homem”, transforma voz, musculatura e também acontece o estirão. Mas na verdade ainda estão em transição da infância para a adolescência. Se seguirmos as manifestações corporais, caímos nesta armadilha de que já são adolescentes propriamente ditos.


A força dos hormônios sexuais

Nesta idade, o carro chefe das transformações está na questão física, pela produção dos hormônios sexuais masculino e feminino, por isto que as principais modificações estão por conta das manifestações sexuais. Menstruação e ciclo menstrual nas meninas, os seios crescendo, corpo definindo curvas e consequentemente os traços de sensualidade, sensações de prazer no genital e auto-exploração pela masturbação direta ou indireta. Nos meninos o crescimento do pênis, produção dos espermatozoides e a consequente excitabilidade que conduz à descoberta desta nova fase pela masturbação. Na escola, nas séries destas idades, é um agito generalizado, onde  muitos professores brincam que a sala “cheira hormônio”. De fato, aquele corpo de criança sem reações fisiológicas de caráter sexual que ao longo dos doze anos parecia estar adormecido, agora vem com força. A onda dos hormônios sexuais traz uma grande confusão na cabeça dos meninos e das meninas pelas reações que agora começam a ter e não sabem ao certo o que são. Sabemos que os hormônios sexuais são capazes de provocar alterações comportamentais, tanto no início de sua produção que está diretamente ligada com a pré-adolescência, como já quando começa haver uma diminuição no ciclo reprodutivo corporal pela queda dos hormônios sexuais, lá na frente nas mulheres pela menopausa e nos homens pela andropausa.


Assim, variação de humor, irritabilidade, agressividade, sonolência, impulso sexual, especulações sexuais, etc, está muito por conta desta transformação fisiológica. E se os adultos que cuidam destes pré-adolescentes, na família, escola, clubes, saúde, entendem que todas as manifestações estão por conta dos hormônios, conseguirão relevar mais as alterações comportamentais, ao invés de simplesmente atacarem, reprimirem e culparem.


Lembro de quando fui fazer a primeira comunhão, um ritual de passagem da Igreja Católica, em que a pessoa passa a comungar a hóstia, que nesta expressão religiosa é o Cristo Eucarístico, os meninos em um banco da igreja, esperando a vez para confessar com o Padre, todos falavam baixinho: “Você vai falar tudo? E este tudo era a masturbação. Na hora que chegou minha vez, falei os pecados que geralmente estavam ligados a desrespeito com pai e mãe, brigas com amigos e tinha o problema da masturbação. Quando revelei meu pecado da masturbação ao Padre, ele me deixou super aliviado dizendo: “Fica tranquilo Gerson, isto é natural, é como chupar bala, uma hora acaba”. Nossa! Saí liberto dali. E de fato, com o tempo, passou. Imagine se o Padre tivesse me culpado, ou rezado uma ladainha de moralismo, poderia ter outra reação e traumatizado um ato que é normal. Por conta da incapacidade de se falar destas transformações corporais por parte dos muitos adultos que rodeiam os pré-adolescentes, muitas experiências vivenciadas e hábitos distorcidos adquiridos nascem pela necessidade dos meninos e meninas buscarem por informações. No passado, havia as revistas em quadrinhos de caráter pornográfico, hoje os filmes pornográficos estão nas mãos dos adolescentes pelo celular. Quando falta a abertura para o entendimento das transformações, abunda a especulação erótica. Inclusive quando o ambiente educacional familiar é radicalizado por doutrinações religiosas em que tudo que emana das questões sexuais é pecado, é diabólico, ai aflora ainda mais a curiosidade e ao mesmo tempo sentimentos de ambivalência sobre o que sentem fisiologicamente e o que aprendem na educação repressora.

Lutos

No campo comportamental, além das alterações de humor decorrentes dos hormônios sexuais, teremos também os conflitos decorrentes de três lutos por que passam os pré-adolescentes:


1. Luto do corpo de criança, em que pontuam uma certa nostalgia daquele corpo latente onde quase não haviam manifestações relevantes. De uma hora para outra um turbilhão de reações e modificações. Fora que com o estirão da idade, sentem-se desconectados, passando até por comprometimentos psico-motores. Os pais também sofrem deste luto, do corpo de criança que até então podiam pegar, colocar no colo. E agora? O pai fica encabulado de pegar a filha que já  está com um corpo de mulher, a mãe assusta com o crescimento do pênis do filho.

2. Luto dos pais de criança, é como se meninos e meninas sentissem que perderam o pai e a mãe. Pois na fase de criança chegavam com mais espontaneidade nos braços dos pais. Eram tratados com mais acolhimento afetivo, e agora são mais controlados, são mais vigiados. Este luto também é dos pais, que passam ter a sensação que perderam aqueles filhos ingênuos, sem malícias.

3. Luto  pela perda de identidade, pois estão ainda com as sensações e vivências da longa infância e tendo que lidar com reações corporais que as colocam em sentimentos ambivalentes, pois ao mesmo tempo que gostam desta mudança que até então foi muito esperada, e também do prazer que o corpo passa a pontuar no campo sexual, são culpabilizados ou se sentem culpados por pontuarem estas reações. Também há uma pressão por parte dos adultos que ao mesmo tempo em que dizem estarem eles muito crescidos para atos infantis, dizem que são muito novos para atos maduros. Um luto também de identificação na cabeça dos pais.


Por estes três lutos, costumo dizer que a pré-adolescência parece com a salsicha do cachorro quente, que fica entre a infância e a adolescência propriamente dita (que é a segunda fase da adolescência), a qual veremos no próximo texto.


Diante desta breve apresentação da fase pré-adolescente, podemos entender que os adultos responsáveis por cuidarem destes meninos e meninas entre os 12 e 13 anos, precisam acolher com muito carinho, atenção e orientação a passagem de uma longa etapa que foi a infância, para outra longa etapa que será a adolescência. E olha que especialistas estão indicando para a Organização Mundial de Saúde que a adolescência termine após 26 anos, devido a percepção comportamental de imaturidades, ou da maturidade tardia que está sendo pontuada em muitas regiões do planeta. A meu ver, acolher os pré-adolescentes de forma festiva, com alegria, pelas muitas transformações que o corpo está manifestando, é um ótimo caminho para que a maturidade da vida adulta aconteça sem maiores transtornos e no seu tempo previsto, que é de 22 anos, da juventude adulta.


Que você, ao ler este texto, possa se posicionar na defesa da pré- adolescência respeitando todas as manifestações inerentes a ela, sem desejar retardar a sua chegada e nem antecipá-la. Do contrário, as próximas etapas podem representar muitos conflitos e desavenças entre pais e filhos, professores e alunos, adolescentes e adultos.






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