A adolescência normal - 14 a 16 anos

Publicado em 29/05/2020

Neste texto, darei ênfase à adolescência propriamente dita ou adolescência normal. No texto Pré-adolescência - 12 a 13 anos, falei sobre a pré adolescência, para que chegássemos a esta idade dos 14 aos 16 anos. Trata-se de uma evolução que parte das transformações corporais da pré-adolescência tocada pelos hormônios sexuais e vai para a adolescência normal tocada pelas questões emocionais. Nesta fase, o que impera é o sujeito que já acredita que pode ser ele o autor de sua existência e história. Um desejo enorme de autonomia, porém sem que de fato ainda a tenha. Uma fase em que as abstrações e sentimentos são mola mestra para o existir. Com isto, vejo esta etapa como uma das mais complexas do desenvolvimento humano. Conflitos que emergem na cabeça dos adolescentes e dos adultos que estão ao seu lado. Pais se desesperam pelas ações dos filhos que os julgam de rebeldes ou que estão “loucos”; professores que às vezes até saem nos tapas em sala de aula por não aguentarem tamanha inflexibilidade dos adolescentes. Enfim, uma fase tensa, movida pela intransigência adolescente e pela incapacidade dos adultos de entenderem este processo de crescimento. É como se os adultos não tivessem passado por esta fase.

  Aos adolescentes, uma transformação necessária, principalmente por que estão ensaiando serem adultos. Para os adultos uma etapa que os fazem se questionar na transferência de tudo o que os adolescentes provocam inconscientemente neles, do que desejavam ser e fazer e não conseguiram, e consequentemente atacam os adolescentes. Quando os adultos entendem o que se passa na adolescência, e já elaboraram esta etapa na vida pessoal, a relação se torna mais produtiva.

O conflito e a turbulência são tamanhos, que os Psicanalistas Maurício Knobel e Arminda Aberastury escreveram um livro para os pais entenderem as tramas desta idade, com o título “Adolescência normal”. Neste livro elaboram o conceito da “Psicopatologia normal da adolescência”, aonde os comportamentos chegam numa ordem de uma patologia mental sem precedentes. Os adultos mal avisados tendem a colocar os adolescentes em um enquadramento de “loucura”, e podem até cometerem o delito de diagnosticá-los com patologias emocionais definitivas, como por exemplo: Bipolaridade, esquizofrenia e outros. Os pais desesperados muitas vezes querem medicar, e a medicina desprovida  de um olhar de acolhida e entendimento cai na síndrome da medicalização. Mas, na verdade, são comportamentos normais de um adolescente, que questiona o mundo e a si mesmo. Em diagnóstico de adolescentes na clínica psicológica, até os testes de projeções que aplicamos, ao pontuarmos os sintomas, temos que ir eliminando aqueles que são inerentes à adolescência propriamente dita ou adolescência normal. Daí resulta que 80% dos adolescentes trazidos pelos pais em consultório psicológico para serem avaliados por estarem apresentando comportamentos “bizarros”, não precisam de intervenção em psicoterapia, basta apenas uma orientação aos pais.

Mas quais são estes comportamentos?

Ficam destemidos; apresentam-se agitados e cheios de ideias; desejam aventuras e extravagância; querem a liberdade sexual e com ela experimentam as diversas formas de amar, tendo na questão da condução de gênero uma experimentação em aberto; questionam religiões e confrontam com aquela religião cuja família os introduziu; Confrontam ideias com os professores e radicalizam-se em confronto com falsas ideias; tendem a se acharem conhecedores de tudo, e só eles estão com a razão; só escutam o outro se primeiro forem escutados; tendem a apresentar comportamentos agressivos e a terem o olhar voltado todo para si; tendem a paixões extremas; possuem episódios de mania e com alto risco inclusive de vida, pois querem aventurar-se. Mas o oposto de todos estes itens acima descritos também é verdadeiro, principalmente o isolamento total, a apatia e inclusive a depressão.

Diante deste panorama, os adultos precisam ter uma forte acolhida e inclusive a capacidade de deixar fazer suas experiências para poderem entender. Aqui que temos uma grande dificuldade, pois ao fazerem suas experiências, podem de fato ter prejuízos. Assim, sempre surge a pergunta: - Até que ponto pode deixar fazer a experiência de tudo? Na família os pais devem ter o direito de conduzirem os adolescentes nas regras que acreditam, mas se fizerem sabendo de todas estas nuanças da adolescência, conseguirão eliminar aquela dúvida se o filho está ou não louco. Entenderão que o filho está em uma fase. Depois, os pais deverão dialogar e autorizar ações que julguem não colocar tanto o filho em risco. Daí que os pais precisam ser presença positiva nesta idade. Além disto, os pais de adolescentes precisam estar antenados no que acontece no mundo dos adolescentes e no mundo ao seu redor, estarem com um “papo cabeça”, mas não como um estereótipo ou apenas uma fachada, mas de fato envolvidos com os filhos na sua idade. Agora, a pergunta que faço aos pais de adolescentes: - Vocês estão elaborados como adultos, na adolescência em que viveram? Possuem pendências mal resolvidas no passado, por decisões que tomaram na vida e que hoje sentem-se fracassados? Aqui mora a angústia de muitos pais, que confrontam na verdade com eles mesmos refletido nos adolescentes que cuidam.

Nas escolas os professores precisam ser bem flexíveis e interagirem com os adolescentes, que se forem entendidos produzirão muitas coisas criativas no ambiente escolar. Aos professores indico que estabeleçam regimento interno construído pelos próprios adolescentes com a participação do professor para que eles se sintam implicados no processo educacional. Mas a pergunta que faço aos professores é: - Vocês são professores por escolha ou por frustração? Se um adolescente percebe esta incoerência do professor, vai usar esta fragilidade a seu favor.

Quais são os desafios dessa fase?

Enfim, são muitas as questões que poderíamos elucidar aqui sobre esta fecunda fase da vida humana que é a adolescência. Tão fecunda que muitos adultos têm muita saudade da intensidade que é a vida adolescente. Mas quero apenas deixar registrado aqui alguns desafios àqueles que estão responsáveis por adolescentes, como:

1. Por terem opiniões bem definidas e serem ousados e destemidos na sua maioria, hoje são utilizados pelos narcotraficantes, adultos que colocam os adolescentes à frente do crime para que não apareçam os verdadeiros bandidos. Daí a minha grande preocupação com a tendência da população de querer dizer que os adolescentes são bandidos, e com isto aprovarem a maioridade penal para os 16 anos. Na verdade os adolescentes são vítimas e usados por adultos mal intencionados.

2. Na adolescência é comum a identificação por grupos de iguais, assim, cabe aos pais e educadores saberem com quem eles andam e onde estão. Sem, no entanto criticarem seus parceiros ou cometerem atos de preconceitos. Mas colocando seus valores e se posicionando sem ataques. Estar por perto.

3. Saber que de fato o adolescente ainda é um menor. Por isto tenham a coragem de negociar regras de sair, de voltar, de onde ir. Infelizmente no Brasil o Estado é omisso em delimitar as regras que já existem prescritas no Estatuto da Criança e Adolescentes, no que tange ao ir e vir principalmente em eventos noturnos.

4. A questão da bebida alcoólica e das drogas, onde há também uma omissão do Estado que não fiscaliza como convém. Um estado que diz proibir as drogas, mas que autoriza seu uso indiscriminado nos espaços públicos. Assim, cabe aos pais monitorarem e entenderem que quanto mais cedo uma pessoa se introduz no álcool ou nas drogas, mais tenderá a se tornar dependente. É preciso estar presente e ficar atento sim, dialogar com abertura e conscientização.

5. Vale lembrar que hoje a influência dos digitais na vida dos adolescentes é intensa. Temos inclusive a dependência digital que é o grande dilema na adolescência, desenvolvendo outros problemas que inclusive camuflam este perfil da “Psicopatologia Normal da Adolescência” que acima descrevi. Provocando com isto um adolescente infantilizado, imaturo na faixa etária e isolado de grupos, do convívio social. É preciso se posicionar drasticamente contra os digitais. Esta babá eletrônica que aparentemente pode parecer um bom caminho de paz para esta idade, na verdade é a morte prematura do adolescente. É melhor passar pela turbulência normal da adolescência, do que entregá-los antecipadamente à morte silenciosa.

É preciso se fazer porto seguro dos adolescentes, sabendo que eles podem ensaiar a aventura de partirem ao mar aberto sabendo da existência do porto. Porém, na adolescência o barco atracado ao mar precisa ainda estar com sua corda devidamente amarrada ao porto, pois ao sair em mar aberto, de fato não poderá ir tão longe assim, e quando o barco tende a querer avançar limites, o porto de prontidão recolherá o barco puxando-o pela corda. Uma analogia que podemos traduzir de forma menos romântica, libere a corda para que o adolescente possa viver, conhecer e aprender, até quando for possível e logo em seguida puxe a corda de volta para si. Ainda não chegou a hora de deixar o barco partir livre e solto em alto mar.


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