Adolescência tardia ou adultoscência, para além dos 22 anos.

Publicado em 12/06/2020


Terminando a série de artigos sobre a adolescência ( A pré-adolescência – 12 e 13 anos, A adolescência normal - 14 a 16 anos, Adolescência adulta – 17 aos 22 anos ), o tema de hoje pode parecer estranho, tendo em vista que a previsão para o término da adolescência se dá aos 22 anos (adolescência adulta). Mas já temos estudos que afirmam a necessidade de vermos a adolescência até pelo menos 26 anos, devido à tendência do processo de imaturidade observado em vários países, decorrentes do maior período de tempo que um jovem leva para sair do sistema educacional até o fim do ensino superior e pelo atraso dos jovens no ingresso ao mercado de trabalho. Lógico que estas evoluções na forma de ver a adolescência dependem muito das diversidades sócio/econômico/cultural em que estão inseridos. No Brasil, há diferenças gritantes dependendo da região e da classe social a que pertencem os indivíduos. Mas ainda, a sistematização dos estudos da adolescência segue muito os parâmetros de um padrão educacional clássico, que vai da pré-escola até o ensino superior e do desenvolvimento econômico esperado para um país em termo de crescimento e empregabilidade. Lógico que ao falarmos de um adolescente do meio rural, em relação ao do meio urbano periférico e aos urbanos incluídos no sistema educacional e nas oportunidades econômicas, teremos variações  substanciais. Vejo que nas camadas mais populares há maior tendência do adolescente antecipar a vida adulta, sendo até um não favorecimento para as etapas da psicologia do desenvolvimento, pois também tendem a uma adolescência roubada, isto é, que não lhes permitem a vivência livre e plena dela. Mas em camadas sociais mais abastadas, ou a parte superior da classe C, B e A, vemos maior tendência do atraso da adolescência e a manifestação do tema deste artigo.

Mas observamos, conforme relatos de colegas de  trabalho na psicologia que atuam diretamente nas áreas públicas sociais e em instituições de apoio sócio econômico, que a adolescência adulta também atinge os adolescentes principalmente da classe E e D, e o bloco inferior da C. Nelas, também há um referencial educacional onde os adolescentes ficam estagnados  em casa enquanto os pais saem a trabalhar. Sem oportunidades para os estudos e baixo estímulo de inserção ao mercado de trabalho, tendem a ociosidade no cotidiano, apegados às redes sociais e TVs, em que reproduzem o padrão de desejo de classes mais elevadas economicamente. Assim, já vemos a adolescência tardia se manifestar em todas as classes sociais. Um fenômeno que vemos acontecendo em bairros periféricos é a moda da classe alta sendo introduzida na classe baixa, com as famosas fabricações piratas, tênis, camisas, vestidos, enfim, uma reprodução do estilo classe alta adaptado as classes populares, que vestem as mesmas altas marcas, mesmo que disfarçadamente. É uma ditadura da sociedade de consumo, que gera de fato um desejo e uma expectativa nos jovens periféricos e que os leva a reproduzir também a imaturidade dos jovens das classes mais abastadas.

Adultoscência - manifestação da imaturidade comportamental

A adolescência tardia ou “adultoscência” é a manifestação da imaturidade comportamental de um jovem que acima dos 22 anos tem expectativas, posturas e mentalidade de um jovem aos 15/16 anos. No tempo em que era para estar já trilhando uma carreira profissional, ou tentando ganhar sua autonomia financeira, estão se rebelando contra os pais e querendo festas e mais festas, ou mesmo ficam apegados em seus grupos de amigos fechadinhos na caixinha do prazer pessoal. São jovens que aos 30 anos ainda precisam de todo tipo de apoio da família tanto econômico, como estrutural de moradia e também afetiva. Quando pensam no futuro, parece que tudo fica obscurecido, e ainda estão se perguntando o que vão ser quando crescer. Se forem de classe social inferior, tendem a manterem o ciclo de inoperância em torno das tramas que a vida lhes oferece, como os botecos da vida e a plena ociosidade, e também tem o atrativo do narcotráfico, este jogo que utiliza as camadas populares para o fortalecimento de milícias patrocinadas por classes altas, mas que fazem o território da periferia ser o quartel deles, e para isto cooptam muitos jovens para estarem no fronte como peões do crime, seduzidos pelas facilidades e conquistas fáceis. Se forem de classe social mais alta, tendem a se enganarem mudando constantemente de cursos, chegam a fazer várias faculdades, especializações, gastam anos tentando passar em um concurso público e daqui a pouco já estão com seus mais de 30 anos, totalmente dependentes dos pais e sem nenhuma ação de autonomia. Agora temos os jogos eletrônicos que diante da falta de iniciativa para a busca de autonomia leva muitos jovens à dependência eletrônica e principalmente ao vício dos jogos on-line, passam a madrugada acordados e o dia dormindo. Depressão, ansiedade e isolamento social, com sintoma de fobia social, tendem a acometer parte destes adolescentes tardios.
Há ainda uma nítida diferenciação entre os jovens homens em relação às mulheres, em que eles tendem ao isolamento e o apego eletrônico/digital e elas no sonho de encontrarem um namorado na qual vão conseguir sair da dependência dos pais. No máximo elas são absorvidas pela família para fazerem algumas tarefas de casa, e como no referencial patriarcal brasileiro as mulheres sempre foram educadas para a espera de um bom casamento, a permanência delas dentro de casa incomoda menos. Mas aos jovens homens, os pais tendem a querer interferir mais, pois a paralisia deles incomoda. Tanto incomoda que as mães são as que tendem a buscar o auxílio psicológico aos filhos homens, para ver se andam.

Não quero esquecer aqui dos eternamente adolescentes, aqueles que até a entrada à vida de idoso terão a sensação de que são adolescentes, e os percebemos na forma de vestir e nas atitudes forçadas de tentarem esconder a velhice chegando, investindo na estética corporal e em se relacionarem sempre com jovens. Mas este perfil já é a consequência do que chamo de “ecos da adolescência” que leva adultos de mais idade a sempre se remeterem ao passado adolescente com muito saudosismo, por ter sido uma etapa de vida bem vitalizante.

O que fazer para evitar a adolescência tardia? 

O que os pais podem fazer para que a adolescência se encerre propriamente aos 22 anos, é evitar o máximo possível a super proteção econômica e suas facilidades; exigirem resultados educacionais; apoiarem o a jovem trabalhar ou estagiar mesmo que esteja estudando; estarem juntos nesta busca de conquistas futuras; criar um ambiente familiar onde todos tenham que colaborar com tudo dentro de casa; delimitar sim o uso do celular e acesso às redes sociais, principalmente até pelo menos 17 anos; estimular os estudos e principalmente o hábito da leitura; envolver os filhos em atividades sociais, implicando-os na vida da comunidade onde residem; como pais, reverem suas posturas pessoais também de vícios digitais (pois os adultos embalaram neste jogo também), de reverem suas expectativas pessoais em relação ao futuro, a profissão, seus hábitos de leitura, etc, pois a melhor forma de ser pais de adolescentes é estar próximo, atualizado e ser referencia aos filhos.

  Aos pais que possuem negócio próprio, tentar aproximar os filhos do negócio e colocar atividades concretas para desenvolverem. Lembro aqui de um jovem de 19 anos que estudava medicina na capital e seus pais eram produtores rurais no interior, o filho recebera do pai uma área de café para cuidar e gerenciar mesmo a distância, e toda a produção daquela área seria destinado à manutenção do filho na faculdade de medicina. Esta atitude fez com que este jovem mantivesse em constante contato com a propriedade dos pais, tendo que aos finais de semana ir para cuidar da propriedade, designar atividades e planejar as ações da semana. Seu pai ficava apenas de suporte se houvesse alguma necessidade. E mesmo assim, com esta força tarefa, este jovem tinha índice educacional elevado. Vejo muitos jovens que saem do interior para estudarem em grandes centros e que só estudam, e ainda assim não conseguem se desenvolver nos ensinos. Depois de alguns anos voltam para o interior, fracassados e sem perspectivas.
A adolescência tardia ou “adultoscente”, não deixa de ser um sintoma de um processo de evolução de desenvolvimento que saiu do trilho, é um sintoma sim de algo que está fora de lugar. Mas se na família algum adolescente tardio ainda estiver precisando de ajuda, é preciso de fato entrar na ajuda e colaborar para que o jovem consiga vislumbrar uma saída favorável. A acomodação e a ideia de que uma hora isto passa, pode fazer com que esta postura chegue até quando a bengala de idoso for necessária. Aí o risco é muito grande.

Não posso deixar de lembrar aqui, que existe uma produção cultural de consumo que provoca o sintoma da adolescência tardia, pois jovens inaptos e imaturos tendem a consumir mais e ao mesmo tempo são menos perigosos para um sistema político onde há forte controle social por um mecanismo de controle das ideias. Jovens imaturos não exigem nada de uma nação, não cobram de políticos e sustentam a cadeia alimentar de consumo. É bom para quem tira vantagens econômicas dentro de um sistema neo-liberal ou de um capitalismo selvagem, mas péssimo para uma nação que pretende ser soberana e que favoreça a vida plena de seus cidadãos.


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