Transtorno afetivo Bipolar

Publicado em 25/06/2020


Conforme a linha da proposta apresentada no artigo Transtornos mentais a partir do CID 10, adentro agora, com um pouco mais de detalhes, na questão dos Transtornos mentais. Neste artigo, o foco é o Transtorno Afetivo Bipolar, conforme o CID 10 (Classificação de transtornos mentais e comportamentais – descrição clínicas e diretrizes diagnósticas). E também usarei alguns indicativos do DSM-V, que também é referência para a classificação internacional dos transtornos mentais.

Pelo CID 10, o Transtorno Afetivo Bipolar está classificado como F31 com uma variação entre F31.0 à F31.9. Porém aqui a intenção é a de descrever alguns pontos mais fundamentais  apontados pelo CID10, para que o leitor consiga, pelo menos, visualizar algumas características do sintoma.

No passado, este quadro era nominado como Psicose Maníaca Depressiva, porém os diagnósticos acabavam sendo taxativos e facilmente alocavam o sujeito em um quadro definitivo de doença mental, como se o transtorno fosse permanente.

Hoje podemos observar que muitos pacientes apresentam o Transtorno com ou sem sintomas psicóticos, e inclusive, quando se observa sintoma psicótico, este pode ser passageiro e não definitivo. Na verdade, poucos são os pacientes que apresentam os sintomas tanto pela mania como pela depressão, com episódios frequentes de sintoma psicótico.

Para esclarecer ao leitor, o CID 10 caracteriza sintoma psicótico como alucinações, delírios e várias anormalidades de comportamento, tais como excitação e hiperatividade grosseira, retardo psicomotor marcante e comportamento catatônico
Hoje podemos observar que muitos pacientes apresentam o Transtorno com ou sem sintomas psicóticos, e inclusive, quando se observa sintoma psicótico, este pode ser passageiro e não definitivo. Na verdade, poucos são os pacientes que apresentam os sintomas tanto pela mania como pela depressão, com episódios frequentes de sintoma psicótico.
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Características principais 

A característica principal do Transtorno Afetivo Bipolar é a elevação de humor e aumento de energia e atividade (mania ou hipomania) ou rebaixamento de humor e diminuição de energia e atividade (depressão).

Episódios maníacos duram em média duas semanas com duração mediana de  quatro a cinco meses. Episódios depressivos levam em torno de seis meses de duração mediana.

Para os episódios maníacos ou depressivos teremos os quadros sem sintoma psicótico ou com sintoma psicótico, sendo que nos episódios depressivos pode haver com ou sem sintomas somáticos, podendo ser leve ou moderado.

Também há Transtorno Afetivo Bipolar com episódio atual misto, onde existe a mistura ou alternância rápida de sintomas maníacos, hipomaníacos  e depressivos, separados por períodos de humor normal. E para este critério misto os dois sintomas sempre estão associados ou concomitantes.

Como diagnosticar uma pessoa com Transtorno afetivo bipolar?

Como o Transtorno Afetivo Bipolar possui dois sintomas bem diversificados entre mania e depressão, e dentro de cada sintoma específico há os sintomas com ou sem psicose, considero um dos transtornos mais difíceis de serem diagnosticados. O que me surpreende é quando vemos pessoas sendo classificadas com o transtorno tendo passado  por uma única consulta médica. Sabemos que muitos casos de manifestação de sintomas podem estar relacionados a crises situacionais e ou interferências químicas tanto de uso de tratamentos mais agressivos como de psicotrópicos e drogas ilícitas. Assim, o diagnóstico deve ser construído ao longo de um tratamento e na construção diagnóstica o profissional precisa buscar no histórico do paciente fragmentos de sintomas semelhantes ocorridos no passado.

A variação de humor é comum no cotidiano de cada pessoa. Um simples olhar sobre um episódio mais intenso de variação de humor, entre mania e depressão, pode levar um comportamento normal a ser considerado um quadro de transtorno. Assim, o sujeito precisa ser avaliado no seu todo, observando-se a frequência de suas alterações de humor e identificando se estas alterações apresentam sintomas bem definidos de mania ou depressão. Também, para se diagnosticar que uma pessoa está de fato enquadrada em um Transtorno Afetivo Bipolar, é preciso observar se as alterações de humor pelos dois polos de sintomas trazem consequências muito prejudiciais e sofrimento, com situação inclusive de levar o indivíduo a perda do potencial produtivo.

É tido como Transtorno Afetivo, pois decorre estruturalmente de vínculos estabelecidos nas relações afetivas ao longo da história do sujeito. Sintoma construído na evolução da história pessoal, perpassado pela cultura familiar e social em que a pessoa está inserida. Geralmente as pessoas que se enquadram neste transtorno já conseguem pontuar na sua própria história muitos momentos de intensas alterações de humor com sintomas bem delimitados entre mania e depressão. Aqui é importante tanto o médico como o psicólogo no processo de psicoterapia de suporte, ir resgatando o histórico de vínculos na vida da pessoa, e este processo tem que ser realizado com muita cautela, pois pode desencadear ainda mais o sintoma ou a fantasia de que toda a história da pessoa é um fracasso. O processo de investigação tem que ser lento e deve remeter o sujeito à proposta da reconstrução de seu histórico por si mesma, por isto que não deve ser uma condução acelerada por parte do profissional.

De fato, nos históricos dos pacientes que fazem o tratamento adequado para superar o Transtorno Afetivo Bipolar, observamos muitos processos irregulares de vínculos, em que desde a infância o sujeito sempre tem a sensação de viver em uma gangorra existencial, entre seguridade psicoafetiva amorosa e sensações de total abandono afetivo. Ambientes muito ambivalentes na frequência do cuidado principalmente no campo afetivo.

Sintomas mais frequentes

Os momentos de mania geralmente acontecem com uma forte energia para agir, mas com uma tendência de se extrapolar em algum comportamento específico como: forte compulsão alimentar, necessidade intensa de comprar, força tarefa em atividades físicas como se fosse um atleta de alta performance, compulsão sexual e ou de pornografia, e tendência a extravasar em drogas e ou bebidas. Em manias com episódio psicótico, são ações delirantes em que a pessoa nem percebe que fez, ou só percebe depois já fez, e ai entra em uma “ressaca moral”. Geralmente após um ciclo de mania vem o ciclo da depressão, até por se sentir culpado de se ter permitido aos sintomas da mania. No episódio de depressão, há uma queda generalizada de energia que leva a pessoa a desestimular de tudo, um sentimento de tristeza e que pode vir associado com quadros psicossomáticos, com manifestações de patologias na pele, dores musculares e baixas de imunidade fisiológica. No quadro depressivo com episódio psicótico, a pessoa tende a não conseguir agir por si mesma, não tem forças para reagir e geralmente associa os sintomas com pensamentos destrutivos, até com desejo suicida.

Diante da complexidade do Transtorno Afetivo Bipolar é de se estranhar o aumento absurdo de laudos com a classificação de Bipolar. Nunca se inicia um tratamento psiquiátrico ou psicológico com esta definição à frente. Sabemos que muitos profissionais definem a classificação muitas vezes por necessidades trabalhistas de laudos que justifiquem um afastamento, mas isto tem que ser muito bem esclarecido ao paciente, que precisa participar do processo também colaborando com a construção do diagnóstico.

Há cura para o transtorno afetivo bipolar? 

Se há possibilidade de cura deste transtorno, posso dizer que sim. Se assim não fosse, não estaríamos tão envolvidos com o acompanhamento de muitos pacientes que buscam uma saída. Mas um processo de “cura” do sintoma leva tempo, não tem efeito mágico e precisa de disciplina entre o suporte do médico e a psicoterapia continuada. Quem propor tratamentos mágicos com promessa de cura em curto prazo, de fato cometerá um ato de charlatanismo.

Lembrando sempre que a cura não significa a ausência de sintoma. Muitas altas de tratamentos acontecem mesmo havendo o sintoma, a diferença é que o paciente aprendeu a identificar as forças as quais desencadearam o sintoma, além de saber identificar quando elas ameaçam desencadeá-los novamente. A cura, na maioria dos casos, significa a capacidade de lidar com o sintoma bipolar, a ponto deles não interferirem na vida cotidiana da pessoa. Por isto que  em muitos casos acontece até a eliminação do uso de medicação.


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