Depressão - transtorno mental a partir do CID 10

Publicado em 02/07/2020


A depressão é hoje o transtorno mental mais diagnosticado dentre todos os transtornos. O Brasil está em primeiro lugar em diagnóstico de depressão na América Latina.

Desde 2019, a previsão era que em 2020, no Brasil, a depressão fosse a maior causa de afastamento no trabalho. Porém, sabemos que em diversos transtornos mentais a depressão aparece como sintoma, assim, podemos entender que os altos índices de depressão nos diagnósticos médicos podem estar relacionados com a falta de clareza dos sintomas e para que o sujeito não fique sem um código de CID10 a partir de uma consulta, é muito comum atribuir o problema à depressão. Desta maneira, vemos com frequência os códigos do CID10: F32 e F33 em laudos e atestados médicos, o que nos permite concluir que nossos índices podem não ser tão reais assim.

A Depressão começou a ter muita ênfase no olhar da medicina e da psicologia porque hoje se constata que 80% dos suicidas estavam com quadro depressivo a partir de investigações do núcleo familiar das vítimas de suicídio. Tratar a depressão passou a ser o grande trunfo para se prevenir o suicídio. Como veremos mais adiante, os sintomas com pensamento suicida entram nos quadros graves de depressão.

Sintomas que podem caracterizar depressão

O código F32 é intitulado Episódio Depressivo e caracterizado pelo sofrimento de humor deprimido, perda de interesse e prazer, energia reduzida levando a uma fadiga aumentada e atividade diminuída. A depressão é caracterizada como leve, moderada e grave. Para ser diagnosticado como tal, é necessário que o episódio permaneça pelo menos por duas semanas. Em casos graves o episódio pode ser vivenciado por um período curto, porém com todos os sintomas previstos para o quadro. Aqui, trago os sintomas que devem ser observados para caracterizar o Episódio Depressivo:

1. Concentração e atenção diminuída;

2. Autoestima e autoconfiança diminuída;

3. Ideias de culpa e inutilidade.


Até estes três itens acima descritos, podemos caracterizar como Episódio Depressivo leve.

4. Visão desolada e pessimista do futuro;

5. Sono perturbado.


Incluindo mais os itens 4 e 5 temos o enquadramento de Episódio moderado.

6. Ideias de atos auto agressivos ou suicídio

7. Apetite diminuído com perda substancial de peso em curto espaço de tempo.


Já com a inclusão dos itens 6 e 7 temos o Episódio no estágio grave.

Também para o Episódio Depressivo temos os quadros com ou sem sintoma somático e também com ou sem sintoma psicótico. Entendendo aqui os sintomas psicóticos como delírios, alucinações ou estupor. Estes sintomas são geralmente por sentimento de pecado, pobreza e ou pensamentos de desastres eminentes.

O Episódio Depressivo pode ser diagnosticado com mais frequência ao término da adolescência e até aos trinta anos de idade.

O Transtorno Depressivo Recorrente

O Transtorno Depressivo Recorrente F.33 é como se fosse a consolidação da depressão propriamente dita. Uma evolução de quadros episódicos para recorrentes, isto é, como se já estivesse impregnado na estrutura de personalidade do sujeito.

Geralmente são diagnósticos para idades acima de 40 anos e que se consolidam até os 50 anos. Os sintomas são parecidos com o Episódio Depressivo, porém apresentam-se de forma contínua. Neste, pode aparecer episódios graves de variação de humor e hiperatividade leve logo após a depressão pontuada de forma mais definida, que muitas vezes são precipitados pelo início do tratamento da Depressão.

Para o Transtorno de Depressão Recorrente, há uma infinidade de variações de quadros conforme a característica dos sintomas, mas que geralmente são registrados após um longo processo de acompanhamento do paciente, como: Depressão psicogênica, depressão reativa , depressão endógena, depressão maior, depressão psicótica, depressão vital etc.

Como pudemos observar o diagnóstico para depressão não é tão simples e, por isto, me assusto com os dados de que é o sintoma mais diagnosticado no Brasil. Quando uma pessoa está fazendo um tratamento com um psiquiatra tende a dizer que “trata da depressão”, pois este é um transtorno mais aceito na atualidade e causa menor espanto ao ser dito. Ainda hoje, muitos pacientes preferem ir a um Neurologista do que ao Psiquiatra, pois tem medo de ser identificado como um “louco”. Lembro recentemente de um caso de tratamento de um paciente do meio empresarial que foi “taxado” pelo seu primeiro psiquiatra de paciente bipolar. Mas depois de um ano de psicoterapia comigo fomos observando que não era um quadro bipolar e com isto a interferência medicamentosa não evoluía. Solicitei a troca de médico para que a leitura clínica ocorresse de forma interdisciplinar, e assim aconteceu. Em mais um ano de processo, o paciente já estava sem a medicação e ainda estava em psicoterapia, pois o diagnóstico dele ficou definido nesta interdisciplinaridade como Episódio Depressivo Leve. Quando este paciente estava com o laudo de bipolar, toda vez que ia a uma consulta médica por outros problemas de saúde, os médicos já entortavam o nariz e queriam atribuir todos os sintomas somáticos pelos quais o paciente procurava ajuda específica ao quadro bipolar. Estes diagnósticos “atravessados”, conforme gosto de falar, ou de intervenções “tabajara” podem, sem dúvida, estender um tratamento em demasia sem necessidade e até criar problemas de estigma ao paciente.

Tratamento interdisciplinar para a cura da depressão

Para um bom diagnóstico, um bom Psiquiatra. Eu prefiro os que passaram pela formação em residência. Porém, mesmo eles, quando diagnosticam sozinhos, muitas vezes erram. Por isto que é melhor ainda se o diagnostico for traçado também com a ajuda de um Psicólogo com domínio destes referenciais dos transtornos mentais.

Infelizmente, no Brasil, esta inter-relação profissional para se trabalhar em torno de um processo diagnóstico é uma prática pouco explorada. Vemos isto nos centros de residência em psiquiatria com profissionais de várias áreas do conhecimento atuando em parceria, mas com a autorização pela medicina de a Psiquiatria ser exercida por médicos que se titulam apenas com curso de especialização, sem a experiência da residência.

Observamos um crescente processo de diagnósticos superficiais e que não evoluem para um desfecho mais adequado. Ir delimitando um diagnóstico ajuda e muito no tratamento do transtorno. Conforme o diagnóstico tratado, podemos inclusive desenvolver a psicoterapia até sem uso da medicação, por exemplo, dentro de um quadro de Episódio Depressivo leve e até moderado em que o paciente se compromete com o tratamento e consegue ter potencial de percepção de seus sintomas e construir processos de insight. Já atendi muitos pacientes que, ao consultarmos o psiquiatra e trocarmos informações sobre o tratamento, chegamos a conclusão que o paciente poderia muito bem ser monitorado sem o uso da medicação. 

O diagnóstico bem realizado é a chave para o processo de medicação e de psicoterapia. Por exemplo, se eu estou diante de um Transtorno Depressivo Recorrente com sintoma Psicótico, sei que de imediato não vou poder fazer uma abordagem interpretativa livre, mas terei que ser suporte de escuta e de orientação ao paciente.

No processo de psicoterapia a partir dos referenciais teóricos e técnicos da Psicanálise, abordagem em que me pauto, vamos ver a construção da depressão com um olhar diferenciado dos parâmetros da medicina. Mas isto não significa que, como psicólogo, eu não tenha que estar em sintonia com as nomenclaturas científicas dos parâmetros de diagnósticos e estatísticos internacionais dos transtornos mentais.

Sempre digo aos pacientes em psicoterapia e que são monitorados medicamentosamente por um Médico Psiquiatra, que a função do médico é medicar e ver a evolução do sintoma para melhora ou não a partir da medicação. E a função do Psicólogo no processo de psicoterapia é levar o paciente a identificar a origem do sintoma e como este sintoma se construiu ao longo da história pessoal, ajudando o paciente a dialogar com o sintoma e buscando caminhos de superação. Entre o processo de início de um tratamento que necessita do auxílio medicamentoso até chegarmos a uma fase de livre associação e processos interpretativos, é um caminho longo, que requer disciplina do paciente e inclusive em muitos casos o suporte da família. Nesta fase complexa de diagnóstico, que às vezes leva mais de ano para ser mais claro, não é possível interpretar ou atuar como um processo de análise livre, pois o paciente necessita mais de um suporte na mediação dos sintomas. Por isto que em muitos casos de depressão, o Psicólogo e o Psiquiatra precisam fazer contato com a família, orientando, direcionando.

Mas o gratificante é ver pacientes em processo de alta. Quadros diagnósticos que iam de tratamentos tradicionais com ênfase exclusiva na medicação, ao adentrarem em um processo com o olhar interdisciplinar em vista de um diagnóstico mais apurado, dentro de uma perspectiva de alta tanto medicamentosa como da própria psicoterapia, podem caminhar sozinhos, superando o que, para muitos, seria impossível. Na busca de um caminho de autonomia e cura, sou guiado a trilhar este exercício profissional. O que me faz ter a certeza constatada que Depressão tem cura sim.


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