Dom Pedro Casaldáliga, uma voz que nunca calou.

Publicado em 10/08/2020

Hoje pela manhã, neste domingo de nove de agosto de 2020, dia dos pais, recebi uma mensagem de meu grande amigo Padre Aldir Los, da Diocese de São Mateus- ES. Nesta mensagem, Pe. Aldir envia uma foto do velório do corpo de Dom Pedro Casaldáliga, que faleceu no dia oito de agosto deste ano. Junto a foto a mensagem: “O corpo de Dom Pedro Casaldáliga está descalço num caixão sem flores. Com uma estola de retalhos da Nicarágua. E uma Cruz peitoral feita pelos Xavantes.” Descalço como retirante, sem flores e ostentações, e com a cruz feita por indígenas, um sinal da defesa ecológica.

Minha trajetória com Dom Pedro se deu na época em que representava a Diocese de Assis-SP no Conselho de Leigos do Regional Sul I da CNBB, que representa a região do estado de São Paulo, entre 1987 a 1990. Na oportunidade acabei sendo conduzido para o Conselho Nacional de Leigos (CNL) que na época era presidido pelo Aguiar. Tempo bom aquele, onde a Igreja Católica no Brasil abraçara a causa pela “Evangélica opção preferencial  pelos pobres”, que só se mantinha com este objetivo graças a força de muitos outros Bispos que tinham esta postura no discurso, na vida prática em suas Dioceses e nas suas escritas, como Dom Cândido Padin; Dom Luciano Mendes; Dom Aldo Gerna; Dom Tomás Balduino e muitos outros.

Com isto, davam força às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e com certeza muita força à Teologia da Libertação. Sempre víamos Dom Pedro pelas romarias, assembleias e conferências. Cheguei a ter a oportunidade de trocar cartas escritas com ele, tendo conseguido guardar apenas uma mensagem escrita à mão desejando boas vindas ao meu primeiro filho Samuel Iauany, já em 1992.

No seu livro “Na procura do Reino”, 1988, Dom Pedro sintetiza seu pensamento e desejo na época, entre reflexões a luz do Evangelho e sua veia poética. No poema retratado neste livro “Ode a Reagan”, então presidente dos EUA, ele poetiza/profetiza: “Comigo te excomungam os poetas, as crianças,  pobres da terra: Ouve-nos! É preciso pensar humanamente o mundo. Não banques de Nero. Não estás filmando, mico das telas: és o mandatário de uma grande nação(...) Exibes liberdade (com exclusividade) e cerceias os passos da libertação(...)será o último (grotesco) imperador!”. Uma profecia que ainda há de vingar pois, de Reagan até aqui, muitos outros tiranos passaram por lá e por outras grandes nações, e hoje temos o tirano maior personificado em Trump. E por aqui, outro papagaio das políticas dos EUA, que é o atual presidente do Brasil. Este, por incrível que pareça, eleito com o clamor da maioria do povo Católico deste país, mesmo sendo ele sustentado ideologicamente por grupos de extrema direita conservadora, detentores do domínio de algumas seitas cristãs fundamentalistas no Brasil.

Dom Pedro Casaldáliga, sua luta não foi em vão, mas sua profecia não foi ainda ouvida. A do povo que se faz organização, construindo uma nação onde corra leite e mel. Uma sociedade da prática da justiça e direitos iguais. Uma terra sem males. Suas provocações ao longo dos anos aparentemente foram silenciadas pela própria estrutura da Igreja Católica, que aos poucos foi perdendo a empolgante escolha preferencial pelos pobres, para se adaptar ao neoliberalismo global. Uma Igreja Católica de documentos engavetados em favor dos empobrecidos, rica de cérebro e pobre de ação. 

Hoje, o que se ouve são as vozes histéricas de louvores “papagaísticos”, sem poesia e sem vigor de ação na transformação. Uma Igreja de príncipes aburguesados. Mesmo hoje tendo à frente do rebanho o Papa Francisco, de onde provem dele mesmo esta nominação de que seus sacerdotes são príncipes escondidos em suas paróquias, em que propaga a Igreja de saída às ruas, continuamos ver o crescimento de grupos fundamentalistas, os quais, inclusive com uma prática religiosa apenas sacramental burocrática, só contribuem para o fortalecimento de um golpe político de estilo fascista, como já vimos acontecer em outras épocas.  Salvo algumas exceções,  Dom Pedro Casaldáliga, temos alguns que ainda resistem e insistem no “pacto das catacumbas”(Oscar Beozo), do qual fostes um dos precursores em Roma, e no qual as benesses dos seus paroquianos afortunados, as pressões políticas, e também esta crescente onda conservadora da Igreja Católica, não estremeceram suas escolhas. Mesmo Bispo, morreu pobre.

A Igreja que sonhou um dia, de fato não é a Igreja que assistiu anos antes de sua morte. Mas continuou fiel à sua escolha, de ser Sacerdote de Cristo, nesta configuração da Igreja Católica. Pois em suas muitas reflexões sempre nos lembrou e lembrará de que a Igreja de Cristo ainda vai acontecer em sua essência. E o sinal desta retomada à Igreja primitiva, originalmente encarnada nos excluídos desta terra, será quando a Igreja institucionalizada não mais tiver voz, nem vez, enfraquecida. Aí sim, sairemos das multidões e voltaremos novamente para as pequenas comunidades. Os onze discípulos que permaneceram unidos na Igreja primitiva, escondidos na casa de Maria, como nos lembram Inácio Larrañaga, convertiam mais pessoas ao cristianismo e para a partilha dos bens do que todos os Bispos, Padres, Religiosos e multidões reunidas em praças com todos os aparatos de mídia, conseguem fazer hoje. Isto por que o Evangelho de Cristo é partilha, que se dá nos encontros em comunidades.

Assim, por mais que sua profecia tenha sido abafada, por mais que sua história foi deixada de lado, guardada por uma minoria que ainda deseja uma Igreja-povo, temos a certeza de que vamos precisar de seus ensinamentos para os próximos desafios da humanidade e especificamente deste continente Latino Americano , que nos ensinastes a conjugar como continente Ameríndio. O legado da pandemia do corona vírus, está em deixar escancarado a gritante diferença entre ricos e pobres. Também nos está fazendo ver que nossa força está no convívio entre os mais próximos, provocada pelo isolamento social. Deixou mais escancarado que a Igreja de rituais sacramentais, via mídia, é sem vida, e que reunidos em bandos, não conseguíamos ver, avaliar. Quiçá comecemos a beber de sua fonte de orientação para reaprendermos a fazer “Igreja Povo que se organiza, gente oprimida buscando a libertação”(Zé Vicente).

Por aqui vou seguindo, bebendo de sua espiritualidade, tendo a ti como um Mestre. Peço agora a ti, rogai por nós, de onde estiver. Intercedei ao Pai Celestial pelos pobres desta terra. Animai-nos para não desistirmos deste sonho de liberdade, encorajai-nos para não nos dobrarmos às botas da opressão e dos opressores.


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