Culpa, o alimento da neurose

Publicado em 29/08/2015

 
Todo cidadão “normal” é neurótico, graças a ela nos movimentamos para frente ou para trás. Porém é preciso entender o que é uma neurose. Neurose é aquele sentimento ou sensação ou hábito comportamental que sempre se manifesta e nos dá a impressão que estamos andando numa esteira, anda que anda e não sai do lugar.

Quando um paciente chega ao processo de Psicoterapia ou Psicanálise, aquela com um foco mais direcionado para tratamento de um transtorno ou sintomatologia e este com o estabelecimento de um relacionamento de vínculo transferência sem necessidade “curativa”, observo que querem eliminar a neurose, aquele elemento que fica patinando no comportamento que insiste em permanecer e cada vez vem com mais força. Com esta demanda, oriento aos pacientes que a neurose cresce e é cada vez mais alimentada, pois há o desejo de ela ser eliminada, mas esta é uma tarefa impossível de ser realizada no tratamento. A neurose permanecerá no sujeito e o melhor caminho é aprender a ficar amigo dela, olhar para ela, identificar a trajetórias na qual ela foi se instaurando na estrutura emocional ao longo dos anos, para entender os motivos dela existir e depois aprender a ver quando ela se manifesta e não deixar que  ganhe do paciente.
Parece simples, mas tento orientar que a neurose é como um bichinho engaiolado no pensamento, que se tentarmos acabar com ela, confrontar  ou negá-la, mais  a  estamos  alimentando . A neurose tende a crescer, se fortalecer  ainda mais com  outro elemento inerente a ela, que é o sentimento de culpa. Quando o paciente ao se deparar com a manifestação de um comportamento indesejado e que quer eliminar, se culpa por não ter conseguido se antecipar e repete o ato. Pintou a culpa, a neurose cresce. Mas quando o paciente aprende a entender os motivos na qual a neurose foi instaurada e quando se vê repetindo o comportamento indesejável, fica feliz por ter conseguido enxergar e consegue até entender os motivos que colaborou para que ela aparecesse em um determinado momento, ai sim a neurose perde a força. 

Mas o caminho para alguém conseguir deixar a neurose sem alimento é longo. O caminho de deixá-la quietinha na gaiola do pensamento, fazendo com que ao longo dos anos esta neurose fique tão fraquinha que nem consegue ter forças de se manifestar. Assim  os sintomas indesejáveis podem até não se manifestar. Lembrando que este caminho é longo e necessita de muita percepção interna. Um caminho de resgate do inconsciente.
 
Mesmo a pessoa conseguindo chegar neste patamar de auto percepção, não poderá cair na tentação de que a neurose está eliminada. Quando esta tentação surge, a neurose reacende com todo vigor. É sempre bom lembrar que ela está na gaiola, apenas frágil para agir porque a estrutura psíquica está forte para deixá-la quietinha no seu canto, como acontece com o pássaro preto que vive muito tempo engaiolado, quando seu dono abre a portinha da gaiola ele nem  deseja sair , ou se sai não voa e fica perambulando pela casa. Assim é a neurose, estará sempre lá. Por isso que na psicanálise dizemos que o “sujeito normal” possui suas neuroses. Ou que a neurose é coisa dos “normais”.


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