Religião e depressão – fé e culpa

Publicado em 20/11/2020


A demanda depressiva tem aumentado em tempos da pandemia COVID-19. Mesmo antes, o Brasil já aferia altos índices de pacientes com transtorno de depressão, o que já valeu vários artigos que escrevi neste site sobre o tema. Somos o país na América Latina com o maior índice de quadros com transtorno depressivo.


A religião da culpa e a ascensão da depressão

Atualmente assistimos também a ascensão das religiões fundamentalistas no Brasil e de setores de diversas religiões com tendência ultra conservadora, desde setores da Igreja Católica até de religiões estruturais históricas de base cristã e as derivações destas denominadas Evangélicas, mas não históricas, e que aqui denomino de seitas. Esta vertente mais conservadora que remete ao fundamentalismo bíblico e traz luz ao “demônio”, em que tudo é movido pela força do mal, do pecado e consequentemente da culpa. Estas são tendências que revitalizam dilemas da idade média, como acreditar que a terra é plana, por exemplo, negando a ciência.


Este cenário, que percorre uma rede dinâmica de emergentes fundamentalistas em todo o mundo, está diretamente relacionado a uma vertente política de extrema direita, forjada, sem dúvida, para os adeptos do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Assim, a ascensão da religião que acentua a culpa traz também um forte crescimento dos sentimentos depressivos.


A religião ajuda ou prejudica no tratamento da depressão?

A religião em si, dentro de uma prática libertadora, decorrente da livre escolha e consciência pessoal, soma muito com a prevenção e/ou com a cura de doenças emocionais.


Porém, a base da prática religiosa no Brasil é judaica/cristã, já que o cristianismo nasce do judaísmo, Jesus Cristo era judeu. Com sua pregação Jesus, traz um novo mandamento, sem, no entanto, deixar o mandamento maior dos judeus “amar a Deus sobre todas as coisas” (judaísmo) “e ao próximo como a ti mesmo” (cristianismo).


A antiga regra é a regra acima de tudo, Deus acima de todos. Mas o judaísmo carrega uma contradição, pois em seu seio nasce a nova regra. Na nova regra, “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, já é uma interpretação da lei. A lei que deve estar a serviço do ser humano e não deixando-o escravo, culposo, sofrido.


A moral religiosa culposa, que engendra o chicote, a dor e sempre o olhar persecutório de Deus, só gera depressão e faz aqueles com o quadro depressivo já avançado, piorar ainda mais.


A moral religiosa engendrada na prática do amor, da solidariedade, do outro como o meu próximo, é uma prática altruísta de respeito ao próximo. Uma religião que previne doenças emocionais e inclusive é um antídoto contra a depressão. E se caso uma pessoa com esta postura religiosa venha a adquirir um transtorno depressivo, com certeza terá na religião um forte aliado de cura.


A culpa!

Um dos principais elementos comportamentais que favorecem a emergência da depressão é a culpa. Sempre brinco com meus pacientes, que tirem o chicote da bolsa e vamos picotando a extensão dele, até que não haja mais o chicote.


A culpa agrava estados obsessivos que podem até contribuir para que a pessoa se mantenha em depressão obsessivamente, tendo “benefício” dela.


Assim a religião da prática do amor mútuo é o quadro protetor para que a depressão não entre e ou que possa sair. A religião de regras rígidas, de culpabilização, é estímulo para a chegada da depressão e com esta prática o paciente depressivo dificilmente entrará em um processo de cura.


É melhor rever seus conceitos religiosos, observando se sua prática o liberta e o deixa feliz, esperançoso, ou se traz sempre a sensação de erro, de culpa e de tristeza. Esta avaliação da prática religiosa é fundamental para termos um olhar preventivo sobre a saúde emocional.


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