Deus está surdo?

Publicado em 10/03/2021



Diante da pandemia da COVID-19, que após um ano de expectativas, ensaios e erros, tanto das ciências como dos políticos, vejo pessoas, e muitas, pedindo a Deus uma saída. Neste Brasil, segundo dados do IBGE de 2010, 64,6% são católicos e 22,2% protestantes. Temos uma marca de 86,8% de população brasileira se declarando cristã e um cristianismo de clamor diante de situações de desespero. É uma fé cega, fundamentalista na sua quase totalidade.


Como já parafraseou a cantora e compositora Maria Rita, filha de Elis Regina:


“Deus lhe pague, Deus lhe crie, Deus lhe abençoe! Deus é nosso Pai e nosso guia. Tudo que se faz na terra, se coloca Deus no meio. Deus já deve estar de saco cheio...”


Essa letra de Marco Antônio e Nair Serra, consagrada na voz de Maria Rita, é um pouco a sensação que tenho sobre os múltiplos clamores que o povo cristão faz a Deus, o qual é buscado apenas na hora em que estamos desesperados pelas múltiplas besteiras que fazemos aqui na terra:


“... fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo. E só se lembram de Deus quando estão no perigo.”


De tanto ser solicitado, e a coisa só piora, Deus deve estar mesmo é surdo.


A capacidade de pensar ja é um grande milagre 

Na verdade, minha visão de Deus como criador está muito enraizada na ideia de o que Deus tinha que fazer por nós, ele já fez. Ele nos deu potencialidades de crescermos, multiplicarmos e dominarmos a terra, conforme o relato ilustrativo no livro de Gênesis, capítulo 1, versículo 28.


Agora, o resto depende do próprio ser humano. O legado Dele de nos dotar com capacidade para pensar, já é o grande milagre.


Mas, no lugar de pensarmos na perspectiva do cuidado, indicado em Gênesis, seguimos a famigerada raça humana na forma sapiens, uma espécie afeiçoada a destruir. Assim, destruímos as florestas onde os vírus podem permutar, se alojar e existir. Não existindo as florestas, teremos os vírus para nos habitar. Esse microelemento que nos derruba, como é o caso do Sars-cov-2 e suas muitas mutações. Os povos primitivos no Brasil, que ainda restam alguns remanescentes, já sabiam disto e atribuíam à floresta fenômenos divinos, para que ela ficasse intocada.


O legado de viver no coletivo!

Este mesmo Deus que nos criou nos deu o legado de vivermos no coletivo. É o lado a lado anunciado na simbologia de Adão e Eva, também citado em Gênesis capítulo 2, versículo de 18 à 25.


Mas este legado do coletivo torna-se poder de dominação. Vejo o quanto as nações mais ricas estão procurando, criar cada uma delas, isoladamente, sua defesa contra o COVID-19. Uma tamanha besteira, pois estamos globalizados. Não adianta um país pensar só em si, pois o vírus circula. Todas as ações só terão resultado se forem orquestradas a uma ação coletiva global. Mas a desigualdade econômica entre as nações coloca a humanidade em franca posição de fragilidade diante de uma pandemia. Antes o vírus da China, hoje as mutações do Amazonas, África do Sul. E agora o Brasil passa a ser o foco assustador para todo o planeta, pois sua extensão continental, que se avizinha de vários países na América Latina, associado ao fato do governo federal não ter conseguido desenvolver ações de contenção ao vírus COVID-19, decorrendo de variações para formas mais resistentes do vírus.


A letargia para ver o que Deus já nos deu, que é o potencial para crescermos, multiplicarmos e cuidarmos deste paraíso terrestre, nos coloca cegos para avançarmos na ciência, para preservarmos o meio ambiente, para protegermo-nos no futuro. A força do valor econômico nos domina para o prazer do lucro no aqui e agora. Prazer este que está reservado a pouquíssimos no planeta.


Somado a tudo isto, aqui no Brasil, os crentes fundamentalistas, que batem no peito aos berros dizendo “Senhor! Senhor! Senhor!”, se multiplicam na mesma rapidez do COVID-19. Sustentam esse governo fundamentalista/ negacionista que promovem uma verdadeira ação homicida/ genocida. Tudo em “nome de Deus”.


É preciso agir! 

Deus não está surdo, não está cego. Deus está assistindo. Aquilo que ele criou não deu certo. Ele só pode ter errado em ter dado aos humanos o livre arbítrio. Eu entendo que não foi um erro de Deus, mas sim nosso, nossa cegueira ao querermos negar nossa essência de multiplicar e cuidar.


Aos berros, e muitas orações, não vamos conseguir receber as graças de Deus. É pela ação de cuidado, do fazer prevalecer a vida neste paraíso terrestre que poderemos encontrar soluções para uma vida saudável neste planeta.


Engraçado que nos países onde o sistema público é regido pelo materialismo dialético, onde se coloca Deus de lado, o cuidado do coletivo acontece. Veja os índices de controle do COVID-19 em Cuba, Vietnã e também na própria China. Creio que Deus está por lá aplaudindo o cuidado daqueles governantes, que se quer estão preocupados com Deus.


Mas, nós por aqui, que dizemos ser o nosso modelo político o melhor, estamos só dando cabeçadas. E por aqui na verdade, Deus está de camarote assistindo.Quem sabe Deus está arrependido de ter colocado inteligência nesta criatura humana, ou quem sabe esperando que esta humanidade consiga entender e cuidar de tudo o que já foi criado.




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