Mentes que pensam em tempos de ignorância

Publicado em 14/04/2021


Nesta semana, revendo algumas fotos de viagens para a Europa, encontrei uma relíquia que eu e minha esposa Maria Celina fotografamos em Paris, França, no ano 2000, em um dos cemitérios do centro de Paris, no túmulo de Jean Paul Sartre (1905 – 1980) e Simone de Beauvoir (1908 – 1986). Sartre, o pensador do existencialismo após a segunda guerra mundial, entre os anos 1950 a 1960, no qual o homem é um ser que se define por uma consciência em que o existir e refletir é o mesmo, trazendo a temática da autoconsciência. Tem como obra de pensamento filosófico textos de destaque como “O ser e o nada” e, depois, após os anos 60, “A Crítica da razão dialética”. Alguns especialistas de estudos sobre a obra de Sartre colocam que entre o primeiro texto e o segundo há uma transição do existencialismo para o marxismo onde ele reflete a inserção do homem na sociedade e da consciência alienada.


Já sua companheira Simone de Beauvoir, também filósofa, estabeleceu um marco na história da filosofia com seu livro “O Segundo sexo”, Volumes 1 e 2. No pensamento de Simone, que reforça a busca da independência das mulheres com respeito ao machismo na sociedade, que respalda o movimento feminista na época e ecoa em todo o planeta, sendo referência inclusive no Brasil para o pensamento de brasileiras militantes do feminismo negro, como Lélia Gonzales e Djamila Ribeiro, nos Estados Unidos pelos pensamentos de Angela Davis e bell hooks. Temos a frase de Simone que marcou época no pensamento da humanidade: “As mulheres não nascem mulheres, elas se tornam mulheres”.


Pensamento atual em pleno tempo de ignorância 

Um casal que foi referência para uma geração de jovens que gritavam os sopros de liberdade: movimento estudantil de 68, movimento feminista, liberdade de expressão, questionamentos sobre o analfabetismo político. Pensadores que marcaram minha trajetória acadêmica e de minha esposa também. Um pensamento que está atual em pleno tempo de ignorância científica, fundamentalismo religioso e alienação política generalizada.


Imaginem vocês quando soubemos que em Paris o túmulo deste casal referência para mim e Maria Celina, era aberto para visitação. Foi exatamente no ano de 2000, quando muitos acreditavam que o mundo ia acabar (“dois mil não passarão”), fomos ver o mundo acabar em Paris, “kkkk!”. O túmulo, como vocês podem observar na foto, está com flores espalhadas e potinhos de mudas de flores plantadas. Sinal que a visitação é frequente, contínua, revelando que de fato este casal foi e é referência para muitas mulheres e homens que sonham com uma sociedade em que os direitos humanos e principalmente a liberdade de expressão, seja a mola mestra, sobretudo a partir do referencial dos direitos sociais. Seres humanos que saibam construir a autoconsciência pela capacidade de refletir e existir.


Tenho certeza que o túmulo do casal Beauvoir e Sartre são bem mais visitados do que o túmulo de muitos Santos canonizados pelo mundo afora. Quem sabe, estes sim são santos para uma humanidade contemporânea. Mesmo sendo eles auto declarados ateus, atuaram, em pensamento e ações, com mais humanidade, mais amor, mais esperança do que, quem sabe, a maioria dos que se intitulam portadores de crença em Deus. No Brasil vemos que lideranças que se intitulam Cristãs, promovem mentiras coletivas, ódio, incentivo ao armamento, pedofilia, saque aos fiéis de muitas seitas religiosas e inclusive de Igrejas de tradição Cristã Católica. Enfim, muitos “cristãos” condenaram e condenam Simone de Beauvoir e Sartre pelo ateísmo e materialismo deles, como se ser ateu fosse o maior de todos os pecados, e enquanto condenavam e condenam o casal, seguem destruindo esperanças.


Que bom que pudemos colher energias positivas deste túmulo simbólico de pensamentos de emancipação e esperança para a humanidade. Que em tempos de ignorâncias e crises, os pensamentos de Simone e Sartre se revitalizem entre nós, para podermos forjar novas revoluções.


Simone de Beauvoir e Sartre, rogai por nós.


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