O pensamento de Winnicott para pais e professores | O Brinquedo e o Brincar

Publicado em 06/05/2021

Hoje tenho visto pais e educadores dando cabeçada sobre o processo educacional das crianças. Com a emergência da Tecnologia de Informação e da pandemia COVID19, onde predominou a necessidade de ocupar o tempo em casa e ministrar aulas on-line para as crianças impossibilitadas de estarem na sala de aula, os digitais triunfam, tanto nas famílias e suas residências como na escola, o brinquedo e o brincar ficaram esquecidos. Por um lado, os pais divididos entre o trabalho de casa e a possível eminência da perda de emprego, por outro, os professores distantes de suas crianças com conteúdos e mais conteúdos teóricos sem a vivência prática do conhecimento.


Assim, o livro “O Brincar e a Realidade”[1], escrito por Winnicott em 1971, é um marco referencial na obra deste Psicanalista, e que até hoje nos serve de referência:


“Introduzi os termos ‘objetos transicionais’ e ‘fenômenos transicionais’ para designar a área intermediária de experiência entre o polegar e o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que já é introjetado, entre o desconhecimento primário de dívida e o reconhecimento desta” (WINNICOTT, 1975, p. 14)


Aqui Winnicott introduz de forma mais sistematizada a relação do bebê com a mãe na primeira etapa de amamentação, onde a criança estabelece uma relação de ilusão pelo ato de mamar, de ser suprido (fato real), porém de ter a satisfação emocional sobre o ato. Neste elemento, a ilusão, é que se estabelece o objeto transicional, que no primeiro momento é o bico do seio, o primeiro brinquedo da criança, que liga o bebê à sua mãe e passa a ser o ato de mamar a primeira brincadeira da criança:


“Psicologicamente, o bebê recebe de um seio que faz parte dele e a mãe dá leite a um bebê que é parte dela mesma”. (WINNICOTT, 1975, p. 27)


Tudo começa exatamente a partir deste vínculo, do encontro do bebê com os seios de sua mãe. Aqui é bom ressaltar que no lugar de mãe podemos pensar aquela que cuida. No lugar de seios podemos pensar também a mamadeira. E que no lugar da mãe isolada na relação do bebê podemos pensar o ambiente de cuidadores. Assim, o pai ou as figuras masculinas ao redor da mãe que se fazem de pais, são peças fundamentais para que este inter-jogo da ilusão com o objeto transicional possa acontecer.


Neste sentido, todo o núcleo familiar esta envolto nesta demanda. Por isso mesmo que o novo rebento que surge no seio de uma família traz grande mobilização/desmobilização ao núcleo familiar. Por daqui emana o futuro da criança para descobrir o mundo, que vai sair do processo restritivo de mamar para o processo de se encontrar com o mundo de forma criativa, desejado e vital. Do contrário, se faltar condições de ambiente que recebe, acolhe, nutre fisicamente a afetivamente, esta ilusão da criança e da mãe nesta relação se torna traumática, e começa ai os bloqueios para novas elaborações cognitivas.


Pensando nesta etapa estruturante de vínculo para os educadores de equipamentos de creches, se aprenderem e entender a força que representa esta interatividade do bebê com a mãe, estes profissionais precisarão estar envolvidos para além dos conhecimentos pedagógicos, mas sim deverão estar de alguma forma sendo a extensão dos braços que acolhem as crianças no núcleo familiar. Neste sentido, o pensamento de Winnicott joga um olhar para além da técnica pela técnica.


Pensando no ambiente familiar e também educacional a partir do brinquedo e do brincar como elemento transitório, pode-se impulsionar a criança a evoluir do vinculo materno filial para a descoberta do mundo, para novos relacionamentos e para o desejo do conhecimento. Podemos afirmar que para estes dois contextos educacionais os ambientes precisam ser movidos pelo brinquedo e pelo brincar. A insistência do brinquedo na conjugação do brincar é exatamente pelo motivo de vermos o esvaziamento deste grande elemento de relacionamento com o mundo que a criança tem em seus ambientes tanto familiares como escolares.


Os exemplos provém daquelas famílias em que você tem crianças pequenas e não encontra a boa bagunça dos brinquedos e se quer as crianças brincando, mas hipnotizadas em equipamentos eletrônicos, e nas escolas em que o foco é conteúdo e sem a experimentação do conteúdo com a prática. Pior ainda, quando vemos escolas/creches em que grande parte do tempo as crianças estão na frente de uma televisão assistindo algum desenho animado.


Veja que na cena primária do aleitamento e na evolução da criança para outras etapas evolutivas do desenvolvimento humano, o bico do seio que foi o primeiro brinquedo como objeto transicional evoluirá para outros objetos como a chupeta, a fraldinha, o ursinho ou outros objetos que a criança possa se entreter. Fazendo com que este movimento do brincar tenha grande influencia para todos os processos evolutivos cognitivos no mundo da criança e adolescente, e depois na vida adulta configurará no potencial criativo, como enfatiza Winnicott:


“...é a brincadeira que é universal e é a própria saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais...” (WINNICOTT, 1975, p. 63);


“É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua potencialidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre seu eu (self)” (WINNICOTT, 1075, p. 80).


Hoje temos várias pesquisas mostrando que o potencial cognitivo e de aprendizado da geração dos 50 anos está superior ao potencial da geração dos 20 anos, devido ao elemento Tecnologia da Informação, em que está sendo decretada a morte do brinquedo e do brincar. Com certeza a geração dos 50 anos pôde ter acesso livre aos brinquedos e brincadeiras dentro da perspectiva de estimulo à imaginação, pois o brincar requer em si a capacidade de inventar, fantasiar. e hoje o brinquedo eletrônico já vem com os direcionamentos de ação definidas, dificultando o desenvolvimento fantasioso da criança.


Para concluirmos este primeiro tema, podemos afirmar que pais e educadores que se preocupam com o futuro das crianças para que tenham potenciais cognitivos e criativos, investirão em processos educacionais que priorize o vínculo afetivo e o brincar. Pais que gastem tempo brincando livremente com seus filhos e escolas que gastem tempo com a experiências de conteúdos.


Observem quais são as cenas de sua história no seu núcleo familiar e na escola enquanto criança, que você lembra com alegria e satisfação até hoje? As que mais me marcaram foram as de atividades livres e descontraídas na família e na escola quando tínhamos que fazer coisas inovadoras e ou sair em atividades externas à sala de aula.


Também podemos lembrar-nos das pessoas que depois de muitos anos não saem de nossa memória, observe que geralmente são aquelas que se interagiram conosco de forma afetiva e efetiva. Quem pela nossa vida passou apenas por obrigatoriedade funcional, não está registrada em nossa alma, nossa psique.


Assim, Brinquedo e Brincar continuam sendo os elementos mais estruturantes na construção de pessoas livres e saudáveis emocionalmente. Este legado, a Tecnologia de Informação não vai conseguir substituir. Se nós nos deixarmos ser influenciados e dominados pelos digitais, aí sim estaremos entregues a baixa potencialidade cognitiva e a perda absoluta do maior legado de nossa espécie, que é o potencial criativo.



[1] WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1975.



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