O pensamento de Winnicott para pais e professores | Maternidade Suficientemente Boa

Publicado em 11/05/2021



Este é o segundo texto da série em que estamos falando sobre O pensamento de Winnicott para pais e professores, nele vamos abordar um forte conceito estruturante na obra de Winnicott que é “Maternidade Suficientemente Boa”.


No texto anterior desenvolvemos o tema do Brinquedo e do Brincar, confira:


O conceito de amor

Para o texto de hoje trago o livro “O Ambiente e os Processos de Maturação – Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional”[1], publicado pela editora Artmed, e que agrupa uma série de artigos escritos por Winnicott. Dele, vou abstrair uma sequência de citações, em que o autor embasa o conceito da Maternidade Suficientemente Boa.


“O início do surgimento do ego inclui inicialmente uma quase absoluta dependência do ego auxiliar da figura materna e da redução gradativa e cuidadosa da mesma visando à adaptação. Isto faz parte do que eu denomino “maternidade suficientemente boa”; neste sentido o ambiente figura entre outros aspectos essenciais da dependência, no meio do qual o lactente está se desenvolvendo, utilizando mecanismos mentais primitivos”. ( WINNICOTT,1983, p. 15).


Aqui, onde ainda a criança e mãe se fundem em um só ser, etapa estruturante da Maternidade Suficientemente Boa e que tem como período prioritário do desenvolvimento os seis primeiros meses de vida de uma criança. Winnicott vai associar esta etapa com o equivalente ao conceito de amor:


“Poderia se usar a palavra ‘amor’ aqui, correndo o risco de soar sentimental. Isto leva a observação final: muitas vezes, sem deixar a área abrangida pelo amor, verificaremos que uma criança necessita da firmeza na orientação, precisando ser tratada como a criança que é não como um adulto”.  (WINNICOTT, 1983, p. 69).


É uma percepção que geralmente observamos quando dos processos de orientação às mães no período de amamentação, que tendem a achar que a criança já possui um esquema autônomo, quando esperam que ela reaja de tal forma que lhes dê menos trabalho. Numa nítida tendência de querer eliminar os trabalhos que um lactente absorve dos adultos que estão ao seu redor. O conceito de amor é atribuído para representar um forte sentimento de fácil entendimento da mãe ao cuidar de seu bebê. Um apelativo que frequentemente é preciso ser utilizado para restabelecer a mãe nos tratos culturais para o cuidado deste novo rebento frágil e cheio de limites que é um bebê.


A presença paterna

Porém, Winnicott, sabe que a Maternidade Suficientemente Boa não diz respeito apenas à pessoa da mãe, que não vai conseguir por si só dar conta de cuidar da criança. Não há aqui neste conceito um fator que sobrecarregue a mãe, dando a ideia de uma relação machista onde tudo sobra para a mãe. Winnicott trás a figura do pai na construção do Ambiente Suficientemente Bom quando diz:


“Cuidado paterno satisfatório pode ser classificado mais ou menos em três estágios superpostos: a) Holding. b) Mãe e lactente vivendo juntos. Aqui a  função do pai (ao lidar com o ambiente para a mãe) não é conhecida da criança. c) Pai, mãe e lactente, todos vivem juntos. (...) o termo holding é  utilizado aqui para significar não apenas o segurar físico de um lactente, mas também a provisão ambiental total anterior ao conceito de viver com.” (WINNICOTT, 1960; 1983 p. 44)


Podemos observar aqui que o pai tem uma forte função na configuração desta ambiência suficientemente boa quando supre a mãe/esposa de reabastecer as energias dela para suprir a necessidade do bebê. Sempre atribuo à pessoa do pai a função de ser um “recarregador” das energias da mãe, mesmo que a criança não saiba ou não perceba. Aqui é sempre bom lembrar que é o pai ou quem está próximo da mãe que faz este papel de cuidar da ambiência. Assim, não se pode ver esta etapa estruturante do desenvolvimento emocional de um indivíduo só a partir da pessoa da mãe.


A escola no processo de independência da criança

Rumo à independência da criança, seguindo às novas etapas do desenvolvimento infantil, cabe a escola uma forte atribuição, e aos educadores um papel singular na extensão dos vínculos de afetos que sai da relação da mãe e ambiente familiar e vai para o equipamento escolar já na pré-escola. Winnicott vai nos lembrar:


“ ‘Rumo à independência’ descreve o esforço da criança pré-escolar e da criança na puberdade. No período de latência as crianças habitualmente estão satisfeitas com o que quer que tenham de dependência que são capazes de experimentar. A latência é o período do brinquedo escolar no papel de substituto para a casa”. (WINNICOTT, 1963; 1983, p. 87).


Temos esta projeção para que a criança atinja sua independência que terá como marco referencial já a idade pré-escolar que poderá contribuir para que esta nova etapa de separação do núcleo familiar se dê de forma saudável, por isso requer uma acolhida dos educadores com um forte toque de vínculo afetivo e também numa ambiência educacional em que o aprender seja introduzido de forma mais lúdica possível. Não da para se estabelecer um conceito de escola para esta etapa de vida da criança que não seja focada no afeto e na dinâmica do brincar. Por isso que atribuímos o conceito “comunidade escolar” do que escola simplesmente. Pois a comunidade escolar inclui a família, criança, equipe técnica e profissionais presentes no ambiente escolar. Escola deve ser sim uma extensão da família.


Se a Maternidade Suficientemente Boa for de fato vivenciada na vida de uma criança, ela poderá se constituir com mais facilidade para a plena autonomia e maturidade na vida adulta, como nos aponta Winnicott:


“Deve-se esperar que os adultos continuem o processo de crescer e amadurecer. (...) Mas uma vez que eles tenham encontrado um lugar na sociedade através do trabalho e tenham talvez se casado ou se estabelecido em algum padrão que seja uma conciliação entre imitar os pais e desafiadoramente estabelecer uma identidade pessoal, uma vez que esses desenvolvimentos tenham lugar pode-se dizer que se iniciou a vida adulta.” (WINNICOTT, 1963; 1983,p. 87). 


Ao trilharmos brevemente algumas citações do pensamento de Winnicott neste tema específico da Maternidade Suficientemente Boa, podemos concluir que dela é condição balizar para um indivíduo construir sua identidade e singularidade depois, na vida adulta.





[1]WINNICOTT, Donald Woods. O Ambiente e os Processos de Maturação - Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Editora Artmed, 1983






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