Winnicott para pais e educadores | O sentimento de culpa

Publicado em 13/05/2021

A culpa carrega a existência do ser humano na vida adulta. É um elemento vital na configuração dos transtornos emocionais. Relaciono a culpa ao chicote que a pessoa carrega para com frequência se auto agredir diante de ações que julga ter feito errado, em que passa a se condenar, instaurando a doença emocional.


Por este motivo que trago aqui algumas citações de textos elaborados por Winnicott que nos ajuda a entendermos os mecanismos de instauração da culpa. A referência desses textos selecionados abstraí do livro editado pela editora Artmed, “O Ambiente e os Processos de Maturação – Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional"[1], um copilado de textos selecionados com a temática dos estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional.


Este texto é a base para a reflexão que desenvolvi no vídeo com o mesmo tema no meu canal do Youtube Abarca Psicólogo (Veja: O PENSAMENTO DE WINNICOT | Sentimento de culpa Ep. 03).


A culpa a partir da ansiedade 

Segundo Winnicott: “Em termos de ego-id o sentimento de culpa é pouco mais do que ansiedade com uma qualidade especial, ansiedade sentida por causa do conflito entre amor e ódio. O sentimento de culpa implica a tolerância da ambivalência.” (WINNICOTT, 1958, 1983, p. 20).


A ambivalência instaurada no processo de estruturação do ego por conta das necessidades de impulso fisiológico e emocional (id), que se estabelece logo no primeiro ano de vida no vínculo da criança com a mãe pela necessidade nutricional de aleitamento e que também é afetiva. Uma relação que mobiliza ansiedade, tanto da criança por ser suprida, como da mãe para suprir a criança.


A ansiedade vai se transformar em culpa, conforme aponta Winnicott: “Um sentimento de culpa, portanto, implica que o ego está se conciliando com o superego. A ansiedade amadureceu rumo à culpa.” (WINNICOTT, 1958,1983 – p. 22).


A culpa é assim um processo de amadurecimento, que remete à percepção da criança pelo mecanismo de controle de suas impulsividades e desejos pelo superego, conceito atribuído por Freud para explicar a construção interna no sujeito sobre regras/moral. Fator que é também desenvolvido pela mãe quando coloca regras para o mamar, horários e todo processo de higienização no trato com a criança.


Processo de análise para trabalhar o sentimento de culpa 

Este mecanismo é perceptível na análise tanto de crianças como de adultos, onde Winnicott nos coloca: “Em uma análise bem sucedida de indivíduos que são oprimidos por um sentimento de culpa, vemos uma diminuição gradativa desta carga. Essa diminuição da carga do sentimento de culpa se segue à diminuição da repressão...” (WINNICOTT, 1958,1983 – p.23).


E de fato, muitos pacientes temem dar continuidade ao processo de análise por se assustarem com a diminuição do sentimento de culpa. Geralmente ouvimos assim: “Nossa! As pessoas estão falando que estou mais livre e se importando menos com a opinião deles e que estou ficando mais egoísta e só pensando em mim.” Também na análise de criança observamos este fenômeno, mas desenvolvido pelos pais, principalmente a mãe que chega até a interromper o processo com argumentos do tipo: “A terapia está deixando minha filha mais respondona e eu não quero correr o risco de ter uma filha assim, onde eu perco o controle.” Por isso que o processo de análise necessita ter critérios para que a dissolvição do sentimento de culpa se dê paulatinamente. Com as crianças, é importante o analista estar sempre em processo de diálogo com os pais e alertando as possíveis alterações de comportamento do filho.


Mas a culpa tem sua origem e Winnicott, que teve como base de formação para se introduzir como analista de criança após longa carreira como pediatra, a psicanalista Melanie Klein que foi a protagonista na sistematização da Psicanálise da criança, cita: “Deve-se notar que enquanto os trabalhos mais precoces da psicanálise lidaram com o conflito entre o ódio e o amor, especialmente em situações triangulares ou a três pessoa, Melanie Klein mais especialmente desenvolveu a idéia do conflito em um relacionamento simples a duas pessoas, do lactente com a mãe, conflito originado das idéias destrutivas que acompanham o impulso amoroso.” (WINNICOTT, 1958; 1983, p.25)


Melanie Klein vai elaborar o conceito na primeira etapa do vínculo da mãe com a criança da posição esquizo paranoide e posição depressiva, onde a criança estabelece na ambivalência primeira de ser nutrida pela mãe, também destruir o objeto que a nutre na relação mamar/morder, mamar/aproximar/separar e depois na condição de romper aos poucos com a relação exclusiva com o mãe para os próximos desenvolvimentos de novas etapas. Pela ambivalência de sentimento que emerge o sentimento de culpa.

 

A culpa pode dar vazão para evoluir às doenças emocionais como nos aponta Winnicott: “É fácil, contudo, pensar em termos de doença, e as duas doenças que devem ser consideradas são a melancolia e a neurose obsessiva. Há uma inter-relação entre essas duas doenças, e encontramos pacientes que alternam entre uma e outra.” (WINNICOTT, 1958; 1983 p. 23).


O sentimento de culpa no contexto escolar

O sentimento de culpa será observável também no contexto escolar, quando a criança se culpa por não entender um conteúdo e bloqueia seu estímulo ao aprendizado. Numa relação de ambivalência a criança também revive a mesma relação que estabeleceu com a mãe para o professor principalmente na pré-escola, quando a criança se introduz na alfabetização sistematizada. O professor que é a acolhida para o mundo do conhecimento sistematizado, também pode ser aquele no qual a criança vai odiar por que exige dela algo no qual ela possa entender como inatingível. Nesta relação ambivalente entre aluno/professor pode ser revitalizado o sentimento de culpa.


Assim, tanto para a ambiência familiar, como para a escolar, os pais e professores, sabendo deste mecanismo de ambivalência amor/ódio, devem introduzir as regras dentro de um processo afetivo, interacionista em que a criança vai se estruturando por consciência, elaborando frustrações, pois a ambiência é favorável para a acolhida natural desta ambivalência ao invés das regras serem colocadas de forma repressiva. É aqui que se instaura grande confusão entre colocar limites com afeto ou colocar limites com chicote.



[1] WINNICOTT,W,D - O Ambiente e os Processos de Maturação - Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre, Editora Artmed, 1983


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