O pensamento de Winnicott para pais e professores | A capacidade de estar só

Publicado em 18/05/2021


Como é difícil ficar só. A solidão nos afeta a ponto de fugirmos constantemente dela, por este motivo, trago aqui o tema “A capacidade de estar só” a partir do pensamento psicanalítico de Winnicott. Lembrando que este texto é base de reflexão do vídeo, com mesmo tema, postado no meu canal do Youtube Abarca Psicólogo (O PENSAMENTO DE WINNICOT | A capacidade de estar só Ep. 04).


Tomo como referência o texto “A capacidade para estar só” escrito por Winnicott em 1958, encontrado na edição de 1983 do livro “O ambiente e os processos de maturação”[i] sistematizado pela editora Artmed, do qual cito algumas passagens. “Quero aqui examinar a capacidade do indivíduo ficar só, partindo do pressuposto de que esta capacidade é um dos sinais mais importantes do amadurecimento do desenvolvimento emocional.” (WINNICOTT, 1958; 1983, p.31).


Quando podemos medir se uma criança está se desenvolvendo bem? 

Quando a observamos se interagindo com seus brinquedos, em sua individualidade, ficando por horas concentrada na sua fantasia, criando personagens e até dialogando com eles. Muitos pais ao observarem as crianças nesta condição, acham que elas possam estar com problemas. Alguns pais até temem que os personagens criados pela criança sejam algo de “espíritos”, quando a família possui uma interação com religião de base espiritualista.


Ao contrário, ver a criança brincando sozinha é um ótimo elemento de medida da sua evolução, como diz Winnicott: “A criança considerada normal é capaz de brincar, ficar excitada quando brinca, e se sentir satisfeita com o brinquedo, sem se sentir ameaçada pelo orgasmo físico de excitação local.” (WINNICOTT 1958, 1983, p.37). Esta excitabilidade que é transferida para o ato de brincar que a coloca na saída de si, das suas necessidade de ser nutrida/suprida, para transpor suas energias psíquicas em um processo criativo, que é o brincar.


O ambiente familiar favorável 

Porém, a criança só vai conseguir chegar neste estágio de estar só, se sentir que ao seu redor há um ambiente de seguridade físico/afetivo. Para a criança ter este encontro com suas fantasias pelo brinquedo e brincar, é uma forma de comunicar que naquele espaço ela se sente segura. Quando a criança fica sempre buscando chamar a atenção dos pais para si, e não consegue ter um momento de paz nesta relação de fazer algo consigo mesma, ela está dizendo que aquele ambiente não lhe garante proteção. Ela percebe que os pais e aqueles que cuidam não estão de fato ali, de corpo e alma, interagidos com a criança. Esta cena geralmente é atribuída a ambientes funcionais, em que os adultos e o ambiente estão ali apenas por obrigação e por suporte apenas material, que acaba não preenchendo a criança.


Como diz Winnicott: “Maturidade e capacidade de ficar só significam que o indivíduo teve oportunidade através da maternidade suficientemente boa de construir uma crença num ambiente benigno. Essa crença se constrói através da repetição de gratificações instintivas satisfatórias.” (WINNICOTT, 1958; 1983, p.34)


Este ponto de referência e seguridade que desde o primeiro dia de vida já pode ser sentido pela criança, faz se projetar para o resto da vida. Por isso que o dia das mães é um ícone que mobiliza muitas emoções, pois nos coloca nos elos desta história vivida e que na vida adulta bate em sentimentos de completude, por um ser que consegue estar só e satisfeito, ou que o sentimento de vazio e insegurança são permanentemente pontuados. Como afirma Winnicott: “A medida que o tempo passa o indivíduo introjeta o ego auxiliar da mãe e dessa maneira se torna capaz de ficar só sem apoio frequente da mãe ou de um símbolo da mãe.” (WINNICOTT, 1958; 1983 p. 34)


O ambiente escolar favorável 

Este mesmo ambiente que se passa na relação materno/filial e ambiência familiar em torno é também sentido no ambiente escolar que passa a ser a extensão de sua casa. Atribuir à escola um espaço apenas racional de construção de conhecimento é um erro enorme, pois para o início dos anos educacionais a escola é quase um cômodo da casa de uma criança. Em algumas realidades é quase que a casa toda, principalmente quando a criança vem de uma realidade social empobrecida, que é a quase esmagadora realidade da criança brasileira. Lembrando que, estamos falando aqui do estabelecimento de vínculo afetivo, desta maneira a condição social em si não é referência de mais ou menos vínculo, pois uma criança de classe enriquecida pode ter total ausência de afeto, as condições materiais não vão suprir as condições de seguridade emocional da criança.


No processo educacional ou percepção da criança que aquele ambiente é acolhedor e movido de estímulo afetivo se reflete na capacidade da criança em se colocar livremente no processo de aprendizado. Se integra e entrega profundamente ao ato de aprender, fazendo com o processo educacional o mesmo que faz quando está mergulhado no seus brinquedos e brincar. Já, as crianças que não conseguem fazer as tarefas sozinhas ou que frequentemente estão solicitando o adulto, podem estar demonstrando uma dificuldade de estar só e com isto revelando possível insegurança no ambiente escolar.



[i] WINNICOTT,W,D - O Ambiente e os Processos de Maturação - Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre, Editora Artmed, 1983


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