O Pensamento de Winnicott para pais e educadores – Vivendo de modo criativo

Publicado em 25/05/2021


Este tema, abstrai a partir de um livro, publicado pela Editora Martins Fontes, que é uma coletânea de artigos com o título “Tudo começa em casa”[i].


O conceito de criatividade 

Para mim, o conceito de criatividade é de fundamental importância na estrutura emocional de um indivíduo, e que não pode ser confundido com o “ser um artista criativo”. A arte de viver, principalmente em uma sociedade cheia de conflitos, é uma condição para poucos. Por este motivo que a maioria adoece e a vida perde significado e sentido.


Winnicott nos apresenta sua forma de pensar a criatividade: “Para ser criativa, uma pessoa tem que existir e ter um sentimento de existência, não numa forma de uma percepção consciente, mas como uma posição básica a partir da qual operar. Em consequência, a criatividade é o fazer que, gerado a partir do ser, indica que aquele que é está vivo. Pode ser que o impulso esteja em repouso; mas, quando a palavra “fazer” pode ser usada com propriedade, já existe criatividade (...). Retire os estímulos e o indivíduo não tem vida”. (WINNICOTT – 1970, 2011 – p. 23).


A relação entre vida e existir prescinde a constrição da pessoa que pode ser criativa. Mas este processo é uma construção ao longo do desenvolvimento emocional do sujeito, que requer também estímulos. “A criatividade é, portanto, a manutenção através da vida de algo que pertence à experiência infantil: a capacidade de criar o mundo. Para o bebê, isso não é difícil; se a mãe for capaz de se adaptar às necessidades do bebê...” (WINNICOTT, 1970, 2011 – p. 24). Aqui novamente há o retorno para a experiência satisfatória da criança na relação com a mãe ou com quem desempenha o papel de mãe.


Criatividade está além da arte 

Nesta questão da criatividade, temos a tendência de associar com a produção artística e, com isto, a capacidade de ter habilidades produtivas. Mas Winnicott traz uma distinção clara entre o Viver Criativo e a Criação Artística. “No viver criativo, tudo aquilo que fazemos fortalece o sentimento de que estamos vivos, de que somos nós mesmos. Uma pessoa pode olhar para uma árvore (não precisa ser necessariamente um quadro) e fazê-lo criativamente.” (WINNICOTT, 1970, 2011 – p. 28).


Conseguir chegar ao estágio de se interagir com o mundo de forma produtiva e também com liberdade fantasiosa, dando a ele significados e brilhos, caracteriza o Viver Criativo. Já a produção artística requer algum talento específico e que não representa que o artista, ao criar uma arte, seja uma pessoa que viva criativamente. Pode ser apenas uma profissão. Para Winnicott “O sintoma de uma vida não criativa é o sentimento de que nada tem significado, o sentimento de futilidade, de que nada importa.” (WINNICOTT, 1970, 2011 – p. 36).


Ambientes favoráveis para estimular a criatividade infantil 


Pais e educadores se enganam com a ideia de que ao direcionarem a criatividade das crianças as estimulam para que sejam criativas. Pelo contrário, é a ambiência de seguridade e de pertença positiva ao mundo em que a criança está inserida que vai garantir o viver criativo e a capacidade criativa. Pois esta construção tem que passar pelas necessidades pessoais da criança e sua interatividade pessoal com seu mundo. Dá-se de forma espontânea, que, se estimulada, poderá vingar a partir dela mesma. Do contrário, quando passa a ser uma imposição dos pais e educadores que tendem a moldar a criatividade da criança, observa-se um abafar da criatividade. Winnicott nos aponta que “Algumas crianças são obrigadas a crescer numa atmosfera intensamente criativa, mas que pertence aos pais...” (WINNICOTT, 1970, 2011- p. 38). Quando os pais e educadores direcionam, a partir do referencial pessoal deles, estão sufocando a criatividade da criança.


Já abordamos aqui em texto e vídeo no meu canal do YouTube ( O PENSAMENTO DE WINNICOT | A capacidade de estar só Ep. 04 ) que o brincar é a essência da construção do pensamento da criança na elaboração do mundo ao seu redor. Neste sentido, Winnicott nos lembra que “A criatividade é inerente ao brincar, e talvez não seja encontrada em nenhuma outra parte.” (WINNICOTT, 1968, 2011 – p 51).


Ambientes familiares e educacionais não precisam estar recheados de estímulos visuais ou de produções direcionadas de jogos, artes, etc. É preciso, sim, que os ambientes sejam acolhedores e estimulantes para provocar o livre brincar da criança, e ao mesmo tempo, estar junto, brincar junto, respeitando o ritmo de cada criança e deixando-a livre para expressar seus sentimentos, impulsos e fantasias.



[i] WINNICOTT, Donald Woods. Tudo começa em casa. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.


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