O pensamento de Winnicott para pais e educadores | A relação da criança com o professor

Publicado em 27/05/2021

Vou abordar este tema a partir de um texto de Winnicott de 1968 que foi catalogado pela editora Martins Fontes, em 2011, no livro “Tudo começa em casa”[i].


A relevância deste tema para pais e educadores está no conflito existente no ato de ensinar no sistema educacional e na dificuldade dos pais de acompanharem o desenvolvimento escolar dos filhos. Para os pais, este é um campo pouco dominável - por não serem profissionais da educação - e por sua vez, para os educadores, exige um domínio da psicologia do desenvolvimento afetivo das crianças, que na sua quase totalidade não foram preparados para tal.


A importância da relação entre aluno e professor(a)


Winnicott nos aborda “Acho que é bem conhecida a importância vital da relação professor-aluno. É assim que os psiquiatras começam, quando se referem a problemas de ensino. A não- confiabilidade do professor faz com que quase toda criança se desintegre. Quando uma criança relata sua dificuldade em fazer somas ( ou em História, ou em Inglês), a primeira coisa em que se pensa é: Talvez este professor não sirva. Não poucas crianças tiveram obstruído o desenvolvimento de sua aprendizagem em função do sarcasmo do professor.” ( WINNICOTT, 1968, 2011- p. 50).


Eu mesmo passei por mãos de professores sarcásticos que me atribuíam chacotas pela manifestação de meus limites na educação. Primeiro quando cheguei para estudar a primeira série em uma grande escola estadual na cidade de São José do Rio Pardo - SP, onde estudei até a oitava série. Nesta cena, estava em uma longa fila para esperar a chegada da professora e havia três filas de quase 40 crianças. Perguntei a uma senhora super estressada e brava, a pedagoga, sobre o porquê estava na fila C. Ela me disse que eu era fraquinho, por isso estava ali. Nossa, eles não me conheciam, como ela poderia saber se eu era fraquinho? E olha que isso aconteceu em uma época em que a educação era bem melhor que a de hoje.


Outro episódio foi com uma professora de português, já no ensino fundamental dois, no sexto ano. Ela usava uma técnica de cada aluno ler em voz alta um texto coletivo, e no primeiro erro de leitura ela batia um lápis sobre a mesa dela e sabíamos que era para parar e o de trás continuar a leitura. Sempre na minha vez, eu só de abrir a boca ela já batia o seu lápis na mesa, e ainda falava: “desencalha seu gaguinho...”. Lógico que sempre quis “enforcar” aquela professora de português.


Educar além da técnica! 


Winnicott nos alerta “Acho que vocês não deveriam esperar que uma criança que não alcançou o estado de unidade possa apreciar pedaços. Eles são aterradores para a criança e representam o caos. E o que vocês podem fazer? Em tais casos deixem de lado a aritmética e tentem propiciar um ambiente estável, que possibilite (ainda que tardia e tediosamente) que algum grau de integração pessoal se instale na criança imatura.” (WINNICOTT, 1968, 2011- p. 48). Aqui Winnicott traz uma clara indicação que, ao travar na criança o processo de aprendizado de uma disciplina específica, é melhor recuar e dar vazão a relação de acolhida afetiva e aguardar o tempo da criança para, assim, poder introduzir, conforme o seu limite, o conteúdo de forma lúdica, acolhendo o jeito de ser dela. Isto requer, sim, uma habilidade de vínculo afetivo que vai para além do saber ensinar conteúdos, outra habilidade que requer do professor é a paciência, para respeitar o ritmo das crianças. Mas esta posição também serve aos pais, que devem saber dos limites de seus filhos, acolher este limite sem comparar os diferentes ritmos de aprendizado de cada filho e, assim, estimular positivamente. Hoje, devo meu potencial de escrever à minha mãe Aurora, que com paciência me ajudava a ler os textos da escola, mesmo que eu levasse uma vida inteira.


Para concluir esta breve reflexão, segue uma quase síntese de Winnicott sobre este tema “A palavra-chave no que tange ao lado ambiental (corresponde à palavra “dependência”) é “confiabilidade” – confiabilidade humana e não mecânica.” (WINNICOTT, 1968, 2011 – p. 49). Educação não é conteúdo em si sistematizado. É vínculo afetivo que, de forma lúdica, pode levar as crianças ao desejo de aprender. Escolas em que as crianças ficam na expectativa de chegar a hora de irem estudar e que ao término das aulas elas adoram ficar na escola, é sinal de que lá é um ambiente que atrai a criança para ali estar. Já quando apresenta resistência em ir para a escola e ao se falar de algum professor entra em pânico, aí tem um sintoma de resistência ao processo educacional, que deve ser verificado.


Felizmente, para ser professor de crianças é preciso um potencial de interação afetiva muito definido e uma habilidade para introduzir conceitos que nunca foram vistos pela criança. Por este motivo que escola boa não é aquela que tem mais recursos, mas sim aquela que tem profissionais com conteúdo, conhecedores da psicologia do desenvolvimento infantil e capazes de estabelecer vínculo afetivo com os alunos.


Aos pais, quando a criança adentra no processo de aprendizado sistematizado, é necessário ter um ambiente familiar que proporcione à criança o brincar livremente e também a capacidade de acompanhar o processo educacional dos filhos na escola, sendo parceiros e amigos da “comunidade escolar”. É indicado que nunca ataquem os professores na frente do filho e quando precisarem ver algum procedimento na escola, que façam diretamente junto ao corpo pedagógico.




[i] [i] WINNICOTT, Donald Woods. Tudo começa em casa. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.


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