• 001 - ThinkingCreated with Sketch.
    O Psicólogo

  • O Consultório


  • Artigos

  • Vídeos


  • Notícias


  • Ócio Criativo


  • Contato



A espiritualidade do amor em Freud, Rubem Alves e Chiara Lubich

Publicado em 07/02/2022

Este texto nasce de uma primeira solicitação que meu filho Samuel e sua parceira Gabriela fizeram, em janeiro de 2019, para que eu e minha parceira Maria Celina fizéssemos a celebração de casamento deles, na cidade de Ribeirão Preto-SP. O argumento usado na época foi que tínhamos uma longa história de participação na Igreja Católica e que gostariam que fizéssemos um ritual com uma espiritualidade aberta, sem caráter religioso, pois não seria uma celebração religiosa em si, mas algo para marcar o momento entre amigos e parentes. Outra argumentação foi de que muitos dos convidados não tinham prática religiosa e muitos até eram ateus, além de outros serem de diversas religiões. Topamos, e de fato foi uma experiência que nos levou a entender que o desejo de união conjugal prescinde de alguma forma a espiritualidade. O amor vivenciado e partilhado entre duas pessoas que desejam estabelecer uma parceria, fruto de um romance, um vínculo amoroso, já é um estado de espiritualidade.


Depois, mais recente, neste janeiro de 2022, também outro casal de jovens chegou-nos com a mesma solicitação de celebrarmos um casamento sem a conotação religiosa, com quase os mesmos argumentos de Samuel e Gabriela em 2019. Desta vez foi o casal Tamires e Mauro, que residem em Guarapari-ES . Também topamos e, nesta oportunidade, tivemos uma grata surpresa: um casal de padrinhos era de união homoafetiva masculina. Uma presença que de fato tornaria muito difícil de ser permitida em um culto institucional religioso de base Cristã, tendo em vista que Tamires vem de uma família Católica e Mauro da Igreja Batista, mas não estão praticando religião no momento.


O embasamento que escolhemos para dar suporte significante ao ato celebrativo foi escolher um Judeu tido como ateu, Freud, o pai da Psicanálise; um ex-pastor Presbiteriano, Rubem Alves, um dos maiores Filósofos do Brasil; e uma mulher Católica, Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, que preconiza a “construção da Civilização do Amor”. Desta forma, elaborei assim o momento de reflexão, tanto na celebração do casamento do Samuel e Gabriela como para Tamires e Mauro:



A espiritualidade do amor a partir de Freud


Em “O Mal estar na civilização”, texto de 1930, Freud reflete que a própria civilização que nasce para trazer o bem-estar ao cidadão, acaba tirando dele a possibilidade de uma vida plena, colocando o ser humano em contínuo processo de frustrações, ou em um contínuo sentimento de insatisfação, angústia, sofrimento emocional. A saída que Freud vê nas ações humanas para se superar este mal-estar é a prática religiosa, que traz em si a promessa de uma vida plena, porém muito distante da realidade civilizatória que frustra. Freud chega a citar uma possibilidade de superação deste mal-estar quando cita o exemplo da vida vivida por São Francisco de Assis, que foi pautada por um amor absoluto e totalmente despretensioso. Interessante que Freud sendo um Judeu, e ateu, cita um ícone humano da prática do amor, que é um Santo Católico. Na célebre poesia de São Francisco: “Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado... Amar e ser amado”. Um paradigma inverso ao processo civilizatório que preconiza o bem-estar coletivo priorizando a minoria das elites. Uma promessa vazia. Freud assim afirma que há no Amor, a possibilidade de que o mal-estar na civilização se supere.





A espiritualidade do amor a partir de Rubem Alves


Já em Rubem Alves, quando elabora pensamentos em torno da vida conjugal, distingui dois tipos de vivência, trazendo como figura de linguagem o jogo de tênis e o jogo de frescobol. No tênis, duas pessoas jogam para um vencer e o outro ser derrotado. No tênis, a bolinha deve seguir uma trajetória que o outro não alcance, ou que o outro erre, é uma disputa. Relacionamentos parecidos com o jogo de tênis são continuamente conflituosos, onde há disputa de poder e um tentando destruir o outro, ou como se fala atualmente, relacionamentos tóxicos. Já no jogo de frescobol, a dupla é tida como boa quando um sempre joga a bola para o outro acertar, há uma sincronia entre os jogadores, aqueles que assistem ficam até admirados com tamanha harmonia entre os dois. Assim, casais que vivenciam a parceria conjugal como no jogo de frescobol, tendem a estabelecer um relacionamento saudável. Aqui vem esta dinâmica da reciprocidade que é inerente ao amor.



A espiritualidade do amor a partir de Chiara Lubich


Já em Chiara Lubich, ela vai traçar a percepção que deu o nome de “Fio de ouro”, pois ao observar as práticas das principais religiões no planeta, ela constatou que em todas elas o amor é o centro de convergência, dentro da perspectiva de não fazer ao outro aquilo que você não gostaria que fosse feito a você, como também de fazer ao outro aquilo que gostaria que fosse feito a você. Com este pensamento, Chiara Lubich perseguiu sua vida buscando a integração entre os diferentes líderes religiosos, preconizando a construção da “Civilização do Amor”. E nesta perspectiva, o casal que cultivar a prática do amor para além de suas necessidades pessoais, transportando para a sociedade, terá melhores condições de superar os obstáculos inerentes de uma família que se estrutura a partir do sim de um casal.



A espiritualidade do amor como o centro da relação do casal


Vejam que para diferentes pensadores, com diferentes posturas e práticas religiosas, o Amor é o centro argumentativo para o estabelecimento da espiritualidade conjugal. Neste sentido, a espiritualidade está, em si, na prática do amor, que não necessariamente precisa estar em uma prática religiosa. Por isso que muitos que praticam religião não conjugam a espiritualidade do amor, e muitos que não praticam religião conjugam a espiritualidade na vivência do amor. Desse modo, um ateu pode ser uma pessoa com muita espiritualidade se conjuga a prática do amor.


Lembrando que conjugar a prática do amor não significa viver sempre praticando o amor, pois de alguma forma estamos em um processo civilizatório que individualiza as pessoas para o amor a si mesmo, assim, deixando-nos expostos para a quebra desta espiritualidade, puxando-nos às necessidades apenas pessoais, é o tal do “cai e levanta/erra e acerta”. Mas aqui estamos falando do amor que brota no encontro com o outro, nesta troca, que precisa ser relembrado a cada dia. Neste sentido, marcar o início de uma vida conjugal com um marco simbólico celebrativo tem este valor de referência, ponto de partida.


Ao prometerem o amor na celebração do casamento, dentro da formatação que os noivos nos solicitaram, não podemos deixar de lembrar que é uma forma de assumir, num coletivo, este compromisso de amor diante de amigos, parentes e padrinhos, sabendo que é um devir, um desejo. Pois mesmo que se prometa a vivência da espiritualidade do amor para sempre, o amanhã não existe. O ontem passou. O que existe é o hoje. Todas essas promessas só valem mesmo pelas vinte e quatro horas vividas. Mas se o casal tem como princípio a espiritualidade do amor, já representam um casal desejoso, esperançoso, ávidos para viver intensamente esta espiritualidade.


Compartilhe:

 




Visualizações: 203

Contato

Site seguro

https://abarcapsicologo.com.br/ https://abarcapsicologo.com.br/