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SOCIEDADE ANTIRRACISTA | Uma luta de todos e todas!

Publicado em 10/02/2022


Inicio aqui uma série de textos com o título “Sociedade antirracista” que serão a base dos próximos vídeos publicados no meu canal no youtube: Abarca Psicólogo. Confira os vídeos na playlists: Psicologia e Sociedade antirracista


Esta minha iniciativa é resultado de uma série de leituras que realizei no ano de 2021 com a necessidade de conhecer o pensamento de pesquisadores negros do Brasil e do mundo, assim como literários negros, dentro de uma perspectiva de estar me preparando para engajar na luta antirracista. Fator que mexeu muito internamente comigo a partir de entrevistas que assisti da filósofa Djamila Ribeiro em diversos programas de TV e quando li seu livro “Pequeno Manual Antirracista”[1], onde ela traz esta luta para o coletivo, em que negros e brancos possam estar juntos nesta causa.


É preciso entender qual nosso papel e lugar diante desta luta


Sempre estive na militância pela causa antirracista, porém a partir das singelas palavras de Djamila Ribeiro percebi que precisava entender meu racismo estrutural e assumir que faço parte de uma camada da sociedade que é privilegiada. Pelo fato de ser branco, já sou um privilegiado. Assim brotou em mim a necessidade de me posicionar criticamente a partir de uma inserção mais sistematizada nesta causa. Vejam, que depois de 57 anos, e 31 anos de carreira profissional e pelo menos 40 anos militando em coletivos de movimentos negros contra o racismo, só agora identifiquei esta percepção de se ter que fazer a minha contínua autocrítica sobre manifestações do meu racismo estrutural e sobre ser um privilegiado nesta sociedade.


Atuar no movimento negro não me autoriza me sentir igual, pois sempre serei um privilegiado por ser branco. Por ser branco e trabalhar com teorias de base europeia, pela Psicanálise, observei nesta série de leituras que realizei que precisava de fato ouvir o pensamento dos muitos negros que sempre produziram Filosofia, Sociologia, Psicologia, Economia, Direito, etc, a partir dos referenciais da cultura negra, diáspora, afro descendente, mas teorias que eu não estava bebendo na fonte. Fui provocado a sair de minha zona de conforto de acreditar que só se autodeclarar antirracista e militar nesta luta em parcerias com muitos movimentos negros ao longo de minha história, me credenciava a pensar que estava sendo diferente.


Quando Djamila Ribeiro empenha esforços na luta antirracista convocando a sociedade como um todo nesta empreitada “... Afinal, o antirracismo é uma luta de todos e todas.” ( Ribeiro, 2019, p. 15). E manda um recado aos brancos, como eu, dizendo: “Pessoas brancas devem se responsabilizar pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente, produzindo desigualdades, e pessoas negras podem se conscientizar dos processos históricos para não reproduzi-los. Este livro é uma pequena contribuição para estimular o autoconhecimento e a construção de práticas antirracistas”. (Ribeiro, 2019, p. 108), me sinto motivado a entrar nessa luta.


O branco se responsabilizar pelo sistema de opressão que nos privilegia é de fato uma mudança de paradigma, pois geralmente temos a tendência de jogar a “culpa” no passado e não assumirmos que somos, enquanto brancos, partícipes da construção deste sistema de opressão. Comecei a entender que se auto responsabilizar é se colocar na percepção da extrema desigualdade entre brancos e negros, é reconhecer os múltiplos privilégios de ser branco e não jogar esta luta para aqueles que se sentem vítimas, como se esta luta não fosse minha. Não basta dizer que é antirracista, é preciso dar a cara para bater na defesa pela sociedade antirracista. Mas, na minha condição de branco, nunca deixar de ver e entender que sou um privilegiado. Pedir licença à população negra e aos múltiplos movimentos empenhados nesta causa, para poder participar desta empreitada pela sociedade antirracista.



Como a Psicologia responde a essa dor?


Ao longo de minha carreira como Psicólogo, que perpassa 31 anos de um trabalho de escuta para crianças, adolescentes e adultos pelo viés da Psicanálise, com atuação em sistema público, privado e pelo viés das Organizações Não Governamentais, acabei escolhendo priorizar teorias europeias, de brancos, como é o caso da Psicanálise, da Filosofia, Pedagogia, Sociologia. Pior ainda, levando esta formação às várias realidades sociais periféricas, jogando “goela” abaixo esquemas psicológicos que sempre tinham e tem referência ao padrão de família europeia, que ficou estabelecida numa família restritiva nuclear construída a partir da Revolução Industrial. Como branco privilegiado, levando a formação às camadas populares na sua maioria absoluta de negros, uma teoria para brancos. Negando a história, a raiz e os traços tribais da África Negra que foram dizimadas pelo processo de escravatura portuguesa. Vejam, como que achando que estava fazendo uma boa ação, estava na verdade contribuindo para a perpetuação de teorias europeias dos colonizadores.


A Europa sitiava a exploração do continente africano autorizando o comércio livre na região do Congo e Níger através da Conferência de Berlim em 1884/1885, distribuindo estas regiões da África Negra a ser explorada pelos países europeus. Freud que começa a emergir neste período e tem o marco de início da Psicanálise na publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos” (1900) e Lacan, que constrói novos referenciais para a Psicanálise a partir de 1934 na França, não abordam diretamente o racismo e a exploração da mão de obra escrava negra no período da escravatura, como elemento de sofrimento emocional (Pelo menos até agora nunca encontrei algo deles escrito de forma aberta e transparente), mesmo eles estando no epicentro da Europa e vivenciando o histórico saque comercial dos países europeus na África Negra.


Pela teoria Psicanalítica estrutural os vínculos afetivos são organizados de forma semelhante nas diversas realidades do planeta. Sempre a partir da família nuclear forjada pela revolução industrial de um modelo europeu. Não vemos nestes autores um enfoque na ordem de um modelo tribal, como é a base da estrutura familiar dos povos da África Negra quando a Europa invade o continente africano para capturar os negros como animais, separando pessoas de suas tribos, etnias, regiões. Separando familiares de laços consanguíneos para que ao chegarem no Brasil, não tivessem problemas com revoluções internas, insurreições.


No entanto, temos psicanalistas negros debruçados na construção de referenciais para que esta teoria possa servir para auxiliar na formação identitária do negro, resgatando a autoestima e o desejo de fazer acontecer uma sociedade justa e igualitária, que no Brasil precisa passar pela equidade da população negra que é a maioria. Mas são produções que pouco são exploradas no meio psicanalítico.


Novos caminhos para uma Psicanálise mais plural!


Já produziu ampla reflexão sobre os traços culturais do negro no Brasil a pesquisadora Lélia Gonzales, que inclusive não deixa de se utilizar da teoria Psicanalítica para interpretar o fenômeno dos vínculos afetivos a partir das mulheres negras “amas de leite”, nas casas dos brancos escravagistas, fator que vou aprofundar no próximo texto. Também Djamila Ribeiro vai beber da fonte da Filosofia de uma mulher branca e francesa Simone de Beauvoir para respaldar a construção de um pensamento feminista na luta do Feminismo Negro. Ambas não ficam simplesmente reproduzindo uma teoria, como fazem a quase totalidade dos psicanalistas no Brasil, como eu até então, mas sim utilizam como meio para se transformar um olhar e construir novos referenciais.


Assim como argumenta Silvio Almeida em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura transmitido ao vivo no dia 22/06/2020, quando é questionado que em sua obra “Racismo Estrutural” se utiliza de muitos teóricos europeus para construir seu pensamento, no que ele lembra que a ciência é produzida na Universidade que tem suas exigências técnicas de pesquisa e são de origem europeia. Silvio Almeida afirma que, inclusive na academia, para ser pesquisador negro é preciso mostrar amplo conhecimento das teorias que são referenciadas pela academia, na sua quase totalidade de brancos europeus, além de se ter um amplo conhecimento da cultura histórica da África Negra e de todos os detalhes do período de escravatura no Brasil, sendo que o crivo de exigência acadêmica para um negro pesquisador é maior do que para um branco. Enfim, para ser reconhecido um pesquisador negro tem que ser bom mesmo. É neste contexto que Dijamila Ribeiro se empenha em mostrar que a força do negro não deve estar apenas no futebol, na força de um corpo esbelto ou no seu gingado, no seu samba no pé, é preciso mostrar que negro produz ciência de qualidade.


Ao estar inserido nesta causa não apenas por palavras, mas com ações, fui deparando-me com meu racismo estrutural. Cito uma situação de estar realizando um curso de formação para pais e educadores em uma comunidade periférica, fazendo a exposição do conceito “Mãe suficientemente boa”, desenvolvido pelo Psicanalista D. Winnicott que é um branco Inglês, e no decorrer da fala tive a intervenção de uma mãe jovem, negra, amamentando o filho na hora da formação, dizendo que esta teoria servia para as mulheres brancas da Inglaterra, com casa, dinheiro e assistência à saúde. - “Para nós negros da periferia do Brasil, que precisamos sair para trabalhar quando o dia ainda está escuro e chegamos no barraco à noite quando já escureceu, “Mãe suficientemente boa” nunca vai existir”. Aí, caiu a ficha, mesmo estando inserido na luta antirracista, sou um privilegiado falando de teorias de privilegiados para uma população excluída de privilégios.


Mas hoje entendo que para estar nesta luta antirracista na condição de branco, é preciso a contínua percepção de meu racismo estrutural que se manifesta sutilmente em pequenos atos. E também estar sempre atento que mesmo que eu queira estar junto, estarei sempre sendo um privilegiado no meio. Desta e de muitas outras vivencias que fui levantando ao longo da minha prática como Psicólogo comecei a sistematizar um método de trabalho que estou nominando “Psicanálise Contextualizada”, onde eu posso reordenar a forma de agir trazendo os pensadores negros neste processo.


Uma luta de todos e todas!


Nesta série vamos refletir a partir de Djamila Ribeiro, que veio depois de muitos outros nomes, mas na atual realidade brasileira abriu um espectro de penetração na sociedade para os pensadores e literários negros, principalmente ao coordenar a coleção “Feminismos Plurais” da editora Jandaíra que vem colaborando para a publicação de dezenas de livros escritos por pessoas que até então não tinham tanto alcance, ou sendo lidos apenas por pesquisadores em Universidades. Passarei por Carolina Maria de Jesus, a precursora; tendo em Lélia Gonzalez a força intelectual da mulher negra na Universidade, pelos estudos em filosofia, antropologia e psicanálise e na luta política; os pensamentos do Antropólogo Rodney Willians; do Advogado Silvio Almeida; da filósofa afro americana Angela Davis; da pensadora também afro americana bell hooks; do Psiquiatra Frans Fanon; do Geógrafo Milton Santos; do ator Lázaro Ramos; das literárias/os Maryse Condé, Chimamanda, Itamar Vieira Junior, Jhon Conceito (Akiri Conakri). Também passarei por pensadores brancos que embarcaram nesta causa como o Sociólogo Jessé de Souza, que me ajudou a ver o quanto pensadores brancos consolidaram a falsa ideia da democracia racial brasileira, e assim também utilizei nestes estudos o critério de buscar informações de pesquisadores que conseguiram desenvolver pesquisas sem falsos estereótipos, neste sentido também busquei pelos estudos do Economista Celso Furtado e o Jornalista Laurentino Gomes ( mesmo este tendo sua obra amplamente questionada, inclusive por mim, preza pelo arcabouço de dados históricos que foram resgatados em sua ampla pesquisa do período de escravatura no Brasil).


Enfim, uma jornada que desejo e quero trilhar, entendendo que ao produzir estes textos para o site e os vídeos pelo youtube é uma forma de engajamento na luta por uma sociedade antirracista. Assim, meu desejo é transformado em esperança de esperançar, como já preconizou Paulo Freire, na construção da sociedade antirracista.



[1] RIBEIRO, D. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Editora Companhia Das Letras, 2019.



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