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Semana Santa: Jesus, realmente, sofreu abuso sexual no processo de crucificação?

Publicado em 14/04/2022


Este texto, faço a partir de uma matéria publicada pelo Jornal Folha de São Paulo, no dia 10/04/2022, com o título:Jesus sofreu abuso sexual antes de ser crucificado, afirma teólogo”.Mesmo a matéria trazendo a confirmação da pesquisa teológica do teólogo inglês David Tombs, da Universidade Georgetown, entendo que gera muitos questionamentos por parte dos Cristãos Católicos em tempo de Semana Santa, por ser um evento genuinamente Católico que, inclusive, não é celebrado pela maioria das Igrejas Cristãs Evangélicas no Brasil. Questionamentos do tipo: por que se apegar a esta demanda sexual em plena Semana Santa, pois o tríduo pascal, que configura as celebrações de quinta a domingo de Páscoa, tem ênfase no sofrimento e ressurreição?


Segundo o teólogo David Tombs, a partir do Evangelho de Marcos (15:15-20), fragmentos do texto revelam a exposição de Jesus a uma tortura onde lhe foi retiradas suas vestes, ficara nu, e a coorte foi chamada para o ritual desta tortura, sendo que, na época, a coorte era composta por 500 soldados, que “...e posto de joelhos o adoraram...”. Uma cena que, ao olharmos por estes fragmentos da narrativa, podemos entender que, de fato, este tipo e perfil de tortura de expor a vítima ao nudismo, é uma forma de humilhar. Tombs fez uma pesquisa a partir dos referenciais da Teologia da Libertação, que teve sua força na década de 1980-90, tendo como base as formas de tortura nos regimes totalitários e em períodos de golpes militares na América Latina, como aconteceu no Brasil. O método de deixar a vítima nua e agredir ou flagelar órgãos genitais é comum em diferentes períodos e regiões do mundo, inclusive era característico no Império Romano, onde as crucificações aconteciam com a vítima nua.


Tombs deixa a seguinte pergunta: “O que pode ter ocorrido após o desnudamento?”. Uma questão que numa leitura movida pela saga da Paixão de Cristo, não leva os fiéis a se desdobrarem na/da cena, para derivar em uma contextualização e ao mesmo tempo em um significado. Estas perguntas que nos fazem debruçar sobre os textos bíblicos, de fato, não são incentivadas pelas instituições cristãs atuais que só desejam fomentar a fé para seu nicho de vivência e interesses, principalmente no cenário brasileiro, no qual a religião tem fomentado mais ódio e discriminações do que a essência do Evangelho de Cristo, que é a prática do AMOR. E quando não se presta a isso, apenas mantém uma fé cega sem questionar e apegada em rituais.


Uma teoria espinhosa, mas que pode abrir os nossos olhos


Na matéria da Folha de São Paulo, Tombs afirma que: “...Como uma interpretação do texto pode ajudar as pessoas? O que importa é a teologia que tem efeitos, e não aquela que anda em círculos”. Manter um povo emergido no analfabetismo funcional e, assim, numa prática religiosa de manutenção dominante da elite conservadora, isso sim é uma teologia que anda em círculos. Porém, este tema de Jesus Cristo ter sido vítima de abuso sexual, também incomoda as corporações institucionais religiosas, principalmente as de base cristã, que há décadas escondem por “baixo do tapete” crimes de abuso sexual cometidos por lideranças religiosas a seus fiéis, principalmente crianças e mulheres.


Com a emergência do Estado laico, e o crescimento de movimentos sociais que buscam justiça às vítimas de abusos sexuais dentro de instituições religiosas, esta hipótese levantada por Tombs faz vir à tona todos estes debates que escancaram instituições até então tidas como sérias e sem máculas, principalmente na Igreja Católica. Na matéria da Folha é lembrado o relatório de uma comissão independente na França que apontou que a Igreja Católica francesa abrigou 3.000 padres pedófilos que vitimaram aproximadamente mais de 200 mil crianças, de 10 e 13 anos de idade, entre 1950 a 2020. Este cenário, hoje, acontece em todo o mundo. Eu sou praticante católico e como psicólogo já presenciei muitas situações de abusos sexuais acometidos por lideranças religiosas onde as vítimas não tinham como recorrer, e por serem fiéis pertencentes a uma comunidade católica tinham receio de denunciar, para não depreciar a imagem da Igreja e, ao mesmo tempo, não serem isoladas pelos membros da comunidade. Por várias vezes procurei orientação de Juízes e Promotores para viabilizar denúncia, mas sempre esbarramos na falta de um sistema judiciário que realmente desse vazão para as queixas das vítimas, além das famílias nunca terem coragem de denunciar um líder religioso, deixando nossa intervenção amarrada.


Mas, são tantos os casos de abuso sexual que já não tem como esconder e, assim, as denúncias tomam visibilidade. E também por termos os movimentos sociais atentos e mais organizados para denunciar e exigir julgamentos para os criminosos. Na Igreja Católica e em alguns movimentos de espiritualidade que são ligados a ela, que são liderados por pessoas consagradas de forma celibatária ou não, principalmente hoje em dia com a emergência de comunidades de vida a partir do carisma vinculado à Renovação Carismática, o que acontece geralmente quando surgem denúncias de abuso sexual por parte de alguma liderança, principalmente com crianças e jovens, é afastar o criminoso e desová-lo para a sociedade. Ele deixa de estar no grupo religioso, ou na paróquia, mas vai ficar livre para continuar abusando de alguém. Não conheço caso em que um Bispo de uma Diocese ou uma direção de um movimento tenha denunciado o criminoso ao Ministério Público. Oras, se o caso chegou a ser digno de extirpar o agressor do grupo ou da instituição, então por que não denunciá-lo?


Usar da religião para benefícios pessoais é o máximo da perversidade.


Desta forma, o tema que parece tão espinhoso, é de fato uma realidade. Lendo o argumento do Teólogo Tombs, posso afirmar, sim, que Jesus foi vítima de abuso no seu flagelo da Paixão. E que o cenário traz elementos diversos a serem debatidos, como: a repressão sexual que as instituições religiosas sempre pautam suas formações morais; a tendência sadomasoquista dos torturadores; a covardia do coletivo militar, que vemos nitidamente em nossas comunidades periféricas, quando a polícia chega toda armada e com grande quantitativo de soldados para matar jovens negros; a questão do coletivo de machos, que na sua essência são homofóbicos, mas que adoram estar degustando de gozo coletivo na desgraça alheia; e o quanto o coletivo dos machos reunidos revela uma perversidade que escamoteia a homossexualidade latente destes que se colocam como héteros/machos, mas que adoram um coletivo masculino de perversidades sexuais (vejam os botecos e os estádios de futebol). A homossexualidade do outro incomoda a bissexualidade deles não assumida. Desta forma, imaginem 500 soldados tirando uma lasquinha de escárnio diante de um Jesus nu, sendo torturado.


Pensar nesta perspectiva do abuso sexual de Cristo na saga da Semana Santa é dar vida ao Evangelho contextualizado no hoje. E o hoje tem múltiplas formas de abuso sexual, em crianças, adolescentes, mulheres, e de todo sofrimento da comunidade LGBTQIA+, uma demanda crescente que não pode ser desconectada da verdadeira mensagem Cristã que é o Amor e a Justiça. Que se faça justiça na defesa das vítimas e que este movimento construa processos de prevenção para que esta forma de crime não chegue a acontecer.


Uma Semana Santa apenas para suprir demandas ritualísticas é a exacerbação obsessiva e compulsiva que tanto estimulam as práticas religiosas sem significados, e também é a manutenção de uma fé cega, que não transforma. Enfim, é um pacto pela “loucura no coletivo”, pelo gozo no Divino. Aliás, com os escândalos dos líderes religiosos no esquema do ministério da educação no governo federal atual, haja gozo para o próprio bolso. E usar da religião para benefícios pessoais é o máximo da perversidade. Como o é para o suprimento de fantasias sexuais.



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