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Chegou o tempo de aprender com os filhos

Publicado em 11/08/2022


Para pensar o Dia dos Pais, quero refletir sobre um olhar diferenciado da concepção de paternidade que a sociedade machista foi configurando ao longo de nossa história embranquecida e europeizada, que sempre passou a ideia de que pais ensinam e filhos aprendem com os pais.

Contexto histórico que desencadeou essa estrutura de pai e comando

O tempo é para vermos este processo de relação dos pais com os filhos em outra perspectiva, da troca de saberes, onde o aprender passa pela via de mão dupla, em que continuamente pais e filhos estão fazendo trocas. Aqui está um retorno ao modelo primitivo tribal, no qual a configuração familiar se dá nas interações coletivas da comunidade, como nos aponta os estudos da Antropologia. Este processo faz seu retorno, hoje, em comunidades periféricas do Brasil, e outras comunidades rurais.

Com a destruição do modelo tribal, decorrente do processo de colonização europeia nos continentes que até então eram berços das culturas de vida em comunidades, em que países europeus invadem o continente africano e latino-americano, destroem povos e culturas, saqueiam bens e escravizam pessoas para estarem a serviço dos colonizadores, e depois a Revolução Industrial. Aqui, passa-se a imperar o modelo europeu que num primeiro momento transforma famílias em serviçais de coroas imperiais e depois faz a nucleação da família no quadrado pai/mãe/filhos para estarem a serviço da indústria. Emerge o Dia dos Pais e a imagem do pai macho que supre e, por isso, comanda/manda.


Na atualidade, os filhos tem muito a ensinar

Mas aqui, após esta breve localização do histórico perfil machista de paternidade, segue a demanda essencial do que desejo refletir. Em tempos atuais, filhos ensinam muito mais. Mas só quando o pai se vê neste histórico machista e se percebe no seu machismo estrutural que poderá reconhecer quando que filhos ensinam. Este ver-se no machismo estrutural é o melhor caminho para começar a mudar de postura. Depois do ver, é preciso aceitar-se machista e ainda dar o passo para tomar atitudes antimachistas. Dado estes passos, podemos, como pais, ouvir e ver o recado de ensinamento que nossos filhos estão apontando para nós, o que serve para todas as idades, desde o nascimento, como quero aqui fazer uma breve indicação de percepção nas diferentes faixas etárias dos filhos.

Na vida de bebê

Quando a mãe sobrecarregada e o bebê inquieto, com alterações de sono, trocando o dia pela noite, o filho bebê pode já estar ensinando ao pai que ele precisa estar mais próximo da esposa/mãe para dividir as tarefas de cuidados profiláticos para que a mulher possa descansar e se reabastecer para o contato que nesta fase é muito simbiótico bebê/mãe.

Na primeira infância, entre um ano e seis anos

A criança agitada e inquieta dentro de casa está alertando o pai: “quero que você brinque comigo”. Este estar junto faz a criança se concentrar e desenvolver a criatividade pela mágica do brincar. E quando o pai está estressado por conta do trabalho ou ansioso por conta do futuro incerto, a criança diz ao pai: “brinca comigo que eu te faço descansar”, pois quando o pai brinca no chão com a criança e a coloca nos braços, nas costas, se transforma em um cavalinho, em animalzinho e/ou se delicia com bolas, barros, águas, o estresse desaparece e a ansiedade se dissolve.

No ensino fundamental

Quando a criança está ávida ao conhecimento e adentra ao processo de narcisismo secundário - por ter saído da relação intrínseca com mãe e pai na estruturação do narcisismo primário - ela lembra ao pai que estudar é um processo contínuo e aí começa a cutucar o pai para fazer as tarefas juntos, a perguntar das coisas do mundo, a falar do que está aprendendo na escola. Aqui a criança ensina que se o pai é uma pessoa que tem sede do conhecimento, estimulará ao filho esta mesma busca do conhecimento. E é neste ciclo básico do ensino fundamental, que vai do primeiro ao quinto ano, que podemos ver emergir um ser que deseja crescer em conhecimento.

Na adolescência os filhos gritam os preconceitos.

Esta é a idade de tudo questionar, que muitas vezes pegam os pais acomodados no cotidiano. Sempre vão confrontar as posturas conservadoras e ultrapassadas do pai, principalmente se estes estão em grupos religiosos fundamentalistas, que em nome de uma verdade divina excluem pessoas pelas suas escolhas. Temas como gênero bissexual, homossexual, trans, pan e etc, que muitas vezes arrepiam os pais, confronta o pai que até então só imaginava que o filho poderia ser hétero. Ou quando o assunto é religião, quando o filho ensina as contradições da religião que o pai pratica, principalmente trazendo elementos da história real que o próprio pai não tinha acesso. Quando aponta, por exemplo, que o cristianismo prega o amor e que não coaduna com a ideia da agressividade, da intransigência e da arma na mão; mais ainda, quando o filho adolescente começa a praticar uma outra religião diferente e consegue viver melhor do que quando era forçado a frequentar a religião do pai.

E já na vida adulta

Quando o filho já está com suas escolhas definidas e seus hábitos direcionados, ensina ao pai que é preciso haver respeito na forma de viver o cotidiano de cada um. Pois tendemos, como pai, a querer que o filho siga sempre nossa forma de fazer as coisas, com um discurso agressivo do tipo “aqui é a minha casa e você tem que fazer do meu jeito”, mas aí o filho se afasta do pai e/ou cai fora dele. Neste ponto, o filho ensina ao pai que agora são duas pessoas inteiras que precisam se respeitar. 

Na vida adulta do filho, o pai deixa de ser pai provedor. Dissolve a ideia da lei e poder. E se o pai souber beber dos ensinamentos do filho para com ele, ganhará um amigo. Do contrário perderá o filho e ganhando um inimigo. 

Se em sua trajetória de pai ou de filho ainda não consegue ver esta virada de postura do pai no processo de educação do filho, nunca é tarde para começar!



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Avaliação:



Comentário de Anônimo em 14/08/2022 13:15:21
Ótima reflexão! Parabéns!
Precisamos nos desconstruir!

Comentário de Anônimo em 14/08/2022 14:45:35
Reflexão excelente!
Comentário de Anônimo em 14/08/2022 17:04:48
Perefeito, a estrutura machista, eurocentrica e religiosa conservadora cria essa sociedade atual e dividida pelo ódio. Cultura e educação será sempre a única saída para uma sociedade inclusiva.
Comentário de Anônimo em 14/08/2022 21:26:06
Excelente





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