Miséria, a democracia ameaçada

Publicado em 19/09/2015


                    
    O que pode ameaçar uma democracia? Relegar milhões de compatriotas à condição de miséria.
    No Brasil vivem aproximadamente mais de 40 milhões de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza, são os miseráveis. Um contingente habitacional superior a população da Argentina. Estão presentes e não os reparamos, ou se assim o fazemos, viramos nossos rostos para não ter que encarar esta terrível realidade.
    Nestes dias, ao sair de um restaurante na hora do almoço, um garoto solicitou-me um trocado por estar vigiando o carro. Meu colega virou e disse: “-vai trabalhar vagabundo-”. Retruquei o colega dizendo que aquele garoto estava trabalhando.     Agradeci ao serviço e ofereci-lhe uma remuneração. Desta vez superei meu preconceito e moralizei minha ação. Mas com certeza para reparar outras dezenas de situações em que ataquei com considerações descontextualizadas.
    A verdade é que vivemos e convivemos com a miséria alheia com tanta frequência que nos tornamos indiferente a ela. E a indiferença é o pior dos sentimentos humanos, aliás, ela é a ausência de sentimento.
    Como podemos dizer que somos um país democrático, se 40 milhões estão totalmente excluídos do sistema? Vivemos uma “Democracia Branca”. Ela não existe.        Acreditar que pelo simples fato de termos eleições, partidos políticos e Congresso Nacional, temos a garantia de sermos uma democracia é simplesmente dizer que papai Noel realmente existe.
    Temos direito de ir e vir, só com dinheiro no bolso. Somos livres para frequentar espaços culturais, só com dinheiro no bolso. Somos ouvidos em nossas reivindicações, só se formos amigos dos reis (desde os municipais, estaduais e federais). Assisto ao programa que quero, desde que pago uma TV a cabo.
Se procuro colocar os pensamentos políticos em defesa da igualdade social quando reivindico ou organizo-me em grupo para conquistar direitos, sou crítico, revolucionário, indesejável. “SE DOU PÃO AOS POBRES, CHAMAM-ME DE SANTO, MAS SE QUESTIONO O PORQUÊ FALTA PÃO NA MESA DE MILHÕES DE FAMINTOS, DIZEM QUE SOU COMUNISTA”. (DOM HÉLDER CÂMARA).
    Mesmo com todas as condições de cidadania, a abertura de expressão é tolhida nas diversas artimanhas da sociedade. Imaginem como é para um miserável.  Ele não é Miserável é só “estatística” para campanhas políticas. É disto que o Governo Federal se sustenta. Dizem que os brasileiros estão estudando mais, chegam mais facilmente à universidade, mas que universidade? O governo federal têm tirado muitas faculdades da falência com o Próuni, em compensação o que estas faculdades estão oferecendo aos beneficiados? Cursos vagos e sem perspectivas de mercado. Enquanto isto, nas Universidades Públicas, há muita vaga para ser ocupada, para os não miseráveis… estes não conseguem estudar. O sujeito miserável não existe e não conquista vagas, cotas e nem bolsa família.
    Quando da última vez que Fidel Castro esteve no Brasil, a grande imprensa o questionava do seu regime ditatorial. Ele categoricamente respondia perguntando: - “Onde está a Democracia de vocês?.  No monopólio de uma rede de televisão”. Questionaram Fidel dos crimes políticos em seu País na qual ele retrucou:- “e o que vocês fazem com os crimes gerados pela miséria, vocês condenam milhões à fome por alguma estratégia política?… vão até meu País para encontrar os miseráveis, não encontrarão, somos pobres por um monopólio político internacional, que inclusive o país de vocês se sujeita”.
    Estive no Rio de Janeiro neste ano. A cidade maravilhosa. Mas quanta miséria, as famílias se “empilham” pelos morros, não existe uma via que ao se transitar não se vê moradias subumanas. Falando em turismo, só a cidade de Buenos Aires recebe por ano mais turistas que todo o território brasileiro recebe em um mesmo período, depois dizem que somos turísticos.
Você já foi à Porto Seguro? Certamente um dos locais mais visitados do Brasil. Como é difícil ficar na praia, centenas de meninos e meninas pedindo ou vendendo algo. Com certeza não estão nas salas de aula. Depois falamos que baiano não gosta de trabalhar. Conheci em Porto Seguro o Zeca do Coco, que você já deve ter ouvido falar, ele me disse que às quatro da manhã com seus cinco filhos e a esposa, já estão organizando as caixas para armazenar os cocos… todos os filhos fora da escola. Trabalhador sou eu, paulista que “encapixabou”, que para levantar as oito é aquele sacrifício. Que quando faz turismo chega à praia pelo menos quatro horas depois do vendedor ambulante. Só por que o vendedor ambulante pode estar deitado na rede, ao lado de seu carrinho de coco, pensamos que é vagabundo.
    É sempre bom lembrar que a miséria de hoje é resultado da nossa colonização corrupta de ontem. E que o aumento dos miseráveis nas nossas cidades de hoje é também a consequência da lavagem de dinheiro dos políticos brasileiros e também do empresariado brasileiro. Elegemos corruptos por que somos corruptíveis, está no DNA da cultura brasileira. Mas a corrupção deixa um sintoma indesejável e impossível de não aparecer, que são os miseráveis, sem tetos, sem terras, sem comida para o dia a dia.
    É sempre bom lembrar, que um natal sem fome não vai tirar os 40 milhões de brasileiros da miséria. Só uma ação política - vontade política - fará dos miseráveis cidadãos inclusos. Ações solidárias, muitas vezes têm colaborado para anestesiar a realidade, como se estivéssemos passando um pó de arroz no rosto.
Só poderemos dizer que somos um país Democrático quando tivermos erradicado a miséria, e elevado todos os cidadãos e cidadãs à dignidade de ser, pertencer, pensar, agir e sonhar.



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