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Pais tem prazo de validade?

Publicado em 10/05/2024

Esta é uma pergunta que sempre norteia a relação entre pais e filhos. Por um lado, os filhos muitas vezes já não querem a interferências dos pais quando crescem, e, por outro, os pais também questionam até quando continuarão pais.


Sabemos que, na perspectiva de estrutura familiar, da dinâmica biológica e genética, uma vez pais, para sempre pais. Mas a demanda que trago aqui está relacionada à condição de pais enquanto papel. A identidade de ser pai e mãe que, no processo de gestar filhos, precisam cuidar e educar para que, um dia, estes possam tornar-se adultos autônomos. Nesta perspectiva, pais tem, sim, um prazo de validade até que os filhos tenham a sua autonomia plena. Que precisam ser cuidados como filhos enquanto não conseguem caminhar plenamente sozinhos. Esta máxima pode levar um filho, quando adulto, a também tornar-se pai ou mãe. Sair da condição de ser cuidado e passar à condição de cuidar. Da condição de receber amor para oferecer amor.


Por quê se torna difícil evoluir na condição de deixar de ser pais ou filhos?


Lógico que este é percebido como um processo natural da evolução humana, mas, na realidade, poucos conseguem atingir tal patamar. E aqui surge a pergunta: Por quê se torna difícil evoluir na condição de deixar de ser pais ou filhos?


Minha percepção, ao longo de minha trajetória como Psicólogo e da perspectiva do referencial da Psicanálise, é de que a constituição de famílias na sociedade brasileira se dá a partir de um apego protecionista muito forte. Este protecionismo, por muitas vezes, é construído pela visão da Família, dentro de uma perspectiva de família nuclear fechada, como o epicentro da existência humana.


Esta perspectiva é fortemente acentuada pelas religiões de base cristã e pelo modelo de sobrenomes tradicionais, herança do processo colonizador em que valoriza as famílias de origem europeia. Há cidades no Brasil que, inclusive, o comando político se reveza entre famílias tradicionais. Outros fatores que também podemos citar aqui são aqueles de ordem socioeconômica, em que há a necessidade de suporte dentro da família nuclear por questões financeiras e/ou por serem famílias que requerem o fechamento para não terem suas estruturas ameaçadas.


No entanto, quero pontuar aqui a questão de necessidades emocionais de vínculo afetivo que leva ao protecionismo dos pais e, consequentemente, ao processo dos mesmos se eternizarem nesta posição. Este vínculo afetivo favorece uma relação de poder dos pais sobre os filhos, pois a maioria destes possuem como única perspectiva de vida, e/ou, projeto de serem pais. Assim, se posicionam no comando dos filhos, mesmo depois que estes se casam, mantendo o poder sobre eles e, inclusive, sobre os netos que vierem. Percebemos esta força que os levam a desejar manter este referencial de poder quando pensam, por exemplo, em fazer um “puxadinho” no terreno da casa para que os filhos possam morar perto ou nas rivalidades entre sogras e noras, que “roubam” os filhos homens das mães e vice-versa.


Este apego afetivo já pode ser percebido logo nos primeiros dias de vida de uma criança, quando há um forte apego das mães nos cuidados dos bebês. Um processo quase que simbiótico no qual a mãe leva o filho a ter uma necessidade extrema da sua pessoa. E, mesmo com as mães que trabalham, este apego acontece, principalmente quando tal criança é cuidada por um membro da família (principalmente a avó). Mas e o pai? Não tem influência neste processo? Sim, pois se acomodam na condição de delegar o processo educacional de cuidado imediato às mães. É como se houvesse um acordo silencioso.


Por sua vez, há um aumento da dependência dos filhos em relação aos seus pais, reforçando a posição destes. É o caso de jovens que estão adiando a saída de casa por se sentirem mais protegidos e não quererem perder as mordomias protecionistas, mesmo que estejam trabalhando e tenham condições de pagar suas despesas pessoais e morarem sozinhos. Este é um fenômeno que tem afetado jovens do mundo todo e que, inclusive, tem levado especialistas a pensarem na possibilidade de se aumentar a classificação etária da adolescência diante do aumento de jovens entre 30 a 40 anos com comportamento tipicamente adolescente de dependência.


O que fazer?


Para os pais, o melhor caminho é o processo educacional visando o momento não precisarem assumir a responsabilidade educacional dos filhos. Entender que pai e mãe têm prazo de validade, sim. Pois, desta forma, estarão desenvolvendo um projeto de vida pessoal para além da função parental. Poderão usufruir a vida para depois desta missão sem ficarem amarrados na vida de filhos já adultos. Também, nesta posição, estarão conduzindo o processo educacional dos filhos com processos de autonomia, onde a meta é de fato a liberdade dos filhos deles escolherem ser o que querem ser e que a responsabilidade de tais escolhas passa a ser deles mesmos.


Educar para a liberdade plena e para a autonomia leva a uma parentalidade mais leve e sem sentimentos de culpa, uma vez que os erros que os filhos adultos possam cometer já não é mais responsabilidade dos pais. Porém, assumir esta condição requer uma forte capacidade de colocar limites, saber que os filhos não são propriedade e entender que a vida não se dá apenas na vivência de um único papel. É preciso ter conseguido se separar da dependência dos próprios pais para ocupar tal posição por um período e, posteriormente, viver em plenitude a vida de cidadãos pelo mundo.


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