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Cheguei aos 60 anos: Sou idoso ou ancião?

Publicado em 03/06/2024

No dia 09 de Junho de 2024, comemoro 60 anos de idade. Cheguei na faixa etária de idoso ou começo a trilhar o caminho de um ancião? A única certeza é que poderei fazer uma carteira preferencial para poder estacionar em vagas de idosos e pagar meia-entrada em eventos pagos, tendo também o privilégio de filas especiais. Apesar de que, no caso das filas, este benefício já não está sendo muito vantajoso, uma vez que o quantitativo de cidadãos acima dos 60 anos de idade tem aumentado, tornando tais filas igualmente longas em certos casos.


Pensar em ser idoso, neste país, é uma referência que depende do histórico de trabalho e seus desgastes físicos; depende das condições financeiras de quem chega aos 60 anos; depende de onde mora, do que come, quais e quantos benefícios pôde usufruir até chegar nesta idade.


No meu caso, que há 33 anos atuo como Psicólogo que pouco se desgasta fisicamente em função deste trabalho, não encara sol, chuva e serviço braçal, usufruir de privilégios dos 60 anos é um contrassenso comparado a uma pessoa que sempre trabalhou com a força física e sujeita às intempéries climáticas. Mas, aqui, entra tanto uma questão de demanda política (aposentadoria, planos de saúde, etc) quanto, de alguma forma, no embate da pauta dos costumes, na qual as profissões vão se digladiar defendendo o desgaste existente em cada ofício conforme suas necessidades. A partir desta visão, para este texto, quero simplesmente refletir o conceito de Idoso e Ancião. E, a partir destes conceitos, propor uma reflexão sobre a questão da construção de expectativas emocionais a partir dos 60 anos como marco referencial.


Expectativas emocionais a partir dos 60 anos


Hoje mesmo, uma pessoa de 50 anos me disse que tem pavor de se pensar chegando aos 60, também duvidando da minha idade a partir da percepção de que me encontrava muito jovial. Esta pessoa, funcionária técnica de enfermagem em hospital público que trabalha desde os 18 anos na área, já se aposentou mas precisa continuar trabalhando em meio aos desgastes físicos dos múltiplos plantões hospitalares e também sofrimentos emocionais por presenciar mortes, situações de sofrimentos e um sistema de saúde precário para se trabalhar. Aos 50 anos, ela, de fato, já estava sentindo o peso de seu trabalho. Porém, eu, me expus muito pouco aos pesos do meu ofício e, consequentemente, tive condições de chegar aos 60 anos de idade com uma jovialidade física melhor.


Lógico que, para cada caso, uma realidade. Mas, no geral, quem mais vai sofrer o peso da idade são as profissões que requerem esforço contínuo, sem muita autonomia de ação e que estão sujeitas a regras pré-estabelecidas por terceiros. Sendo assim, esta ideia de igualar aposentadorias como se todos trabalhassem com os mesmos desgastes, é uma balela que ainda estamos muito longe de ver superada.

Mas vamos ao ponto.


Idoso...


Idoso é um representativo de algo que está ficando desgastado. É uma referência de algo que foi usado (inclusive dentro de uma perspectiva mercantilista) nesta sociedade cuja força-motriz é a Produção. Uma simbologia ocidental para entrar na curva declinante da existência. E, em muitas situações, uma peça descartada. É fácil percebermos isso diante do cenário de empregabilidade, no qual uma pessoa com 60 anos que se encontra desempregada e necessita continuar trabalhando (como é a maioria esmagadora de nossa sociedade), terá maior dificuldade de conquistar uma vaga ao enfrentar filas para entrevistas de emprego. Nesta condição, o desenvolvimento emocional para enfrentar a vida de idoso também vai seguir o mesmo desgaste, com o surgimento de sintomas do envelhecimento e uma baixa autoestima associada até com sentimentos de angústia e/ou pânico quando se projeta o futuro de uma morte cada vez mais próxima.


...ou ansião?


Ancião, por sua vez, remete a alguém que carrega uma história e que é visto como uma referência de memória, seja na família, na comunidade e no trabalho/profissão. O Ancião guarda a ancestralidade de um povo e de uma nação. Colocado em um patamar elevado dentro de uma comunidade indígena, para ser a preservação de um povo. Assim também são os Griôs em muitas comunidades e/ou territórios do continente africano, os quais têm pessoas anciãs contadoras de histórias, rememorando ancestralidades. E as poucas empresas que cultuam seus anciões, que deram origem ou fazem parte do corpo de trabalhadores na história da empresa, terão perspectivas perenes, mesmo sendo uma ocorrência rara num mercado financeiro de metas e produtividades competitivas. Na perspectiva Anciã, o desenrolar emocional configura em uma relação saudável com a conquista dos anos, pois será alguém necessário, referendado. Assim, a idade não implica em problema, pelo contrário: é algo que cria um devir, um desejo de alcançar.


A verdade da preservação da ancestralidade de um povo pode ser observada na História do Brasil, a qual, mesmo marcada por centenas de anos de dizimação de indígenas e grupos étnicos do continente africano, é permeada por povos e culturas que resistem e insistem, visto que seus anciãos continuam sendo referendados.


Chego aos meus 60 com um enorme desejo de alcançar idades mais avançadas para degustar o prazer de ser referência anciã no que desenvolvo. Entro nos 60 com projetos audaciosos e a noção de que colherei frutos para além dos meus 90. Não sou um Ancião por conta dos meus 60, mas começo a me organizar desde já para atingir este patamar. Começo meus 60 anos como se estivesse começando tudo do princípio e daí me renovo. O sintoma da minha idade é o desejo de desejar sempre.


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